Nighthawks

Preciso fazer algo. Retomar o controle das coisas, tê-lo de novo em minhas mãos.

Preciso de um cigarro. Pra quê poupar os pulmões, não é mesmo?

Dois minutos para a meia-noite, a melhor hora pra andar pelas ruas, espiar o lado b da cidade, como se a gente olhasse por trás das cortinas de teatro do mundo, ou tentasse remontar a intensidade de uma festa a partir dos restos de balão estourado e vômito no chão. A cidade de dia é completamente impessoal, todos são gado, colônias de formigas espaciais estocando grãos e se movendo em massa pra lá e pra cá pra aproveitar a luz do sol da melhor maneira possível.

As formigas saem de casa, trabalham, mastigam a comida, trabalham, voltam pra colônia e dormem.

De manhã você não tem um somente um nome, você é sua carta de identidade, seu CPF, seu número da carteira de trabalho. Você tem que estar em algum lugar, ir a algum lugar específico e fazer algo específico pra ganhar dinheiro e depois disso voltar para um lugar com pessoas esperando por você. A manhã tem uma agenda estrita e não permite falhas, é o que coloca o mundo nos eixos.

De madrugada tudo fica diferente, supostamente seus deveres já foram cumpridos. Sem precisarmos parecer ocupados ou atrasados, estar fora de casa é uma opção, não uma obrigação e cada mísera alma que persiste nas ruas fica absolutamente fascinante. Você é uma carta em branco, pode ser quem quiser e como quiser.

Tem um café árabe que fica aberto essa hora, o único desse bairro que vende minha marca de fumo preferida, cheio de pessoas invertidas, lixeiros, frentistas, vigilantes, enfermeiras e prostitutas saindo do turno, indo dormir com o fim da noite. Todos que são também invisíveis pra cidade matutina.

Exceto por quem usa uniforme, não dá pra saber quem é o quê muito bem, mas todos dividem o pacto noturno, aquela cordialidade de quem sabe o cansaço do outro.

Hoje excepcionalmente vazio, exceto por outro notívago e uma moça linda de vestido vermelho.

Começo a enrolar o cigarro e cumprimento os dois com o olhar, ele responde vagamente do outro lado do balcão, ela sorri.

-Boa noite, ela diz.

-Boa noite.

-Me arranja um cigarro desses, cowboy?

-Pode ficar com esse, cowgirl.

Ela agradece sorrindo, é um daqueles sorrisos autênticos, de dentes um pouco tortos, muito mais bonitos do que os de quem tem os dentes perfeitos. Enquanto passo o cigarro pra ela, os dedos se tocam rapidamente e sinto uma bobina de tesla ser ligada na minha coluna.

-Você já sabe o que vai pedir?

– Um café e kafta no prato. É o que eu sempre peço.

-Kafka no prato? Não parece muito bom, ela diz sem a certeza de que eu vou entender o trocadilho de mal-gosto.

-Kafta. É um prato árabe. Kafka no prato deve ser algum besouro muito grande, mal passado e mal temperado.

-E um contrato de 50 páginas, com várias cláusulas pra assinar, revisado e autorizado pelo seu pai, que não fala direito com você há uns quatro anos.

Ambos rimos devagar, de maneira relaxada, como quem ri de algo dito por um amigo íntimo ou amante.

Ambos lemos Kafka em algum ponto da vida, ambos gostamos de fumo suave da Red Apple.

Ambos estamos aqui nesse momento, numa rua vazia de uma cidade dormindo. É estranho, esse tipo de coisa não acontece na vida real, só numa tela, normalmente com o Gregory Peck e a Audrey Hepburn, essa sintonia imediata com um completo estranho.

Conversamos por minutos que parecem horas e a conexão é muito clara, algo totalmente espontâneo e genuíno de uma forma que nunca experimentei na vida.

Eu podia tomar o controle e estender esse momento, preservar ele numa espécie de foto ou pintura, mas esse tipo de coisa nunca funciona como a gente espera.

-Preciso ir, foi bom conversar com você, eu não ria assim há séculos.

-Você precisa mesmo ir agora? Tento usar um tom que não soe patético e não pareça desesperado.

-Infelizmente sim. Ela levanta, me dá um beijo na bochecha e caminha em direção à porta. O som dos saltos dela pelo piso ecoa no café inteiro.

-Posso pagar. Digo já quase que imediatamente arrependido.

O som dos saltos cessa subitamente e sinto o suor frio descer pelas costas. A última coisa que eu queria era ofendê-la, não sei o que me passou pela cabeça.

-É isso que você acha que eu sou? O sarcasmo na voz dela deixa a situação mais confusa.

-Você não está usando uniforme de enfermeira, então eu não quis presumir nada… Desculpe-me, não sei por que falei aquilo.

-Por quê não combinou logo o programa então? Pra quê perder esse tempo todo jogando conversa fora?

-Eu não quero um programa. E conversar desse jeito não é perder tempo.

-Queria namoro, por acaso? Não importa se eu for…

-Não, não importa.

O quarto é pequeno mas eu gosto assim, me lembra o centro de comando de alguma forma.

Ela levanta e liga o rádio. Bill Halley and His Comets- Rock Around the Clock começa a tocar baixinho.

São os últimos minutos da noite.

-Posso te contar um segredo? Ela diz, sorrindo que nem criança tentando esconder traquinagem.

-Claro.

-Menti pra você, não sou prostituta, só queria ver até onde ia dar isso tudo, nunca fiz isso antes.

-Foi divertido? Puxo-a pra perto e a abraço com força.

-Foi. E você? Tem algum segredo pra me contar?

-Tenho. O mundo vai acabar amanhã. Hoje na verdade, assim que o sol nascer. Foi criado um programa analítico de vigilância pra monitorar os russos e ele ganhou consciência própria, perderam o controle. Quando o sol nascer o programa acionará todos os mísseis nucleares intercontinentais e os russos vão retaliar na mesma medida. Não vai sobrar nada. Supostamente alguém deveria convencer o programa a cancelar o ataque, o melhor especialista do nosso lado junto com o melhor dos vermelhos, mas o nosso não está lá.

-Por quê?

-Ele preferiu passar num café que gosta e pedir seu prato preferido, acabou encontrando uma mulher linda e passou o resto da última noite com ela, sem se arrepender de nada.

O rádio toca Jerry Lee Lewis- Great Balls of Fire.

Ela ri alto como quem ouve uma piada, se levanta, aumenta o som do rádio e começa a dançar, na luz difusa do amanhecer rosa que invade o quarto.

Nighthawks_by_Edward_Hopper_1942

Nighthawks por  Edward Hopper

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Cliché Negatif

Ela se veste de acordo com um esquema complicado de combinação de cores e dias da semana, querendo equilibrar o guarda-roupa de costume e o objetivo do dia, que consistia em passar despercebida em meio à multidão.

Pega uma lata de achocolatado em pó e desce as escadas em direção à rua. A lata, já previamente preparada, possui um furo milimétrico quase imperceptível na parte externa e na parte interna, papel fotográfico virgem. No fundo, um pássaro preto de asas abertas desenhado com marcador permanente, para marcar sua posse.

O tipo de fotografia preferido dela, Pinhole, consiste em expor o papel fotográfico por um longo período de tempo, muito maior que o tempo de exposição que uma câmera normal usa pra registrar o momento, sendo assim tudo que é móvel ou efêmero fica de fora. No lugar preferido dela, o metrô, os passageiros comuns e os trens são meros espectros, imagens borradas que mal podem ser distinguidas entre si; e a estação, os pilares, as escadas e principalmente os personagens daquele lugar, artistas, moradores de rua, pedintes e velhos que desconhecem o motivo de estarem ali, ficam em destaque, ficam registrados no filme como algo perene, que existe além do tempo.

Em uma das fotos, já havia registrado duas pessoas se abraçando com clareza tal que indicava que o abraço deve ter durado horas e ela não sabia o motivo ou a história por trás disso, mas havia sido registrado, para sempre. Ela amava essa cumplicidade, essa sensação de segredo compartilhado por ela e seus modelos, de tudo que valia a pena, que não era parte da correria absurda do cotidiano, que exigia tempo e paciência, ficar guardado por ela, em seu precioso álbum.

É uma sensação boa, que faz com que ela se sinta poderosa, uma deusa que tem o poder de eternizar momentos, eternizar pedaços de existência, onisciente e se assim quiser, onipresente.

Seus amigos, parentes e até mesmo professores lhe dizem constantemente da qualidade de seus trabalhos e não medem elogios ao seu olho artístico. Algo que ela ouviu a vida toda, o quanto seus olhos eram fantásticos, originais e invejáveis.

O quê muitos não dariam por olhos assim.

Ela desce as escadas do metrô, tentando absorver aquela atmosfera, nada resume o conceito do que é “urbano” como o metrô, nem ruas ou edifícios. Vamos adentrar no subterrâneo em vermes de metal, sem ver a cabeça do verme, sem saber quem conduz, sem precisar falar com ninguém, sem interação direta, todos ocupados com suas vidas fingindo que não compartilham o mesmo espaço, o mesmo ar.

Urbano, pura e simplesmente.

Todo esse entra e sai, essa disposição de colméia, a correria contida do bicho humano moderno, essa pressa de chegar a lugar nenhum, ficava de fora. Fora da captura dos olhos dela.

Os rostos, os olhares focados em jornais e celulares com medo de cruzarem com olhos de outrem, os passos apressados e os encontros de ombro e empurrões sem desculpa, os pedintes com textos decorados e os artistas incompreendidos vítimas do sistema e da auto-piedade, tudo ficava de fora.

Seus olhos queriam outra coisa. Queriam os pôsteres de bandas colados uns sobre os outros, falando de apresentações baratas em casas de show minúsculas, as inúmeras camadas de anúncios de prostitutas em papel azul e amarelo com prefixos de telefone que não existem mais, os amontoados de cadáveres de insetos nos cantos das lâmpadas fluorescentes e os desenhos formados pelas manchas de urina de cães e bêbados.

Queriam se livrar do imediato, do efêmero, de tudo que dura segundos ou minutos. Separar o clichê negativo dos momentos repetidos minimamente. Ela dizia para as pessoas que não acreditava em talento inato, que a aptidão artística e sensibilidade para com a fotografia eram fruto do meio e dos estímulos criativos que seus pais a haviam submetido, porém guardava para si e mais ninguém, certo orgulho de revelar, sob aquela pesada luz vermelha, os filhotes de seu talento com a essência da cidade.

A manipulação do instante, da capacidade de alongar os momentos com o tempo de exposição da câmera, era como criar mundos paralelos, outras dimensões, dependendo da iluminação, da atmosfera, das runas de luz criadas pelos movimentos agitados de um cigarro indo de lá pra cá nos dedos de um fumante, os seres humanos distorcidos em borrões de 8 pernas e 3 cabeças, como se cada foto revelada fosse um relance da epiderme do mundo. E ela queria ver tudo, ou pelo menos de tudo um pouco.

Ela adorava o metrô, ficava tanto tempo ali que já havia criado intimidade com o lugar, as estações e lances de escadas com caricaturas de gente fazendo espetáculos em miniatura já eram parte da sua definição de normalidade. E tinha um bom motivo pra isso, suas exposições eram sucesso absoluto de público e crítica, dezenas de revistas famosas usavam suas obras em anúncios milionários. Numa era de tendências hippies-bucólicas, ela conseguia fazer o urbano não ser clichê, de um jeito que ninguém conseguia.

Depois de deixar a lata nova, recolher as antigas e memorizar os melhores locais pra posicioná-las, ela volta pra casa se sentindo satisfeita, como que de estômago cheio. Recosta a cabeça no banco menos sujo do vagão e tira uma última foto, com as retinas, dos elementos da cena. Fecha os olhos enquanto a estação e as luzes vão ficando para trás.

Ela acorda no escuro, tem 5 anos de idade e acaba de chegar de um pesadelo para entrar em outro. Ela sente a cama e ouve barulho em algum ponto distante, mas de certa forma abafado, distorcido de uma forma sinistra. Sua mente não consegue calcular direito a familiar distância entre a cama e a porta fazendo com que ela vá em direção ao armário, ela sente a maçaneta e abre a porta de forma brusca tentando vencer o próprio medo, estica as mãos procurando os pais e encontra formas estranhas, macias, sem vida, que parecem querer cair sobre ela. A menina começa a gritar e chorar, correndo na direção oposta, achando a porta do quarto fechada, coisa que não era costumeira na casa, todas as portas costumavam ficar abertas, ela não conseguia entender o motivo daquilo, estar presa ali na escuridão sem saber direita e esquerda, sem saber nomes e formas, só sentindo medo. Em poucos segundos a luz é acesa e seus pais a encontram chorando num canto desesperada, com as portas do armário abertas e muitas roupas no chão. Numa reunião de amigos, adultos rindo e bebendo, haviam deixado a filha dormindo com a porta fechada para que o barulho não a acordasse. Primeira e última vez.

Ela acorda no claro, 22 anos de novo e os elementos da cena mudaram enquanto ela não via, mas ela sabe exatamente onde está. Ela vê o nome da estação passar rápido e sumir enquanto o trem acelera. Quase nada foge aos seus olhos.

Exceto um novo passageiro no banco a sua frente, que a julgar pelas roupas parecia ter recém saído de um poço de piche, no colo um capacete de construção e nas mãos uma lata. Tinha algo nele, ao mesmo tempo familiar e alienígena, como se fosse um ser literalmente de outro mundo, que não pertencia de maneira alguma aquele lugar, mas era como se ela já soubesse disso, inconscientemente. Primeiras impressões sempre são estranhas.

-Isso aqui é seu? Ele oferece a lata a ela apontando para as outras com o olhar.

-Acho que sim, obrigada. Ela repara nos dedos curtos e grossos com as unhas literalmente quadradas e imundas enquanto pega a lata das mãos dele, o homem era muito baixo, provavelmente uns 20 centímetros a menos que ela, e muito forte, atarracado era a palavra que ela havia escolhido pra descrevê-lo em sua mente. Uma pessoa pequena, mesmo dentro de sua mente tinha medo de usar o modo de descrevê-lo não politicamente correto, um “anão” por assim dizer.

– É algum tipo de experiência? Vi muitas dessas caixinhas pela linha inteira. Ele fala com um sorriso estranho, meio que escondido pela barba, que não a deixa saber se a pergunta era séria ou uma brincadeira.

– Elas são uma espécie de máquina fotográfica caseira, mas sem tempo determinado pra “bater” a foto, então dá pra deixar por aí e ver o que ela capturou com o tempo. Ela fala com medo de ser técnica demais e parecer querer mostrar superioridade ou arrogância.

-Então são como se fossem seus olhos espalhados por aí. Ele usa aqueles óculos de soldador com lentes de plástico grossas e abas extensoras de poliuretano pra proteger os olhos das fagulhas, tornando impossível ver nos olhos dele algo que não fosse reflexo distorcido das luzes do vagão.  Devia trabalhar reparando as linhas internas, as costelas do metrô.

– Acho que sim, de certa forma.

-Essa aqui tava na intercessão 0-D1 Norte. Mas não tem nada lá. Nem luz.

-A luz do vagão passando é suficiente pra captar alguma coisa, dependendo do tempo de exposição, mas aonde mesmo o senhor disse que achou?

-Na intercessão 0-D1 Norte. Se a moça pensar na planta do metrô como uma árvore, a 0-D1 seria a base da árvore entre as raízes e o tronco.

-Eu não lembro de ter colocado nenhuma lata lá.

-Não estou brigando com a senhora, só avisando que andar por ali é perigoso. Nem a equipe de manutenção gosta de passar por ali, é o ponto mais fácil de morrer eletrocutado ou esmagado em toda a linha.

-Sim, eu conversei com a direção e com a prefeitura antes de começar o projeto, anotei os riscos e lugares mais seguros.

-Claro, claro. É que por falta de comunicação já perdi dois homens naquela parte; sem falar nos mendigos que passam por ali sem que a gente saiba. Sempre sobra pra minha equipe. Não tem nada de bonito lá. Nada que queira ser visto.

Algo no tom da fala dele, apesar de casual e simpática, parecia de alguma forma, como que em frequência escondida em música, algo subliminar, começar a ter um tom ameaçador. Como quem avisa algo sinistro tentando não assustar.

Ela sentiu algo, algo que não viu com seus olhos, com perspicácia e sim, talvez instinto. Ele parecia não entender porra nenhuma de fotografia e ao mesmo tempo saber muito mais do que ela podia imaginar, coisas profundas e velhas, literalmente, que precisam ser cavadas pra serem vistas. Ela precisava descer. Sair daquela conversa.

Não era o ponto de descida dela, coisa sabida já por cores e sons, antes da voz do metrô anunciar. E a última coisa que ele diz, de um jeito como quem fosse sumir pra sempre no oco dos mundos.

-Estranho pra hoje isso, foto de tudo que é coisa em tudo que é canto, talvez deixe teu trabalho mais fácil ou mais difícil, quem sou eu, de lá do corredor de pedra no meio do breu total pra dizer algo pra senhora, mas…

-Brigada, tenho que descer aq…

-Algumas visões tem preço.

A luz dos vagões meneou e ela teve a impressão de ver no rosto dele naquele instante, algo que não parecia humano, mau sinal. Ela estava perdendo o controle de si e precisava sair dali o mais rápido possível. Sem conseguir deixar de manter contato visual, o instante foi se mantendo o mais desconfortável possível e ela sentiu a pressão do sangue descer junto com as luzes da cena a cada passo que dava para trás e para longe do vagão. A porta fecha e as luzes se apagam por completo.

Das trevas, ela volta à consciência com um gosto familiar na boca. Indesejado e até odiado, mas familiar. Coca. Antes de pensar em reclamar ela refaz a situação inteira e lembra que não tinha nenhum amigo dela por perto e nenhum amigo ou mesmo conhecido seu lhe daria Coca-Cola. Ela ignora a multidão de olhares curiosos, inúmeros pares de olhos focados nela, e agradece ao gentil desconhecido insistindo que está bem e tem condições plenas de seguir sozinha, apesar de reclamar mentalmente do que para ela foi praticamente uma tentativa de envenenamento.

Ela pensa em como a marca é uma certeza em quase todas as mesas de todos os restaurantes e padarias ou lanchonetes, quase nunca uma opção. Se ela pusesse suas Pinhole de exposição prolongada nas mesas desses restaurantes, as garrafas e latinhas de Coca-Cola sairiam muito mais nítidas nas fotos do que as pessoas. As famílias crescem; diminuem; mudam; os namoros acabam; os amigos se afastam; os momentos se perdem e a marca fica; inabalável.

Um pensamento desagradável e desolador. Ela tenta afastar com uma água mineral qualquer, mas em vão, aquele ranço de mistura de tudo que é produto químico escroto junto, fica coçando na garganta, como muco podre, que nem doença. Pra quem tenta ser saudável, ter controle do que come, é pior ainda. Ela se dá conta de que não bebia Coca desde os 14 anos.

Ela chega em casa e imediatamente se sente melhor. Dizem que a casa de alguém reflete seu interior e a dela não poderia ser mais reflexiva.

Controle. Algo realmente importante, aquilo que intimamente ela não compartilha com ninguém, mas que era sua verdadeira fonte de prazer. Ter e manipular seu controle sobre as coisas e ser elogiada por isso. Nos elementos que compõem uma foto, ou na maneira como se veste, como escolhe seus namoros, como organiza seus livros na prateleira.

Tudo.

Ela dispõe as latas de acordo com as estações em que estavam dispostas e na ordem que serão reveladas, checa seus e-mails e se prepara pra tomar banho.

Olha o corpo nu no espelho contando as runas tatuadas nas costelas, como se esperasse que alguma tivesse caído no meio do caminho, entra no Box e liga a água gelada já embaixo do chuveiro, por gostar de sentir a temperatura da água mudando. O dia em questão era dia de lavar o cabelo, ela de olhos fechados, pega o frasco, sempre no mesmo lugar e começa a lavar os cabelos.  No meio de um procedimento automático, o cérebro fica livre pra divagar com mais facilidade.

Ela sabe de cor os locais de todas suas câmeras, sabe a hora de recolhê-los em relação ao fluxo de trabalhadores do metrô, sabe quase que inteiramente a planta baixa das estações. Pra fazer esse projeto de fotografias do metrô, pago por uma iniciativa da prefeitura, ela teve permissão direta da administração pra transitar por ali.

Então de onde diabos veio aquela lata com o homem do vagão? Ela tinha posto todas em ordem e não tinha nada sobrando.  Mas a lata era idêntica às dela, o mesmo produto, lata de Nescau lixada, as mesmas anotações com a letra dela e o mesmo corvo desenhado no fundo. Alguém poderia estar querendo brincar com ela? A esse ponto, de imitar cada detalhe de sua arte? Ninguém a conhecia intimamente e profissionalmente a esse ponto. Ela se sentiu completamente exposta naquele momento, como se cada canto de parede e cada janela escondesse um infinidade de pares de olhos curiosos buscando vigiá-la em segredo.

Um pensamento perturbador, mas não, aquela lata simplesmente não devia existir. Ela devia ter esquecido ou confundido os números, a explicação racional é sempre a mais provável.

Ela se veste e sai em direção ao quarto de revelação de olhos fechados enquanto enxuga os cabelos. Não há perigo de derrubar algo ou tropeçar em alguma coisa, cada objeto tem seu devido lugar e se retirado sempre retorna pro mesmo, ela faz disso do mesmo modo que um cego se guia pela memória e organização.

Ela tinha um orgulho especial do seu quarto de revelação que montou sozinha como uma cientista maluca ou uma vilã de filmes de espião, gostava do fato de que quando as pessoas passavam na rua e viam as janelas cobertas com papel refletor e alguns escapes de luz vermelha sabiam que naquele apartamento morava uma fotógrafa.

Apesar disso a revelação era a parte que ela menos gostava, mas pelo processo em si, não os resultados.  A pressa da excitação de ver o resultado tomando forma era um descontrole que ela não apreciava de modo algum em si mesma e a decepção de fotos abortadas por alguma obstrução ou white-out tampouco. Nada que alguém que usa digital saberia, o imediatismo das digitais era algo tão mundano pra ela, tão grosseiro. Ela banha foto por foto no Dektol, passando pelo stop e terminando com o fixador. Mas as imagens da lata desconhecida tinham ficado muito granuladas, estranhas, não dava pra distinguir direito o que as imagens diziam. Formas e cores se sobrepondo como microfilmes lisérgicos dos anos 60. Como se alguma parte daquela linha do metrô abrigasse outra realidade.

As outras tinham ficado belíssimas, nítidas e dentro do esperado, só de bater o olho ela sabia que podia esperar prêmios e contratos novos. Seus olhos não erravam nunca.

Depois de organizar todos os materiais e pendurar as fotos no varal, ela lava as mãos e deita a cabeça no travesseiro, pensando em tudo que seus olhos viram no dia como pedaços de um quebra-cabeça, algo que só podia ser montado por ela. A luz certa, na hora certa, com os componentes certos podiam dizer tudo sobre uma cidade, sobre um povo, sobre uma época inteira, um pedaço de tempo que não ia se perder no fluxo do mundo, que tinha sido resgatado por ela.

Ela tinha comido, separado o material para o dia seguinte, feito tudo que tinha pra fazer, devia descansar os olhos e dormir um pouco. Um merecido repouso, mas tinha uma coisa impedindo, a curiosidade fazia sua cabeça parecer grande e desconfortável como se estivesse tentando dormir com um cone de trânsito na cabeça, todas as posições eram incômodas. Seus olhos ainda tinham fome. Precisava saber.

No seu reino vazio, sem prestar contas a ninguém, ela levanta e decide voltar ao metrô. Tinha um tipo de ciúme naquele lugar da cidade que a fazia ficar inquieta. A unha de um dedo feria a de outro e o canto do lábio inferior era mordido constantemente até a parada do vagão.

Lembrava-se de coisas que seu ex-namorado havia escrito; pretenso poeta que era; pedaços de textos avulsos que ele dizia terem sido feitos para ela, mas ele era um descontrolado e ela nunca sentiu muito por ele, não mais que uma admiração passageira, alguns poucos interesses em comum.

“A rainha dos contempladores, das entranhas do mundo fez sua casa e observava tudo que havia, por todos os lados em todas as horas, os corvos em seus ombros comiam nomes e formas e seus olhos sempre tinham fome”.

Esse pedaço de poema em especial chamava a atenção dela naquele momento, os trilhos e os “entreestações”, os bolos de cabos de força emaranhados entre si parecendo se mover como uma coisa orgânica realmente davam a ideia de serem as entranhas do mundo. Os corvos eram suas câmeras escuras e seus olhos estavam sempre buscando mais. O descontrolado tinha acertado alguma coisa pelo menos. Vivia falando de teorias da conspiração absurdas e dimensões paralelas, mundos dentro de mundos e coisas do tipo, coisa de quem lê ficção científica demais e essas bobagens.

Fotografia era algo muito mais tangível pra ela, algo muito mais interessante e maduro. Transformar o cotidiano e mundano em arte, ter o controle daquilo, isso sim era algo admirável.

Seu monólogo interno é interrompido pela sensação de estranheza das estações, as pessoas que trabalhavam ali, muitos já conhecidos seus aparentemente haviam sido substituídos por pessoas completamente diferentes.

Não dava pra dizer com certeza, aos olhos dela, os passageiros eram de um jeito peculiar, passageiros normais, mas não da mesma época ou nacionalidade dela. Todos pareciam estar vivendo na Europa dos anos 60, os cabelos, os cigarros, as roupas. Tudo pertencia à outra realidade que não a dela. E o vagão estava frio, frio como nunca antes esteve no mais frio inverno possível das cidades brasileiras da região sul. Frio como o inferno.

Algo no ar fazia arrepios seguidos passarem pelo seu corpo. Todo ser vivo tem a capacidade de sentir uma ameaça chegando, sentir antes dos outros sentidos, antes da audição e do olfato, antes da visão. Parecia que cada passageiro, cada um deles tinha os olhos colados nela. Como se ela estivesse nua.

Era uma sensação completamente aterradora, ela decide mudar de vagão, mas o clima hostil parecia continuar. Felizmente a estação se aproximava. Ninguém além dela parecia querer descer ali, além de abaixarem as cabeças, se encolhendo de medo e prendendo o fôlego, o vagão inteiro fazia força pra fechar os olhos e algumas pessoas entrelaçavam os dedos orando baixo. A cada passo pra fora do trem as pessoas saíam do caminho dela como se ela tivesse lepra.

Era como desembarcar num pesadelo. Papéis rasgados no chão inteiro, vidro quebrado em qualquer banca de cigarro ou anúncio luminoso, uma em cada três lâmpadas estava funcionando e o grafite nas paredes.

Ela nunca tinha visto grafite parecido, era como se os mais talentosos artistas dos piores sanatórios do mundo tivessem se encontrado para decorar o lugar. Famílias inteiras, mães com carrinhos de bebê, velhas senhoras e crianças, todas sendo perseguidas e retalhadas por todos os tipos de monstros e demônios, cada bueiro, porta e buraco parecia ter dentes e garras e devorava os passageiros em pânico. As cores vibrantes do vermelho pareciam querer sair das paredes e pular em cima de quem tivesse vendo. Ela podia ouvir seu coração batendo como se quisesse pular fora do peito.

Ela tira fotos quase trêmulas daquilo tudo, dizendo pra si mesma que é apenas arte. Arte urbana quase sempre é agressiva, instigadora, melhor assim.

Ela desce as escadas e ignora os avisos de perigo, seguindo a linha do metrô. Sem grafite, mas com pixações comuns, daquelas que são somente assinaturas e recados numa língua que só os pixadores entendem. Marcação de território.

E mesmo essas pareciam assustadas, apressadas, com medo de estar ali. A escuridão só crescia e a partir de um ponto era puro breu. Ela tinha que usar a câmera pra enxergar. O lugar não lembrava em nada as linhas que ela tanto conhecia, parecia um cenário pós-guerra nuclear, as paredes imundas e esburacadas, ratos por toda a parte e um cheiro nauseante. Junto com o som cada vez mais forte das batidas do coração, crescia um ruído estranho, abafado, como um monte de gente chorando ou gemendo, um ganido parecido com o de cachorro ferido.

A visão noturna já não funcionava mais, não havia absolutamente nenhuma fonte de luz ali. Ela precisava usar os flashes da câmera pra poder andar. Tudo dizia pra ela voltar, dar as costas imediatamente e voltar o mais rápido possível, cada sentido dela apitava desesperadamente pra sair dali, menos a visão.

O que quer que houvesse no fim da linha, ela precisava ver, ela tinha que ver nem que morresse por isso, já tinha chegado tão longe. A visão entrecortada pelos flashes só piorava as coisas, no segundo sem luz ela sentia coisas passarem por ela, sentia movimento, mas na luz não via nada. Pilares quebrados e vigas torcidas. O som da sua respiração fazia eco ali, por mais que ela tentasse controlar. Olhando para a câmera ela via criaturas humanóides ao seu redor, sem olhos, mas com dentes afiados. Ela abafa um grito com a mão e percebe que não podem vê-la, mas sabem da sua presença.  A ponta do tênis chuta alguma coisa macia e ela aponta a câmera para o chão.

Ela morde a parte da mão embaixo do polegar o mais forte que consegue, tapando o pânico na linha da garganta antes que ele saísse. Pedaços de membros humanos de todas as idades cobriam o chão todo.

Ela pega uma pedra, joga a sua frente e começa a correr na direção contrária. Como se o próprio inferno a seguisse. Os poucos minutos até chegar à estação parecem durar anos. Para sua surpresa e alívio, o velho anão do vagão parecia esperar por ela na plataforma. Ela se joga nos braços dele e começa a balbuciar, despejando tudo que tinha visto e pedindo pra saírem dali o mais rápido possível, tentando não engolir as palavras e puxando ele ao mesmo tempo.

Ele abre a porta de uma das cabines de controle e mostra um atalho pra superfície. A rua vazia e suja da madrugada nunca tinha parecido tão confortadora.

– O que aconteceu senhora? O que a senhora viu?

Ela tenta falar calmamente, mas não consegue, mostra as fotos da câmera apontando ofegante e entregando nas mãos dele.

Ele passa, foto por foto, dos grafites, das pixações, do túnel, das coisas e dos restos humanos. Não vê nada. Apenas um túnel deserto fechado pra obras. Equipamentos esquecidos ou abandonados e corredores vazios.

O suor frio começa a brotar do corpo dela, ela se desculpa, agradece o homem, ri da sua bobagem, pega um táxi e vai embora. Liga para o seu contato na polícia e na administração do metrô, explica toda a história racionalmente, sem exigir nada, ressaltando que pode ter sido um surto de pânico da sua parte, mas que era bom checar em todo o caso. Tão racional e controlada quanto possível. Agradece e desliga. Paga o táxi e entra em casa.

Revê as fotos no computador e constata que não havia absolutamente nada lá. Um ataque de pânico, ilusões da mente assustada. Ela procura na internet os telefones de um bom psiquiatra e um bom psicólogo, pra marcar uma consulta tanto quanto antes. Sem desespero, é o stress da vida moderna, das pressões da vida adulta, todo mundo passa por isso. Ela andava trabalhando demais.

Sim, era isso, ri sozinha, racionalmente de sua própria bobagem.

Ela se deita na cama e apaga a luz.

Ouve uma respiração que não a sua no canto do quarto. Ela liga a luz, grita e pula da cama, joga tudo ao seu alcance na direção da coisa, sem acertar nada. Ela engatinha para o canto do quarto com uma tesoura comprida na mão e um pedaço de vidro quebrado na outra, não vai se entregar sem luta. A coisa chega perto dela sibilando e babando, calmamente.

-Ss… Sssenhooraa. A coisa para a dois passos de distância e se ajoelha, como se fizesse reverência diante de uma rainha.

Ela vê as fotos granuladas da lata desconhecida caídas no chão e agora todas elas pareciam completamente nítidas, de um jeito que fotos de Pinhole nunca ficam, a não ser que o momento em questão durasse uma eternidade. Milhares das criaturas horrendas em círculo, fazendo todo o tipo de atrocidades, gente morta em pilhas enormes, carcaças penduradas e ossadas nos cantos, cada rosto que permanecera intacto carregava uma expressão de horror absoluto. Como uma festa no inferno.

No meio disso tudo, claro como o dia em cada foto, numa posição central, privilegiada e até louvada por todos os monstros, inegavelmente, ela mesma, com um grande sorriso de satisfação, observando e controlando tudo.

 

 

 

 

 

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Efervescer

Eu.

Não lembro como cheguei aqui.

Quem é essa pessoa deitada na cama, olhando…

Pra mim como se esperasse que eu fosse fazer ou dizer algo…

É tão estranho como as coisas vão tomando forma na minha mente; parece que eu não sabia nem falar até momentos atrás e agora…

-Daian…? Eu devo ser disléxico, nunca sei se os nomes das pessoas terminam com A ou com E, se ela perceber que não lembro o nome dela direito talvez fique puta da vida e vá embora… E puta que pariu, não consigo lembrar nem se vou achar isso bom ou ruim.

-O que foi? Ela pronuncia as sílabas bem devagar, com as narinas abertas e o olhar fixo na minha cara, como se tivesse visão de calor e quisesse me derreter lentamente. Ela já está completamente irritada e não faço ideia do motivo. Daiane ou Daiana, mas que merda. Que situação bizarra, o barulho do rádio, o clima desconfortável aumentando e a raiva nos olhos dela também. Essa maldita música pop do séc. XXI tocando, me irrita profundamente, mas não ouso mexer nas coisas dela. Sei disso, mas não lembro meu nome. Nem como cheguei aqui.

Quer dizer, nunca vi alguém com amnésia como aparece nos filmes, sei que eu sei meu nome e tudo mais, minha história de vida inteira, mas sinto que se alguém me pedisse pra contar não ia conseguir, como se tivesse ficado na ponta da língua pra sempre sem que eu possa lembrar de fato.

Vou arriscar ser tão vago quanto possível.

-Isso é uma briga? Tento não parecer nem ofendido nem confuso.

-O quê? Hmnf… Não sei tá? Só queria conversar.

-Sobre o quê, exatamente?

-Não te faz de idiota.

-Eu não quero brigar, só quero entender o quê que tá acontecendo.

Sinto uma culpa incontrolável, uma vontade súbita de rastejar no chão, beijar os pés dela e implorar perdão, mas não consigo lembrar o motivo.

A raiva vai sumindo e dando lugar pra vergonha, eu não aguento e peço perdão pra ela, por tudo que fiz; que não fiz; que faria. Tudo.

Ela não diz nada, mas me beija. A gente transa por horas a fio, aquele sexo confuso com resquícios de mágoa e um pouquinho de raiva. Até eu sentir dor, mas gosto disso.

Abraçados na cama, vendo a fumaça do cigarro emocional dela subir pelas dobras da persiana sinto o ímpeto de contar a verdade, que não lembro de nada além daquele dia, que não faço a menor ideia de quem sou, mas sei tudo sobre ela, cada tique, cada preferência, cada mania.

Peço desculpas de novo, por via das dúvidas, a culpa devia ser minha, eu devo ser possessivo demais, obcecado por ela, não devo dar espaço, ou talvez seja muito submisso. Devo ter feito alguma merda, é a única alternativa.

-Não te preocupa, vai ficar tudo bem. Ela diz.

Sinto um formigamento no braço esquerdo e percebo que ele tá se desfazendo em areia.

Ou farinha, estou virando pó, como um vampiro no sol, que porra que tá acontecendo? Peço ajuda pra ela, mas ela não se move, estoica como uma estátua ela só observa minhas entranhas caírem no chão como potinhos de areia colorida. Não sinto dor mas é uma sensação desagradável, principalmente por eu continuar consciente. Meus olhos caem pelo rosto e começo a perceber o mundo do ponto de vista de um punhado de areia, é indescritível na verdade. A última coisa que sinto é a vassoura dela me levando até a pá de lixo; ela não recicla ou separa o lixo, mas não a julgo por isso, o saco plástico do lixo é translúcido e dá pra ler o envelope escrito:

Namorad@ Solúvel, pacote premium, DR, Briga e Sexo de fazer as pazes. 4 horas de uso. O modelo pode variar da foto no pacote. Adicione um pouco do seu DNA (cabelo, sangue, saliva) pra que o modelo faça o imprinting e saiba tudo sobre você (nome, gostos, preferências sexuais ) durante o tempo de uso, deixando a ação do produto mais natural. Bom proveito!

 

 

 

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No mask, no rhyme.

Blodeuwedd

A billion times the sun dies
No one riding his carriage
A whole swarm of fireflies
Dancing the chemical marriage
A billion souls going to sleep
In you lies mine, to shredding
No promises i intend to keep
In this great toxic wedding
A billion lives to waste
No tears or cry will follow
No wine can wash the taste
Of life when it turns so hollow

 

Winchester

I miss your eyes
I miss your smile
I miss your body
I miss your heart
I keep missing

I should buy a better rifle.

Suits

Felicidade não se compra, se ganha

E eu nunca sei como usar, que nem terno e gravata.

Muitos botões e etiquetas, muitas coisas a combinar

Concessões a fazer, sorriso pra câmera, valsa com a debutante

Copo de algo azedo, tropeções, desconforto.

Vai lá e curte, como sempre. Faço o quê?

O que der na telha, sorrir, pular, dançar. Tem medo de ser bobo?

De se soltar né? De dançar mal, de dizer não, de ficar num canto.

Pode fazer tudo, a vida é uma festa.

Posso não estar de terno?

Não, traje a rigor.

 I

As the first notes sink in like a hex, that old Black Sabbath, i immediately feel, even though i can´t breathe, your smell, of cinema´s chair dark leather, apple tea and strawberry icecream. I can still taste you in my mouth and i keep goin there till i, eventually memorize the whole thing, line by line, what we said, when we said and why. My little cure for pain, i miss it, your taste, have i already said that? Have i said that some dumb fucks think that you are Sweet, perhaps too Sweet? Shit, if they are right girl, i wanna be diabetic.
End of note.

 II

i swallowed a bug today, don´t know which kind
i felt his leaf wings melting in my palate
everything he was bursting in my stomach like nuclear fusion
his existence in time added to my flavors library
like your center, the hardcore of you and the perfect ice cream combo
during summer vacation, what we leave behind
as lighting candles in the haze, that taste of incense in a hippie store
let me taste it again, i became whole while i was there
i wanna be the bug, flying and melting
i wanna die between your legs.

Noan Moraes

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Ex Lutum…

Se eu lembro da cidade? Como era antes? Rapai, lembrá eu lembro demai… Se eu lembro de Chico? Doido, eu só lembro que no dia que ele morreu o mangue num chiou, num sabe? Por que o mangue chia, todo dia na hora que a maré baixa e aparece a lama preta, a água que fica nos buraco de caranguejo vai evaporando e o mangue todo chia, tás entedendo? E aí sobe a fedentina de enxofre.

Todo dia, Recifede.

Mas no dia que Chico morreu, ficou foi tudo quieto, visse? Eu tinha o quê, sete, oito ano? Meu tio tinha um pé sujo ali na entrada do porto, ali no comecinho, tás ligado? E Chico ia beber ali, sempre que podia, e quando num tava tocando Jorge Ben tocava Nação, num sabe? Eu cresci ouvindo aquilo e vendo ele beber ali com tio sem ligar as duas coisa. No dia que ele morreu, encheu de chama-maré pra tudo que era lado, tava tudo que é caranguejo, parece que saindo, tás ligado? Indo embora, num sei pra onde.

Tio, quando contou, eu lembro, que parecia além de triste que só a porra, mas com medo, sabe? Preocupado mesmo, e eu num conseguia entender aquilo, entendi que o amigo de tio tinha morrido e o dia pra quem era catadô de caranguejo tinha sido bom até demais, fuderoso memo. Mas também só esse dia, porque a partir daí a Biotech, a empresa, tá ligado, essa que chegou comprando foi tudo que era terreno ribeirinho perto do manguezal e um monte de prédio vazio no centro, num sabe? Foi tudo que era nego vendendo casa e saindo de tudo que era jeito, nego que nunca tinha visto nota de cem reais, quando viu mil, cinco mil que os urubu de terno tava dando, vendeu sem nem fazê pantim, assim. Quisero comprá o bar de tio, queriam porque queriam, visse? Eles já tinho a vizinhança toda e num iam desistir de tirar todo mundo dali, a qualquer custo. Por dinheiro né, era o que eu achava na época.

Tio vivia dizendo que num era pra eu ser catadô de caranguejo, que num sei o quê, que era pra eu estudá, que num sei mais o quê, que meu pai era catadô e morreu bêbado e com fome no barco no meio do mangue, e eu dizendo que num quero, que isso num é pra mim, a cidade me dá um arrelio, tás entendendo? É tanto cimento pra tudo que é lado, tanto barulho, tanto caminho traçado no chão que tu num pode ir pra lá, num pode ir pra cá, tanto arrudeio que me dá agonia demais, num sabe? Tudo quadrado, tudo preso, sem podê crescê, espalhá raiz. Num sei quem plantou essa coisa em mim, essa inquietude de num conseguir gostá de muita ordem, se foi meu tio, o mangue ou a música de Chico. Os dois de certa forma dero um jeito de sempre ser parte da minha vida, não tinha pra onde fugir disso e eu nunca quis, queria ajudá ele com o bar, ficá ali, não fazê o que todo mundo esperava que eu fosse fazê e sim algo que viesse de dendimim de verdade. A gente normalmente se dava bem, nunca deixei faltar peixe nem caranguejo no bar, por mais que ele não quisesse minha ajuda. Disse que eu tinha que parar de catar caranguejo e catar estudar pra ser alguém importante.

Ele era mais meu pai que meu tio, na verdade, queria que eu tivesse algo de bom no futuro, algo mais certo que a época de desova e de cheia, mais certo que preço de restaurante chique que tem caranguejo pra gringo comer e compra por balaio e vende por unidade. Como ele mesmo disse, um pouco de ordem na vida. Eu disse que ordem nunca me serviu de porra nenhuma e tava muito bem sem ela, brigado. Ordem o caralho, vê se pode um negócio desse? Lembro que virei as costa e ele seguia falando, num sabe? Segui descendo a linha do trapiche procurando meu barco com os olho e tava ficando escuro já, mas eu sempre atraco no mesmo lugar num sabe? Sem meu tio falar nada, senti que tinham prendido a âncora em mim num sabe?

Ele tinha vendido meu barco.

Meu barco era mais que minha casa, num sabe? Assim como o manguezal, mais que meu trabalho, mais que lembrança de meu pai, num sabe? Era a única coisa que era minha mermo, que teve sempre lá desde que eu nasci. Acho que passei mais tempo lá ou com lama até o pescoço do que em qualquer outro lugar.

Perguntei se ele ia vender a porra do bar também, fosse pra jogá tudo fora jogasse tudo duma vez. A gente brigou feio, mesmo ele dizendo que não ia vender, que tava muito velho pra seguir outro caminho na vida, mas pra mim inda tinha tempo e tal e coisa. Saí dali puto da vida com sangue nos olho e sem ter pra onde ir, num tinha mais barco, num tinha mais nada.

Num tinha nenhum vizinho que ainda morasse por ali, só tinha placa de vendido em tudo que era portão e o nome da porra da companhia Biotech do caralho em tudo que era lugar, mas que porra.

Antigamente parece que a cidade respirava melhor, num sabe? Tinha um pulso constante, eu era guri mas lembro, tinha uma fedentina do cacete mas pelo menos dava pra ver que tava viva num sabe? Fedor só vem de coisa viva. Uma carcaça só fede do jeito que fede por causa dos verme comendo ela.

Tava tudo morto ou no mínimo morrendo. Indo pelo ralo e quem vivia na lama sabia melhor que ninguém, os xié tão indo embora a tempo já. Quem mora na orla que sabe da cidade de verdade. Quem se cerca de cimento e asfalto vive se iludindo num sabe?

Tinha que esfriá minha cabeça, num gosto de ficá brigado com meu tio por muito tempo, decidi conversá melhor com ele. Quando num sinto o cheiro do mangue sei que já tô longe demais de casa.

Ele num fez por mal, eu amava aquele barco, mas amava mais meu tio, num sabe? Refiz o caminho todo de volta sentindo o mesmo peso no peito, mais agoniado a cada quadra, pedindo pra deus pra chegá na esquina dele e enxergá as luzes do bar acesas e ver que tava tudo bem, que era besteira minha, pra gente poder conversá e ajeitar as coisa.

Já tava escuro, essa hora já era pra ter barulho de gente conversando, copo batendo em mesa, música de radiola que dava pra ouvir do outro lado do rio, carro estacionando por ali.

Num gosto de silêncio onde não era pra ter, tenho pra mim que nunca é sinônimo de calma ou paz, é sempre a Ordem das coisas juntando força pra te foder bonito. Bem horrorshow.

Vou andando segurando na parede do quintal, virando a esquina com os olhos, depois com o corpo e parece que meus pulmões e coração caíram no meio do trajeto.

Tava bem escuro, verdade, pelo menos o que eu achava ser escuro, mas consegui ver ali meu tio de joelhos no trapiche, uma Beretta roçando na testa dele e três urubus de terno preto do tipo caro pra caralho.

O homem que me criou e ensinou tudo que eu sei. E eu tinha brigado com ele por causa de um barco. Cadê a força pra gritar, pra fazer alguma coisa? A última coisa que disse pra ele foi uma porrada de desaforo, de tudo que era nome que me veio na cabeça e agora não consigo nem gemer de desespero, nem chiar, nem nada. Não tinha ar dentro de mim.

E aí meu deus? Quê que se faz numa hora dessa? Dava pra ouvir um dos putos falando alto como se tivesse ensaiando uma peça, fazendo um verdadeiro monólogo no ouvido do condenado e eu vendo tudo de longe.

“Essa área é vital para o que temos em mente quanto ao futuro dessa cidade, o mais puro e belo progresso urbano. Não é correto abandonar o progresso de tantos por causa de indivíduos isolados e seus apegos culturais. Isso é egoísmo, tente pensar em grande escala, o que é um único bar de merda perto de rios de asfalto prensado, pontes e viadutos majestosamente projetados? A cidade crescerá 50 anos em 5, como vocês não conseguem enxergar o propósito disso tudo? Vocês me dão nojo, vocês são lodo do mangue, não sabem avançar na vida nem entender o progresso mesmo que ele estando embaixo do nariz, são um bando de caranguejos imundos de lama que só conseguem andar para os lados.”

Os três urubus de terno preto e óculos escuros acenam levemente um pro outro com a cabeça e confirmam.  Vai ser agora.

Rezando pra tudo que era santo que eu conhecia pra conseguir mexer o corpo de novo, eu corri na direção deles.

Bora corpo, bancasse o valente a vida toda, me deixe na mão não. Deixo o chinelo pra trás, nunca consegui correr de chinelo no pé.  Era uns dez passos andando daqui até lá, num tenho certeza. Consigo jogar um deles pra dentro do rio com uma voadera no meio das costas, um mataburro bem dado do lado do queixo derruba o segundo e eu a cada segundo achando que ia dar jeito. Ia conseguir derrubar os 3 e tirar meu tio dali, que ajoelhado e amordaçado só assistia.

Fosse Cordel, fosse filme, fosse letra de música com som de rabeca velha de pinho em meio de baile de chão batido que fizesse tudo que é cobra deslizar pra longe eu tinha conseguido. Mas Lampião morreu, Corisco morreu, Chico morreu e meu tio também.

Tiro certeiro.

Senti um beliscão estranho na canela, como se fosse feito com dedos de aço em brasa, que torcia minha carne até atravessar me fazendo cair de joelhos no chão, fumaçando. O outro tiro foi na cabeça eu acho, parecia que tinham acendido meu cérebro que nem lâmpada velha cheia de mosquito dentro, mas dor num foi muita não. E ainda assim dava pra ouvir o puto falando.

“Lixo, vocês não são mais que isso no fim, então morra de uma vez porque os vermes tem fome”.

Me arrastei como dava, pra perto da água antes dele atirar de novo, e a água me recebe como se eu tivesse em brasa, esfriando o meu corpo e tirando o peso de tudo.

Conhecia aquela água e aquele rio desde que nasci ou pelo menos achava que sim. Minha vida e trabalho vinham dele, sabia o comprimento dele, a cor, o gosto, a densidade de cor já. E a profundidade. Uns cinco, seis metro no máximo.

Mas eu tava ali, afundando, afundando mais e mais. A espessura ia mudando junto, não parecia mais água, parecia aquela tinta viscosa de caneta Bic. Não tinha como brilhar, não entrava luz naquele caldo preto nem fodendo, mas mermo assim eu via um brilho. O pretume cobria tudo, eu não consegui sentir frio, dor ou até mesmo falta de ar. Não sabia o que fazer, morrer, viver, não sabia se tinham passado 2 mil ano ou 2 minuto. Eu era um corpo de lama ainda resistindo por algum motivo, uma consciência solitária no meio do caos.

Então ouvi uma voz.

É assustador estar na água com qualquer outra presença, e quanto maior for a presença maior o medo, mesmo pra mim que praticamente nasci no mangue. Não parecia vir de uma garganta, mas sim de um monte de caixa de som, que nem aquelas de carro de playboy? Que balança tudo quando passa?  E parecia só tocar dentro da minha cabeça.

Olá criança.

Só podia ser comigo, acho que nem dava pra duvidar de nada nesse ponto, eu já devia ter morrido faz tempo e ou isso era o inferno ou caminho pra chegar lá. Não dava pra ver porra nenhuma também.

Assim está melhor?

Duas luzes enormes se acenderam e deu pra ver tudo que era lixo de fundo do mangue e quanto meu corpo era pequeno no meio daquilo tudo, mas como eu disse, num dava pra sentir medo mais, nem quereno muito. Era como se fosse dois postes de luz meio caídos, um pendeno pra esquerda e outro pra direita, que nem olho de caranguejo, assim.

Tinha, que parecia, um milhão de raiz de tudo que era tamanho pra tudo que era lado, sem dar pra enxergar começo, meio e fim e cada ramo se desdobrava em mais mil.

Não tente entender, criança, esse não é o motivo pra se estar aqui.

Eu num sabia como responder nem o que responder, então só pensei:

Quem…? E antes de terminar o processo, aquilo respondeu.

Sou as raízes podres e as folhas mortas, os galhos emersos e frutas afogadas, os vermes com fome no meio do queijo, o fedor do mofo azulado que dorme nos pulmões, o lixeiro da cidade submersa, dentre outros nomes.

Olhe seu coiso, sou um homem simples, sempre fui. Diga logo que é que você quer comigo, me deixe virar lama de rio em paz. Todo mundo que eu conhecia morreu e num tô vendo ninguém aqui, deixe de historia comigo que eu quero é sumir em paz. Roubaram foi tudo que eu tinha, me deixe pelo menos o fundo do mangue.

Quem roubou o quê de você, criança?

Oxe, tudo caralho, roubaram tudo. Os urubus, eles roubaram. Cada playboy de gravata pagando caro pra comer siri e caranguejo em bar de hotel de orla. Cada companhia e empresa que expulsa gente de história do lugar como se expulsa rato de cozinha, cada empresário que força gente simples a vender sua casa, seu trabalho, oferecendo um contrato ou uma bala na cabeça e um corpo sem dedo nem dente na boca. Pra destruir tudo que é lugar com alma e fazer um monte de prédio espelhado, de destruir comunidade inteira de gente que só quer viver pra fazer loja pra turista sexual se sentir seguro. Roubaram minha cidade toda. Ainda bem que eu afundei antes de ver isso, me deixe de mão, deixe.

Eu paro de pensar em responder o bicho e as músicas de Chico começam a tocar na minha cabeça, o bicho ouvindo e escolheno como se eu fosse um juke-box. Não dá pra chorar direito debaixo d´água, mas lembro do meu tio limpando o balcão, de repente fechando os olho e apontando o dedo pra cima, dizendo preu prestar atenção que uma das preferidas dele ia começar a tocar. Roubaram ele de mim, roubaram foi tudo.

“Posso sair daqui, pra me organizar, posso sair daqui pra desorganizar, da lama ao caos, do caos à lama, um homem roubado nunca se engana”.

Gostei dessa, o bicho disse. Bela voz para o Caos foi a desse menino, bela mente, lembro bem quando essa voz se calou. O mangue lembra. Posso pegar de volta pra você criança.

Pegar o quê de volta?

Tudo. O bar, o cais, a orla, os rios, as pontes, o mangue, a cidade inteira. Posso sair daqui para desorganizar tudo, começar de novo, quebrar essa Ordem dos homens. E posso te levar junto. Se aceitares vir comigo.

Muito bonito essa papo todo. Mas me diga com quem eu tô falando então? Aliás, com o quê? Isso é o inferno? O céu? Tô falando com Deus por acaso? Pra ter esse poder todo, no mínimo algum santo que num é. Tentei disfarçar o medo e a raiva, acho que sem sucesso.

Depois de algum silêncio a voz do mangue, já sabendo da minha decisão, respondeu:

Caos não se define criança, apenas existe.

Quando nego pergunta se eu lembro da cidade, eu digo :

Rapai, lembrá eu lembro demais, mas lembro melhor da cara dos urubu engravatado e dos playboy tudo se afogando na água barrenta enquanto a cidade nova e as casas caras afundava tudo debaixo das garra do bicho do mangue.

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Tempos de chumbo.

Se você me perguntasse, anos atrás por que não existem bons super-heróis brasileiros, eu ia responder, aliás, ia encher o peito e falar que não tinha gente séria o suficiente pra fazer ou compenetrada o suficiente e provavelmente ia falar que o ‘’jeitinho brasileiro’’ estraga com a inocência e a ingenuidade inicial que o personagem precisa ter pra vestir uma malha com uma cueca por cima e uma capa nas costas pra combater o crime.

Ah, e falando nisso, me refiro aos super-heróis brasileiros, nascidos no Brasil, cuja história se passa aqui mesmo, nos Rio de Janeiro, Maranhão, Pernambuco e Paranás da vida. Nada de Quebra-Queixo, Capitão Ninja, Judoka e Capitão 7. Nenhum desses deu certo, tipo Batman ou Homem-Aranha, comercial ou simbolicamente. O que funciona aqui é Mônica e charges engraçaralhas metidas a besta. Temos tirinhas de qualidade, claro, temos Laerte, Angeli e todo esse povo. Mas não tô falando de Bob Cuspe ou Overman, ok?

Tô falando de algo foda, algo que inspirasse as pessoas simplesmente por ser foda, sem uma dose obrigatória de sátira. Por que quase tudo que é feito aqui tem que ser “espertinho” ou “malandro”?

Alguns anos atrás, diria que gente como eu devia fazer quadrinhos ou cinema. Fabricar heróis, talvez, que isso não é exclusividade de primeiro mundo, o México faz isso com a Lucha Libre e o cinema. Não dá pra ter algo parecido aqui? É tão irreal na mente do brasileiro conceber alguém que faça algo extraordinário? Nossos heróis acabam sendo pessoas que fazem atos ordinários como não furar uma fila ou não contratar um sobrinho e sim um profissional treinado? Sim, eu sei o quão ingênuo e inocente isso soa, mas é exatamente esse o meu ponto.

Aliás, como eu disse antes, era o meu ponto. Anos atrás.

E por favor, não me venha com Capitães Nascimento. Aliás, é aqui que nossa discussão fica problemática. Sou um cara criado pelos anos 90, alimentado pela cultura pop que nem um pato ou ganso é alimentado pra fazer foie gras.

Então eu não vivi a ditadura, o máximo de dor física que tive que suportar foi uma desarticulação do joelho e alguns pontos por bater de cabeça na parede em uma aula de educação física por causa da má combinação de Tênis Rainha e piso emborrachado de escola que quer impressionar pais médicos e desembargadores. O máximo de repressão que sofri foi de alguns professores que não gostavam da minha cara e não aprovavam o fato de eu usar brinco desde muito novo e ser homem. Mas o fantasma disso tudo ainda habita nossas vidas, de formas que nem mesmo sabemos.

Então, o que quero dizer é que um herói fascista, principalmente no nosso país, não é um herói, mas sim um vilão, do pior tipo.

Quero dizer, ser criança é absorver, imitar e fazer escolhas. Não ia gostar de ver um filho ou filha usando uma boina preta e emulando enfiar cabos de vassoura em seus amiguinhos amordaçados.

Lembro de sair horrorizado de aulas de história contemporânea do Brasil, quase depressivo até, com as coisas que eram ditas sobre as torturas militares, por professores que haviam de fato vivido aquilo muito mais na pele do que em livros e relatos, do quão surreal e distante aquilo parecia, de como o ser humano é inventivo ao machucar outrem. E de dar graças a deus por aquele sentimento horrível não durar mais de uma semana.

Mas por mais distante que fosse o horror da ditadura militar, não conseguia lidar com aqueles fatos e relatos da maneira tranquila que as outras pessoas da sala, babacas que eram, lidavam, como se estivessem ouvindo mitologia grega ou algo do tipo. Não conseguia ter essa falta de empatia. Meu pai havia me criado diferente, me ensinado a se importar com o que é certo. Sempre que esse assunto chegava perto de nossas vidas eu via meu pai se fechar, se encolher e ficar assustadoramente quieto. Nunca tive coragem de perguntar, tinha um certo medo do que iria descobrir. Isso junto com o fato de não ter conhecido minha mãe fazia minha cabeça ir longe, talvez eles tivessem feito parte de uma resistência armada nos anos 70 ou 80 e ela tenha morrido assim.  É bizarro admitir, mas eu meio que gostava desse mistério todo.

Acho que a coisa com super-heróis veio daí. Ele era professor de história também e seguia uma vida de mente sã e corpo são que pra um menino cujos colegas eram filhos de engravatados inchados de comida cara e excesso de conforto, parecia algo extraordinário. Contava pra ele as histórias dos heróis que inventava no meio das aulas como quem conta a um amigo da mesma idade e ele não retrucava com “presta atenção na escola moleque, não pago pra ficares desenhando”, mas sim com comentários legais de ouvir sobre os poderes e as cores dos uniformes.

Ele era meu norte, tudo que queria ser quando crescesse, eu me vestia como ele e agia como ele. As coisas que gosto e que faço vieram dele e eu gostava disso, gostava quando as pessoas reparavam e comparavam a gente. Olha o fulaninho, é a cara do pai. Como aquela música do Nelson Gonçalves:

Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
”.

Ele era meu herói. Podia contar com ele pra tudo, os pequenos problemas de vida de adolescente ficavam mais fáceis com ele por perto.

Nunca me dei com matemática, por exemplo, e alguns professores conseguiam piorar e muito essa relação.

Uma em especial parecia me odiar, muito. Não conseguia nem disfarçar a cara de desprezo ao ler meu nome na chamada, nunca por completo, diferentemente de todos os outros alunos ela me chamava apenas de Júnior e dizia essa palavra com tanto amargor que parecia dizer “maldito” ou “leproso”.  Mesmo antes das primeiras provas e de constatar meu completo retardo quanto a números e operações. O que era tão fácil de ser entendido e reproduzido em matérias como português, artes, filosofia e coisas do tipo, em ciências exatas era simplesmente impossível.

Tinha virado rotina, ela sempre me chamava pra ir resolver equações no quadro e eu simplesmente não sabia o que fazer com o giz, ficava ali parado querendo morrer, como se estivesse frente a um pelotão de fuzilamento.

A única pessoa que ficava de fora desse pelotão era a Maia. Ela queria ser arquiteta e era boa de cálculo e de desenho. Dizia achar engraçada a minha burrice e eu não conseguir entender como alguém que desenha bem podia curtir matemática.  Nunca fui muito popular na escola e também não fazia muito esforço pra mudar isso. Maia era minha melhor amiga e eu dava graças a deus por ter aprendido LIBRAS antes de conhecê-la. Costumava ir às aulas que meu pai frequentava e tinha orgulho de conhecer a comunidade surda, de ter um nome em LIBRAS e poder me comunicar com a Maia de um jeito que ninguém no colégio, fora a mãe dela que era a tal professora que me odiava, podia. A turma naturalmente composta de babacas a excluía com a desculpa da barreira de língua e me excluía junto, falando babaquices sobre nós dois na nossa frente como se eu também fosse surdo ou como se ela não percebesse o clima hostil. Mas eu não me importava. Quando eu falava com Maia e vias as mãos pequenininhas dela se mexendo e formando palavras, o mundo ficava quieto e a mesquinhez das pessoas ficava boba e pequena.

Lembro muito bem do dia que a gente ficou amigo de verdade. Festa junina da 8ª série.

Na escola, me fizeram usar uma roupa ridícula e não me deixaram comprar uma caixa de bombas de murrão. Quando se tem 14 anos de idade e não dá pra explodir as coisas, São João serve pra quê? Passei o caminho de casa até a escola emburrado, julgando tudo que existia com xingamentos infantis. De saco cheio pra tudo.

Até ver o sorriso dela. De orelha a orelha, lindo e natural. Aqueles de criança que sorri com o corpo inteiro. Ela era o meu par naquele ano e eu que nunca tinha ligado pra nada, agora me via suando pelas mãos cada vez que a gente se encostava pra fazer um passo ensaiado. Um vestido combinando com a minha roupa, mas nela não ficava ridículo, muito pelo contrário. Qual era a cor? Azul? Não, era outra cor. Amarelo? Odeio amarelo. Falei pra ela que me sentia ridículo naquela roupa e ela respondeu que aquele era o objetivo do São João. Éramos todos ridículos. Tanto ela quanto eu.

As turmas dançaram suas danças típicas sazonais e depois de tentar lembrar os passos e engolir a vergonha, a gente foi correr pela escola e brincar um pouco. A escola era muito grande e mesmo cheia de crianças gritando e pais fingindo gostar da socialização, dava pra achar lugares não tão lotados.

Sentamos num pequeno pátio que ficava no centro de um conjunto de rampas que ligavam os andares das séries do ensino fundamental e costumava ficar fechado nessas ocasiões. A gente pulou a grade e sentou lá no meio. A gente tinha essa brincadeira, eu e ela, de repetir uma palavra até que ficasse estranha, até que parecesse perder o significado. Em LIBRAS esse fenômeno é bem mais divertido. Era divertido vê-la rindo de uma palavra comum como se fosse o gesto de um desenho animado.

Ela escolheu o sinal do meu nome naquele dia pra ficar repetindo, eu era muito pequeno pra saber o que estava acontecendo comigo e muito leigo pra saber o poder das palavras, mas aquilo sendo sinalizado por ela, por aquele sorriso e aquelas mãos, repetidas vezes como um mantra, foi uma das sensações mais intensas que havia sentido. Como se não controlasse meu corpo e pensamentos, como se ela estivesse me fazendo afundar num mar de sons silenciosos sem que eu pudesse fazer nada. Eu só sentia vontade de me entregar mais e mais, de me deixar levar pela correnteza. Ela fechou meus olhos com as mãos e eu fiz o mesmo, agora começando a repetir o nome dela. O nome dela me deixava quente por dentro, me dava um calor mesmo, que nem fogueira. Comecei a pensar em fogo, bombas, rojões, foguetes e coisas explodindo, fogos de artificio e no sorriso dela. Tudo me queimando por dentro, mas de um jeito bom. O calor dela chegava perto, cada vez mais perto, cada vez mais quente. Como ficar perto de uma fogueira de olhos fechados.

Escuto o alarme de incêndio da escola tocando alto, mas não consigo parar pra pensar no que aquilo significa, estava quase em transe. E no meio do barulho da sirene, ouço algo que parece meu nome, mas dito pela primeira vez de um jeito completamente diferente, com raiva, gasto.

A mãe dela a chamando pra ir embora, furiosa por algum motivo. Tentei barganhar mais tempo pra brincar e ficar ali, em vão. Pra mim, ela nunca poderia entender o que tinha acontecido entre aquelas duas crianças momentos antes. E eu só entenderia os motivos dela anos mais tarde.

Desde essa época, corriam boatos que a surdez da filha vinha de Sífilis congênita contraída pela mãe durante a gravidez, e os alunos julgavam sem pena e sem empatia tanto mãe quanto filha. Já no ensino médio, sendo aluno dela eu quase conseguia simpatizar com a professora frente a essas situações de merda, mas ela me tratava tão mal que era simplesmente impossível. Puxava a filha pelo braço sempre que via a gente junto, mandava a gente sentar nos lugares mais distantes da classe e sempre se referia a mim num sinal em LIBRAS que eu não entendia e Maia não queria traduzir. A relação das duas não era das piores, mas também não era das melhores.

Não como eu e meu pai, pelo menos. Ele me instruiu pra ser verdadeiro tanto quanto fosse possível e encarar os problemas com sensatez. Não sabia o motivo de tanto desprezo da tal mulher comigo e resolvi perguntar, dialogar com ela. Havia outros alunos tão ruins quanto eu na matéria e não parecia ser esse o motivo de tanta antipatia.

Juntando toda a coragem que uma situação como essa me permitia juntar, perguntei pra ela um dia, qual era o problema comigo ou o quê eu havia feito de errado pra ser tratado daquele jeito. Tentei parecer maduro falando o quanto eu gostava da Maia e o quanto ela era importante pra mim.

O quê poderia dar errado, afinal?

Tudo.

Se você perguntar pra alguém que entende de literatura ou construção de mitos, qual o elemento chave pra criar um herói ele dirá: é bem simples, catarse.

Veja bem, toda história precisa de um conflito e é nessa hora que conhecemos os verdadeiros papéis do vilão e do herói da historia, alguém precisa fazer uma escolha e tudo fica de cabeça pra baixo, mas acaba se resolvendo no final e quanto maior o problema, mais catártica fica a resolução, maior é a recompensa de quem acompanha a história.

Se você está esperando algo assim, pare por aqui.

Ainda estamos bem definidos, herói e vilã. Ela me odeia por pura maldade, sem motivo nenhum. Até esse ponto, se você me perguntasse eu diria que meu pai seria o perfeito herói nacional, que havia lutado pela libertação do Brasil na ditadura, havia perdido a mulher e criado o filho sozinho e agora defenderia o direito do filho de gostar de uma menina, filha de uma mulher terrível, que impedia a felicidade dos dois. Bem clichê, não?

Que merda, vá se foder Aristóteles e vá se foder você também, se continuou a ler, se precisa saber o fim da história, não importando o que vai acontecer com o personagem no fim, você quer sua recompensa não quer? No mínimo a satisfação da curiosidade mórbida, a mesma que faz você virar o pescoço e dirigir devagar perto de algum acidente.

Acontece que diferente da ficção, a vida é uma história mal escrita que não precisa fazer sentido, as coisas simplesmente acontecem e não tem clímax no fim.

Mas eu te entendo, eu também quis saber a história inteira.

As coisas pioraram a ponto de os tais colegas de classe que me tratavam como lixo ficarem incomodados com a maneira que a professora agia perto de mim. Eles comentaram com seus pais e uma coisa levou a outra. Reuniões e reuniões de pais e professores circundando o assunto, mas nunca tocando explicitamente na verdadeira razão. Meu pai era chamado, mas não de forma que deixasse claro que sua presença era vital, e como era muito ocupado e confiava no filho, nunca ia.

Por acaso, alguém sugeriu uma palestra de sensibilização ou algo do tipo, pra falar sobre bullying, violência nas escolas, drogas, relação aluno-professor e coisas do tipo. Uma das palestras abordaria a violência que os estudantes sofreram durante a ditadura militar e meu pai como professor de história, foi convidado pra participar da mesa redonda.

Um jeito inventivo que a escola achou pra resolver a situação. Admito.

Podemos dizer que é incrível como algumas coisas simplesmente acontecem, como escolhas que não fizemos e coisas que não dissemos se amontoam no caldo de roteiros ruins do universo. Como se alguém tivesse escrevendo tudo. Dia após dia, página por página.

Eu vi o sentimento pairando no ar como se fosse uma cortina de pano, o sentimento que eu sentia ao ler relatos de quem sobreviveu aos anos de ferro da ditadura, nos olhos de quem estava na plateia no dia da palestra. Fios elétricos, pau de arara, cano de descarga, agulha embaixo das unhas, cacos de vidro na boca e mordaças, violência, abuso, estupro, morte.

Dor.

Não dá pra fingir esse tipo de coisa. Os olhos da professora estavam imóveis, injetados de sangue e lacrimejando, enquanto meu pai falava sobre todas aquelas atrocidades. Os olhos dele e dela se encontraram e ficou tudo claro, claro até demais.  Eu não sabia o que fazer, era como se tivesse perdido os sentidos, mantido em algum porão e finalmente podia enxergar, mas a luz feria meus olhos. A professora segurava a filha pela mão e sem tirar os olhos do meu pai se levantou e ficou encostada na porta esperando por ele. Foi como ver um condenado marchar pra morte. Sabe as vezes que você se pega distraído no meio de um texto, com os olhos correndo formando palavras de um modo automático, mas formando significados totalmente aleatórios, pensando na morte da bezerra. E de súbito, acontece algo chocante, algo que te faz pisar no freio da mente, franzir o cenho e pedir pra descer.

A máscara caiu. Ouvi algumas poucas palavras da professora e algumas marcas e comportamentos de ambos começaram a fazer sentido. A implicância com meu nome, que era o pouco que ela lembrava ou sabia daquele homem era mais que implicância, mais que coincidência. Às vezes o mundo fica pequeno de propósito, é o universo rindo da cara de seus personagens.

Fui lá fora e ele tinha ido embora sem mim. Atônito, mas sem pensar duas vezes entro no carro da professora como se fossemos próximos. Não consigo pensar em nada pra dizer durante todo o caminho. Ela me deixa na frente de casa e enquanto me despeço de Maia ela põe algo na minha mochila. Não finjo não perceber.

Subo os degraus do meu prédio como quem invade a torre de um castelo maldito, pra matar um vilão com uma arma vingadora, mas tudo que sinto é um peso enorme no peito. Nada de heroico. Rezo pra que aja uma verdade agradável no fim, algo acolhedor nessa tragédia.

As luzes apagadas, bebendo no escuro, tão dramático. Tão falso. Tudo que ele pede é que eu não pergunte por quê. Talvez por ser outra pessoa em outra época, outra máscara, se é que há ou houve um motivo pra tal atrocidade, ficou perdido pra sempre nos anos de chumbo, se existe alguma forma de redenção depois disso tudo, alguma forma de perdão, eu não consigo achar. Mas não importa não é? Um herói faz o que é preciso, não importando o que sinta.

Vou andando até a casa da Maia, tentando pensar só nisso, em como eu gosto do seu sorriso e como ela dizia gostar das coisas que eu escrevo, dos heróis que invento, das coisas bobas que saem quando penso nela. Tento pensar na dança de São João e no calor que aquela memória me trazia, tento pensar nas lindas pontes arcadas que ela queria um dia projetar, nos rabiscos complicados dela que eu fingia entender.

Não faço ideia do que será minha vida, mas se ela fizer parte, acho que consigo aguentar qualquer coisa. Atirei até sobrar apenas uma bala, naquele homem que não conheço, naquela pessoa horrível, mas infelizmente meu pai morreu junto. A gente passa a vida pensando estar preparado pras possibilidades sem saber como elas são cruéis. Por mais infantil e maluco que fosse esse pensamento, pensava que a partir daquilo a professora iria aceitar a gente querer ficar junto. Eu não sou ele e ele está morto. Amo essa menina mais que tudo e faria qualquer coisa pra continuar perto dela porra, afinal já não provei isso? Que outro sacrifício eu tinha que fazer pra terminar essa história?

Maia me recebe com uma mochila nas costas e sinaliza pra mim que a mãe dela quer falar comigo a sós. Digo pra ela que a justiça foi feita. E soa completamente ridículo, li quadrinhos demais.“Os pecados dos pais cairão sobre os filhos.” Quão clichê um professor dizer isso. “Algum dia te contarei a história toda” ela diz, “mas conheci ele antes da captura da nossa frente de resistência, a Maia foi gerada ali, antes de o teu pai trair a gente e tu já tava na barriga da tua mãe”. “Vocês tem o mesmo sangue, não podem ser um casal, nunca, mas eu te aceito como amigo da família, quase um filho se quiseres.”

“Ela sabe disso”? Pergunto não acreditando no quão surreal era tudo aquilo.

Não.

Se você me perguntasse do que é feito um herói, anos atrás eu diria que tudo depende de vários fatores diferentes. Um bom vilão, uma boa origem, uma motivação interessante. Mas acima de tudo, de escolhas.

Sabendo que ela não ouviu o tiro que matou sua mãe, pego a mão da minha irmã e vamos embora sem olhar pra trás sabendo que vou ter que usar essa máscara pelo resto das nossas vidas.

Se você me perguntasse hoje do que é feito um herói, não saberia o que dizer.

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Selenita

O pior dos meus problemas é o espaço-tempo

A distância dentre os teus olhos de um céu que não acaba

E o tempo que eu fiquei perdido lá

Não tem mais sincronia

Nem gravidade

Fica tudo suspenso

O corpo se esquece de fazer direito

O coração bate pra cima e pra baixo dentro do peito

Invés de ir pra frente e pra trás

Não adianta queimar as palavras

Nem socar paredes

A tua toxina escorre nas minhas narinas

Entra debaixo das unhas

Se espalha nos dentes

O sorriso ácido

Derrete tudo em volta

E o ar vai embora

Quero gritar com toda força que resta

Mas o som não se propaga no vácuo

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