Tensão superficial

Tensão superficial é a ilusão de uma membrana elástica na superfície de um líquido. Também é o que permite a breve existência das bolhas de sabão. Talvez tenha sido a ideia da bolha, sendo formada e desaparecendo até explodir que me deu a sensação de ver a tensão superficial dos momentos.

Antes do primeiro golpe dado, ninguém ainda está pronto para arriscar, talvez seja melhor esperar um pouco, um soco errado e a guarda ficará aberta, como saber o que ele está pensando, ele não lhe olha nos olhos, não entrega nem medo nem confiança, como saber a hora? As pernas ficam aborrecidas de andar em circulo, querem avançar rápido e sem piedade, as mãos mesmo silenciadas dentro do couro querem gritar, pular, acertar o alvo e fazer sangrar, mas a cabeça sabe que ainda não é hora, ao menor movimento, o menor vacilo, seja por orgulho, vaidade ou impaciência, você faz aquilo que aprendeu a fazer com muito esforço, a eletricidade vai passar pela terra, subir pelos calcanhares, se multiplicar nos quadris, aquecer no tronco, ganhar mais velocidade nos ombros até finalmente explodir nas mãos, em pouco tempo, mas ainda não.

Antes de a chuva cair, quando se está nem tão perto nem tão longe de casa, quando o cheiro pesado da umidade do ar torna a precipitação mais que óbvia, não é preciso olhar para o céu, no momento exato, ela ainda não caiu, nem no chão, nem em você.

Você não escuta, nem sente a água no corpo e nem vê, mas sabe que já começou, o cheiro muda, fica pesado, mais espesso.

Antes do primeiro beijo, ao conhecer uma nova pessoa, não uma pessoa qualquer, uma pessoa diferente, que diferente das outras não lhe dá tédio ou raiva, pelo contrário, a pessoa é estranha de um jeito bom, um jeito que lhe faz bem e você não sabe como ou porquê. Só sabe que quer ela perto, você não sabe o que ela pensa de você ou se ao menos  pensa em você, então, o que fazer em seguida?  Amizade, coleguismo, convivência harmoniosa? Isso não existe para esse tipo de querer, você percebe agora o quanto essa pessoa é diferente e o momento chega, a conversa não importa mais, o olhar muda, não há mais som ou música, os poucos centímetros distanciando as cabeças e bocas parecem anos-luz e você esquece do resto do corpo, que também não sabe o que fazer direito mas fica pronto para qualquer coisa.

Então a bolha de sabão explode, o adversário finta com a esquerda e joga um gancho de direita, a chuva cai pesada entrando até na mochila e meias, ela se aproxima com a boca e você fica cego e surdo por um breve momento.

 

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