Middlewalker

Provavelmente são onze da noite, mas o sol ainda arde na minha cara, quase imperceptível em meio a esse vento gelado que parece espremer meus ossos. Deus, como eu odeio esse frio do inferno, devia ser proibido fazer sol quando a temperatura está tão baixa. Quando via aquele vapor saindo da boca do Luke Skywalker e do Han Solo em O império contra-ataca achava muito legal, só não sabia que com isso eu ia ficar sem sentir a boca e o ar gelado ia entrar como agulhas na garganta. É muito fácil se perder nesse mundo de gelo e água, nessa imensidão branca, nem precisa sair do lugar, eu me perdi agora, nesse minuto, fui de volta a 1997, 44.16W de longitude, 2.31S de latitude, America do sul, Brasil,Maranhão, São Luis, minha casa, na sala, deitado no sofá assistindo a maratona de Star Wars na TV, Luke ficou perdido no gelo depois de cortar o braço de um tipo de monstro da neve e não consegue voltar para a base, Han vai resgatá-lo, o acha quase morto e para manter o amigo aquecido, corta a barriga de sua montaria tira as tripas e coloca Luke dentro. Essa parte especial me chamou atenção no filme porque apesar de ser uma civilização de colônia galáctica, que guerreia no espaço, com tecnologias inimagináveis, Han usa uma técnica primitiva de sobrevivência, usada em todas as regiões frias habitadas pelo homem, usar o calor corporal interno do animal como abrigo, refiz essa cena inúmeras vezes com meu irmão e nosso cachorro, sendo eu Han e ele ficando embaixo do cachorro para não morrer congelado, depois no final do filme eu teria de ser Darth Vader e perder contrariando a história, então ele concordava. Me lembro do meu irmão e a ausência dele me traz de volta pra cá.  Devem ser onze e meia agora, ou onze horas e um minuto, não sei quanto tempo passou do filme da minha cabeça e quanto tempo passou aqui fora,  nunca liguei muito para noção de data e hora, costumava me guiar pelo céu tropical, sempre pontual, sempre igual. Mudar de região no globo terrestre sempre me deixa confuso, ou é isso ou foi porque acabei de descobrir que finalmente achamos a maldita baleia. Maldita baleia, me sinto o próprio Ahab dizendo isso. Ahab, Capitão Ahab. Conheci ele quando tinha 10 anos, depois de conhecer a tripulação e o único sobrevivente do ataque da baleia branca. Depois conheci Crusoé, Long John Silver, Wolf Larsen.  Conheci, mas eu não os entendia, nem um pouco, não sabia como o mar deixa as pessoas duras. Depois de uma semana naquele barco eu já odiava até minha mãe. Antes da baleia veio a foca. A foca branca filhote cobiçada por sua pelagem. Eu não conseguia, me recusava a acreditar que um ser humano fosse capaz de matar um animal tão lindo de uma maneira tão cruel. O Capitão do barco e líder da expedição é um Siksika de mais ou menos 40 anos de idade, que apontou uma ilhota de gelo tingida de vermelho com três filhotes com a cabeça já espalhada pelo chão e um último ainda vivo. Um bebê, chorando, sozinho, indefeso, com seus irmãos mortos a seu lado, um canadense de um metro e oitenta com um ferro pontudo nas mãos e tudo que eu consigo pensar é em tirar uma foto para depois mandar, denunciar para alguma ONG e quem sabe em alguns anos DIMINUIR o comércio de peles de foca. Eu deveria estar do lado do caçador. Sou tão cúmplice quanto ele. Meu mestrado em biologia não vai salvar aquela foca, muito menos uma máquina fotográfica que eu não tinha no momento. Nem o telefone daquela ativista exaltada e linda da ONG, nem ninguém que não escutasse o choro do filhote ou visse como ele se movimenta com dificuldade em terra firme. Meu deus. É um bebê, só um bebê. Não tem nada que eu possa fazer, nem gritar eu consigo. Não posso pular na água sem morrer depois de 15 minutos. Tudo que eu posso fazer é assistir a morte de um bebê e chorar junto com ele. Nunca tinha chorado tanto na minha vida. Nunca me senti tão impotente, inútil, culpado, assassino. O velho Siksika passou 20 anos estudando a natureza como eu, na universidade dos homens, pela lei dos homens. Os outros 20, pela lei da natureza. Ele surge de sua sala portando o que para mim até o momento era uma peça de decoração, um lindo arco negro, tão negro quanto os pés dos Siksikawá e num movimento de braço tão natural quanto respirar muda para sempre três vidas. O som mais lindo que já ouvi. Som de infância, o esticado da baladeira soro-vermelho, o elástico de aplicar injeção da tia enfermeira apertando a madeira e o couro geralmente tirado de um sapato velho do meu avô, a pedra geralmente brita por ser fácil de encontrar e ter o formato triangular perfeito atingindo a polpa macia do mamão. Eu sempre estragava a fruta com a mira péssima. Meu irmão sempre atingia o talo deixando o mamão intacto. É o mais próximo que meu cérebro chega do verdadeiro som das coisas. O cordão de polímero sintético faz notas muito agudas quando esticado junto com a madeira canadense. A ponta de sílex corta o ar gelado e chega assoviando na garganta do outro canadense. O bebê ainda está vivo. Ele se arrasta para a liberdade e atinge a água enquanto eu sorrio compulsivamente e o caçador se afoga no próprio sangue. Eu entendi. Entendi tudo. Ele me chamava de garoto da AVON, dizia que o lugar de gente como eu não era no mar. Era na’’paz verde’’ junto com outros intelectuais engajados que se importam muito mais em conhecer outros intelectuais engajados e transar com eles do que com filhotes e seus miolos espalhados pelo chão. A matança de animais indefesos e a inútil defesa de seus direitos, ou a tentativa de parecer se importar com isso devem ser afrodisíacas para estudantes em congressos. O mar, um capitão chamado Sikonatayo e seu arco Blackfoot me mostraram que era preciso tomar uma posição na guerra para ter direito de chorar por suas vitimas. Meu irmão era melhor que eu em tudo. Pelo menos eu via assim. Precisava disso, eu acho. Ele se importava. Ele estava no mar entre um arpão, várias espingardas e uma baleia que acidentalmente quebrou a sua coluna vertebral.  Eu chorei por ele antes do tempo, senti raiva da baleia e me coloquei em cima do muro. Não conseguia fazer nada tão bem quanto ele. Largar tudo e lutar por uma causa maior. Lutar. Telefonar e tirar fotos não eram lutar, não segundo o velho Siksika, ele riu da morte do meu irmão e disse ‘’boa morte’’. Agora eu entendi. O capitão tratava todo mundo como lixo e tinha uma preferência por mim. Me olhava como se eu fosse um desperdício de carne. O clima no navio era pesado. Algumas brigas eram consideradas naturais até o capitão abrir a porta e olhar pra fora como se nós fossemos meros moleques fazendo confusão. A hierarquia se mantinha matilhamente e os socos e chutes do capitão ficaram familiares até pra mim. Agora eu entendi. Meu irmão falava de almas ligadas na vida e na morte. Os polinésios acreditavam que o espírito era levado por uma baleia para o reino dos espíritos. Que existia um animal totem dentro de cada um, protegendo e sendo protegido e os dois se encontrariam no outro plano. Antes eu não entendia nada que meu irmão falava, não entendia porque o capitão parecia ser tão desprezível, porque a carne no navio tinha um gosto estranho, porque meu irmão teve que morrer, porque as focas continuavam morrendo, porque levantar uma bandeira de paz verde em tempos de guerra. Eu achava o capitão um filho da puta, achava que não podia salvar a foca, que o caçador ia sair ileso. Antes da baleia, antes da foca, antes da flecha, antes do índio. Han Solo volta à batalha, agora lutando pela aliança rebelde e salva Luke, ajudando a destruir a estrela da morte e vencer uma batalha contra o império. Ele tomou partido. Antes eu não sabia por que gostava mais dele do que do Luke. Agora eu entendi.

a baleia de shichigoro shingo

Anúncios

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized

4 Respostas para “Middlewalker

  1. Nossa. Tudo muito bem construído, muito bem escrito, muito bem tudo.
    Teus textos tão muito bons. J’ai besoin de plus 😀

  2. Lucho

    porra, ta foda,
    (vejo streetlight manifesto, aí!)
    achei mto bem escrito! 🙂

  3. quando tu escreves dá vontade de continuar lendo e de
    repente acaba e a gente fica atônito com a sensação de ”ué não tem mais?”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s