Der doppelgänger

‘’O doppelganger’’ dizia o professor de literatura de um, ‘’é um ser mítico das mitologias nórdico germânica, que é capaz de copiar a pessoa escolhida externa e internamente. Existem muitas controvérsias sobre como esta criatura misteriosa é tratada: uns dizem que ela anuncia maus agouros, enquanto outros ,que é uma manifestação do lado negativo de uma pessoa. No primeiro caso, diz-se que ver o seu próprio doppelgänger é um sinal de morte iminente, pois a lenda reza que a pessoa está vendo a sua própria alma projetando-se para fora do corpo para assim embarcar para o reino dos mortos . No segundo caso, dizem que ele assume o negativo da pessoa para tentar sobre a mesma uma influência maligna, de modo a converter a pessoa a fazer coisas cruéis ou simplesmente coisas que ela não faria naturalmente, ou ainda como no livro, tomar o lugar da pessoa para depois escolher outra vítima’’.

Um não via ligação entre a explicação ‘’folclórica’’ do professor e o livro de Saramago, a não ser o nome, levando em conta a natureza da historia e dos personagens . Um fingia concordar e prestar atenção sempre, pois achava ser isso o que esperavam dele. Um odiava todas as aulas, mas sempre era o primeiro da turma em praticamente todas as matérias, menos literatura.

Quando sabia que não tinha ninguém olhando ou prestando atenção, sua mente fugia para um canto onde sabia que ninguém o incomodaria. Ele olhava pela janela que dava para um jardim fechado e brincava com sua visão, ora mudando o foco do seu olhar para longe e para perto, vendo os objetos ficarem embaçados e depois nítidos, como a lente de uma câmera. O professor discorria sobre a vida de Saramago e um mexia os músculos dos olhos, simulando estrabismo e fazendo a imagem ficar sobreposta, criando assim dois professores chatos de literatura chata, falando sobre um livro chato e esperando que se atropelassem ambas as falas e pensamentos e corpos, sumindo e desocupando o desperdício de espaço físico e docente que eram. Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. A mãe de um sempre lhe disse para um não forçar a visão ou ‘‘brincar de ficar vesgo’’ , regra a qual um não podia deixar de sentir prazer em burlar.

 Desde criança um sempre fazia isso quando estava entediado, segurava os dois olhos naquela posição até doer, dava três batidas discretas na parede e parava. E agora mais entediado que nunca, ele tentava criar novas brincadeiras. Resolveu misturar as duas, olhou para as flores na parede do muro do jardim, no momento o alvo mais distante, e seu reflexo. As flores estavam borradas e únicas, seu reflexo estava nítido e sobreposto. Trocou o foco da visão, as flores estavam nítidas e sobrepostas e seu reflexo estava borrado e… Sobreposto?  Fechou os olhos com força, balançou a cabeça e bateu três vezes na madeira da janela. Bateu três vezes, com certeza, mania adquirida aos seis anos de idade. Ouviu seis sons. Abriu os olhos e a imagem estava nítida e única, como devia ser. Mas sorrindo. Seu reflexo sorria e ele não estava sorrindo, ou ao menos pensava não estar sorrindo. Um sentiu o que provavelmente ninguém no mundo sentiu, a não ser em gêmeos idênticos separados no nascimento e se encontrando ao acaso, um sentimento de não saber estar no lugar da consciência ou da visão. Um começou a sorrir para se convencer de sua sanidade. Ao ver o sorriso de um, outro fechou a cara e sumiu, deixando um só e confuso.

Um resolveu ignorar o fato estranho, afinal de contas o que mais poderia ser feito? Dizer que não sabia mais controlar os músculos do rosto tão bem quanto os dos olhos?

Acabada a aula um volta para casa. Um não volta para casa porque já estava em casa.

Não é possível descrever o que um sentiu ao ver outro entrando em sua casa alguns segundos antes dele. Outro que era ele em todos os aspectos, exceto pela direção dos cabelos, o ‘’redemoinho’’ que fica no topo da cabeça e mostra a circulação e energia o corpo, no sentido anti-horário na cabeça de um e horário na cabeça de outro. Um era filho único. Entre os segundos de confusão, entre a possibilidade de estar morto, ser um clone, ter um clone, ser um autômato, ou qualquer outra possibilidade que uma mente moldada por quadrinhos poderia conceber, lhe veio a esperança de que seus pais reconhecessem e desmascarassem o impostor sem que fosse preciso nenhuma ação de sua parte. A não ser admirar a cena. De qualquer forma não queria que família e amigos vissem dois dele.  Ou isso ou o medo do impostor ser ele próprio, levando tudo isso em conta, preferiu não entrar chutando a porta e gritando. Um subiu a árvore do lado da janela de seu quarto e abriu de fora para dentro do jeito que só ele sabia abrir e a única testemunha era sua namorada. Pensamentos sórdidos sobre a cópia de sua namorada o distraíram por alguns centésimos de segundo enquanto fechava a janela o mais discretamente possível. Não sabia o que fazer agora. Resolveu esperar os gritos enraivecidos de sua mãe expulsando aquele crápula, enxerto, xerox filha da puta que estava sentado em seu lugar preferido da mesa,comendo seu almoço. No lugar dos gritos, risadas em escala crescente de sua mãe, dele mesmo (mas com outro tom de risada que ele nunca faria) e surpreendentemente de seu pai, homem sério que considerava à hora do almoço uma hora sagrada. Um não queria nem podia acreditar no que acontecia. Era um verdadeiro pesadelo. Ele sempre sonhou com a morte do tédio da vida de estudante do ensino médio pelas mãos impiedosas de um acontecimento fantástico e inesperado. Talvez um meteoro. Nunca um clichê mais do que batido até mesmo para os roteiristas mais velhos e sem idéias da mais velha das editoras. Um gêmeo maligno que agora conseguia arrancar risadas de sua depressiva mãe e de seu pai tão bem humorado quanto uma calçada. Como um odiava outro. Odiava a ponto de imaginar sua mão deformando seu rosto, até seu rosto não ser seu rosto e sim o rosto dele.

O celular de um toca. Alto. O toque inconfundível de Cliff Burton no baixo de Anesthesia. A mãe de um pergunta para outro o motivo de não levar o celular para a escola. Um atende a namorada que não ouve nem diz alô, apenas começa dizendo que já esta chegando, um passo da tua casa beijo te amo tchau. Um sua frio de pensar na possibilidade do beijo deles dois. E do estudo na hora do trabalho dos pais.  O quarto. Um se esconde no armário. Segue o barulho do carro. O subir de escadas espaçado entre beijos e peças de roupa femininas extremamente difíceis de sair. A taquicardia de um ao imaginar sua namorada nos braços de outro. O enjôo. A raiva. E finalmente a culpa de ter consciência de que de um modo ou de outro, lá no fundo de sua existência agora subitamente dividida, ele sabia que existia uma possibilidade dele desfrutar a cena pornô nacional amador estrelada por sua namorada e por ele mesmo. Gonzo. Diretor, ator, espectador, personagem e critico ao mesmo tempo. O prazer de um sempre fora dividido entre o visual e o sensorial num equilíbrio quase perfeito. Ela geme alto. Ri. Comenta ‘’ tá faminto hoje’’, ‘’até parece que a gente não se vê faz tempo’’. Todos gozam. Ao mesmo tempo. Um olha para ela e para outro. Ela olha para outro. Outro olha para um. Outro venda ela que ainda trêmula, concorda com tudo. Outro olha para um nos olhos que entende e hesitante cumpre o acordo, ela por sua vez nem repara no instante em que duas mãos direitas a tocavam e trocavam de posição no quarto e no sexo.

Ela dorme encolhida no peito de um. Tem os pés e pernas beijados por outro.

Os dois se encaram. Um reflexo não tem personalidade diferente. Não. Seria como se um gravasse um monólogo inteiro e perdesse a memória. 

Primeiro sabe que a cada segundo que passa ela pode acordar. Segundo não sabe como, nem por que e nem o quê está acontecendo. Não tem ninguém no quarto além dele e de sua namorada. Tudo que aconteceu pode ter sido um sonho lúcido, tem que ter sido um pesadelo dentro de outro sonho, no qual você acorda mais ainda está sonhando.

Sim, era um sonho. Nada diferente acontece na rotina, apesar do esperado receio em relação a espelhos e reflexos. Ele vai para a escola e o outro está lá, sendo melhor que ele em tudo e com facilidade. As pessoas começam a reclamar dele, quando ele está presente, como se fosse o falso, aquele que acordou com pé esquerdo, que não está em um dia bom e o outro é a melhor parte, esforçado, bem-humorado e carismático, o melhor lado de uma pessoa, que todos esperamos ser verdadeiro. Ele se aproveita disso um tempo, sendo realmente pior do que era. Não foi mais a escola e via com menos freqüência os amigos. Sua namorada elogiava o dia anterior e reclamava do presente ao lado dele. O outro fazia de propósito para irritá-lo e fazia bem. Sua família sorria mais, estava mais unida e compreensiva e ele não fazia parte disso.

Seria ele o replicante? A cópia, o lado negro, parasita do pior tipo, que não sabe mais se diferenciar do hospedeiro, arrastando todos à degradação?

Foi à praia no seu lugar preferido, que só ele sabia onde era, onde aos 6 anos segurou uma água-viva com as mãos nuas, sem saber do que se tratava, e não foi queimado até o momento que sua mãe o alertou do perigo, ironicamente sendo queimado em conseqüência disso, pelo sustos simultâneos dele e do animal.

Ali ia fugir dos próprios pensamentos e competir consigo mesmo nadando em mar aberto. No filme ‘’Gattaca’’ os dois irmãos nadam mar adentro até que um desista, sendo que o filho mais forte, geneticamente superior sempre venceu, e o personagem principal, nascido naturalmente e com problemas cardíacos, jamais. Ele amava principalmente a cena na qual o mais fraco vence uma única e decisiva vez. Mas não tinha com quem competir, era filho único e não tinha intimidade competitiva ou aquela confiança fraterna com nenhum de seus amigos.

Um sentou e esperou. O outro apareceu. Os dois entraram no mar, os dois nadaram para longe com todas as forças e sumiram de vista. Alguém voltou à praia. Alguém voltou para casa.

 

 

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