Meu pequeno criptido

Eu estava sonhando com fogo, sentia o calor em meu rosto. No sonho eu devia cuidar de cavalos ou dormir em um celeiro, algo assim. Eles estavam desesperados com toda aquela palha queimando ao seu redor. As portas finalmente cederam e os cavalos corriam abraçados pelas chamas, corriam o máximo que podiam até o fim. Eles tossiam quilos de cinza pela boca, e as crinas e rabos eram formados agora somente por brasas e fumaça. E eles gritavam de dor. O som dos cavalos era agudo, perturbador e diante desse inferno apenas duas figuras permaneciam impassíveis, eu e um cavalo que parecia não se importar com as chamas. Não tenho certeza se era um cavalo. Era um bicho estranho, nativo de sonhos com certeza, que lembrava a imagem de um unicórnio exceto pelo chifre curvo e ramificado, diferente daqueles clássicos que parecem uma lança ou algo do gênero. Aquele animal estranho tinha uma expressão mais humana do que muita gente que eu conheço. Eu caminhei para tocá-lo e fui derrubado por milhares de patas ardentes e pisoteado por ferraduras em brasa.

Acordei e ela continuava dormindo na mesma posição. O lado dela estava liso como se tivesse sido passado a ferro, enquanto o meu não tinha nem mais colcha. Eu estava completamente encharcado de suor, com a roupa grudada ao corpo e com uma sensação desconfortável de sujeira, como se tivesse ido dormir direto depois de chegar de um jogo de futebol. O ar-condicionado estava quebrado. Não escutava nada além do barulho estranho do ar-condicionado, minha tosse e o maldito cachorro do vizinho, que deve ter fetiche por sapatos. Imagino que não seja ele andando de quatro com um par de sapatos nas mãos e outro nos pés. Ou que ele tenha um cavalo no apartamento. O fetiche com o pobre do cachorro é a única explicação possível, pelo menos para mim, para o barulho irritante de cascos em cima do teto do meu quarto.

Levantei no escuro diante daquele calor e fui tateando até o banheiro sem me lembrar do frio. Dos 32 graus Celsius de portas fechadas do meu quarto para os 3 graus negativos do resto do país, incluindo o banheiro do apartamento, foram cinco ou seis passos e uma pequena convulsão por choque térmico. Devia ter comprado um apartamento com calefação.

Com certa dor e um nível incômodo de rigidez muscular, levantei e acendi a luz do banheiro, que graças a deus tinha aquecimento a gás. Liguei o chuveiro e fui para a pia, querendo ver se o choque tinha deixado meu rosto paralisado, como tanto já ouvi falar.

Eu não entendi o que vi no espelho. Estava imundo, completamente sujo dos pés a cabeça, como se tivesse saído de uma mina de carvão ou de um incêndio. Não sabendo o que fazer diante de uma situação inesperada, o ser humano se volta ao mais simples de ser resolvido. Nada me passava pela cabeça, pelo menos nada extraordinário, pequenas opções de atitudes a serem tomadas, pequenas cenas de nós dois. Se ela acordasse naquela hora e fosse ao banheiro, me chamaria de mineiro ou carvoeiro e iria dizer que queria ficar suja também, me beijando e me puxando para o chão da sala, fingindo não se importar com o carpete branco. Olhava o espelho como se aquela cena fosse normal, como se eu fosse realmente um carvoeiro que precisa tirar aquela crosta de sujeira escura antes de se deitar com a mulher. Pensei em qual sabonete usar e me lembrei de quando as correntes das bicicletas vagabundas do orfanato sempre saíam e ninguém sabia colocar no lugar. Ou eu era o único que não se importava em ter que tirar a graxa das mãos depois. Pensei nela reclamando da sujeira que eu iria deixar nos lençóis. Entrei debaixo do chuveiro e vi tudo aquilo escorrer pelo ralo. Finalmente poderia abraçá-la até o inverno passar e rolar com ela nas colchas que foram presente da tia. Um momento de alívio por conseguir tirar aquela escuridão do corpo, seguido de pânico.

O pânico que aparece quando o homem percebe a profundidade de algo, a verdadeira extensão de um problema, ou que um conceito matriz acaba de ser derrubado, como acidentes vistos em vídeos instrucionais de segurança que você nunca pensa que vão acontecer ou a possível existência e possibilidade de contato com criptidos.

Ele pode aparecer no momento em que se percebe que fuligem nunca é um bom sinal. Ou que uma pessoa dormindo sempre se move, pelo menos mostrando a respiração. Ou que animais míticos nem sempre foram inventados sem motivo. Corri para o quarto. Acendi a luz e tudo continuava preto, uma escuridão palpável cobrindo tudo como um manto escuro que não queria ser domado pela luz. O ar-condicionado havia sofrido um pequeno incêndio elétrico em partes separadas. Enquanto lavava aquela sujeira do corpo sem me perguntar de onde ela veio, algum componente plástico foi queimado durante a noite inteira e as cinzas foram sopradas por todo o quarto, sufocando lentamente minha esposa.

Dois anos atrás. Desde então não durmo com o ar-condicionado ligado nunca e tenho dores de cabeça insuportáveis todos os dias. Quero me mudar, não aguento mais esse maldito vizinho que fica jogando twister com tamancos holandeses ou esconde um antílope no apartamento. Não aguento mais o cheiro de morte em cada canto de cada parede e a vizinhança me culpando, sentenciando e executando com os olhos.  Se não fosse pelos pais dela, que são inegavelmente pais para mim desde antes e muito mais agora, já teria largado tudo e todos. Emprego, os ditos amigos, a casa, tudo mesmo.

Meus sogros são indecisos. Ou não conheço mais os costumes chineses. Eu os busco na casa afastada da cidade até o bairro chinês para acender incensos em respeito à filha. Eles esqueceram ou ignoraram o ano-novo chinês que coincidiu na data.

O luto e o apego ocidentais já os infectaram. Os deixei falando com conhecidos e caminhei sozinho entre crianças soltando fogos e ruas cheias de bandeiras vermelhas. Eu me lembro de quando estávamos todos juntos e comíamos nian gao a noite toda. Dragões de papel e seda passavam por mim recheados de estudantes de kung fu. Não via os leões, deviam estar em outra parte da rua, ou se equilibrando em postes. Eles adoram vermelho, amarelo, dourado, azul. As cores fortes e formas vibrantes quase espantavam o frio. Tanto vermelho em tudo.  No meio da rua, alguém se destacava. Uma fantasia cinza e para uma pessoa só. A dança do dragão é feita com duas ou mais. Era um qilin. Eu nunca vi esse animal ser representado por uma pessoa ou ter uma dança própria. Também não conheço a cultura chinesa tão profundamente. Ele se movia apenas o suficiente para não atrapalhar o desfile e não ser levado pela multidão. Parecia olhar para mim, apesar dos olhos desse tipo de fantasia não se moverem. Os gritos de alegria mudaram ao meu redor sem eu perceber, quando um dos fogos atingiu uma barraca de lanternas de papel. O incêndio cresceu consideravelmente e fiquei impassível e estático, mais uma vez frente à criatura de um chifre único que dançava entre as chamas. Meu sogro gritou e eu corri na sua direção ignorando as pessoas cobertas de pólvora e chamas coloridas. Minha sogra havia sofrido graves queimaduras e precisávamos levá-la ao hospital.

Ela me faz falta em todos os aspectos possíveis. Eu era completamente diferente do que sou hoje quando nos conhecemos e completamente diferente dela. Sem ligação emocional com nada, tratava todo mundo como lixo. Ela era inteligente, tímida, um pouco calada. Aquele ar quase virginal tinha me domado completamente.

Nunca fui apegado a ninguém antes de conhecê-la. Não conheci meus pais, amava os dela como se fossem os meus, pois sempre me trataram como o filho homem que nunca nasceu.

Não estou pronto para isso. Não quero ouvir o médico dizer seja lá o que for. Como não fumo, não tenho a desculpa do cigarro para ir lá fora esfriar a cabeça, mas saio mesmo assim.

Está esfriando de novo. O hospital está cheio na entrada e completamente vazio na saída. Escuto algo se mexer nas árvores, mas o barulho é logo abafado pelo som de uma ambulância que, sendo devidamente informada do caos na frente do hospital, veio direto para o estacionamento e direto para cima de mim.

Não consigo me mexer, começou a nevar e eu nem percebi. A luz do farol da ambulância derrapando na neve em minha direção é a única coisa que eu vejo. E patas. Ou melhor dizendo, cascos, cascos iluminados vindo na minha direção e uma pancada muito forte no peito. Eu acordo em meio a mais uma cena trágica, a ambulância capotada e os paramédicos removendo os feridos da cena. Incrivelmente eu estava ileso. Completamente imaculado, sem nem um arranhão. O motorista falava que nem tinha me visto.

Depois de alguns exames meu sogro diz que precisa ir até a casa buscar algumas coisas.

Tudo é bizarro demais para minha cabeça. Depois que ela foi embora, a realidade começou a dissolver. Nada faz sentido. Uma maldita peça de ar-condicionado estragou a minha vida, maldita companhia de eletrodomésticos, malditos japoneses, maldito frio, maldito sonho que me acordou. Culpe a todos menos a si mesmo. No meio da estrada, nevando cada minuto mais pesado. Com seu sogro no banco do carona e sua sogra com queimaduras de segundo e terceiro graus no hospital. Culpe o pobre do animal na pista e não a sua distração.

Animal na pista, grande, branco, difícil de ver. Desviei, não o matei, infelizmente. Eu não uso cinto quase nunca. Acordei na neve, ensangüentado, pelo menos 8 metros do carro, agora em chamas com meu sogro dentro.

Culpe Deus. Ele te deixou sozinho quando bebê e agora quer completar o serviço. Por que eu não morro? Por que eu tenho de ficar ileso assistindo a essas tragédias ao meu redor?

O que um maldito cavalo estava fazendo no meio da estrada?

Os parentes mais próximos da minha sogra estão literalmente no outro lado do mundo. Eu não sei quanto tempo uma pessoa resiste com tantas queimaduras no corpo, mas sei que não é muito.

O hospital está quieto, quase ninguém ficou ferido gravemente naquele dia.  Sou cético desde que posso me lembrar, mas estou começando a achar que existe azar ou maldição.

Esse silêncio me faz pensar. Lembro da infância no orfanato. Quando todas as crianças tinham medo de mim e todas as freiras sabiam que não era fisicamente possível eu machucá-las do jeito que se machucavam, mas me isolavam mesmo assim.

Então me lembro de algo que não passava pela minha mente há muito tempo. Eu tinha um amigo imaginário. Não lembro como ele era, mas lembro seu nome. Charlie.

Charlie era minha única companhia naquele orfanato. Cheio de crianças desajeitadas, que viviam caindo e quebrando algum osso, viviam ficando doentes ou se trancando em porões.

Eu era o único que passou dos 13 anos sem nenhum osso quebrado ou dedo queimado ou ter ficado trancado numa sala escura acidentalmente. Realmente muito estranho minha memória ter apagado completamente Charlie e os acidentes. Pensando melhor, nem as freiras se safavam dessa sina. Lembro de ter tido pelo menos seis madres-superioras e mais de vinte freiras professoras, que sempre pediam transferência, saindo de lá com gessos e fazendo o sinal da cruz.

Os sinais dela estão fracos, mas estáveis. Levanto e olho pela janela. E vejo pegadas. Pegadas que não poderiam estar ali. A neve não parou de cair desde que cheguei e as pegadas continuam fundas mostrando o chão com uma diferença de pelo menos cinco centímetros de neve. Como se tivessem sido feitas por cascos em brasa. A minha testa dói como nunca, parece que meu cérebro está acorrentado e deseja sair a qualquer custo. Minhas mãos e pés estão rígidos como nunca estiveram e eu sei que não é pelo frio. Sinto um impulso de sair daquele quarto e seguir as pegadas, mesmo com a clara noção da possibilidade de acabar encontrando um alce perdido ou um guarda da policia montada.  Do primeiro andar para um monte de neve não é uma queda tão grande. Sigo as pegadas na neve até a mata atrás do hospital. Os pinheiros enfileirados levam a um grande carvalho e um córrego congelado. Minha testa parecia explodir a cada passo, como se meu cérebro estivesse flutuando em nitroglicerina, e de repente a dor para. O vento silencia. Tudo fica quieto e imóvel. Só o que escuto é a respiração profunda do animal a minha frente. De trás do carvalho surge um enorme cavalo branco, não branco acinzentado, ou avermelhado, um branco prateado quase etéreo.

Com um chifre enorme no meio da testa. Suas patas mal tocavam o chão.

Me senti conectado a ele de um jeito que nunca senti em relação a nada nesse mundo. E não foi bom. Sinto-me como se fosse posse dele. Eu pertencia  àquilo. Aquela coisa de outro mundo estava me vigiando o tempo todo. Entrei em pânico mais uma vez. Depois de anos. Ele nem se moveu, não fez absolutamente nada além de me fitar com aqueles olhos negros, e eu senti medo como nunca na vida, um horror imenso que me impedia de respirar, me senti criança de novo, quando acordava com a estátua de São Jorge apontando para mim. Corri o máximo possível naquela neve, para o mais longe que conseguisse. É inevitável, ele esteve ali minha vida toda, não importa o que eu faça sempre voltarei a ele.

Mais uma vez, o ser humano se concentra no que pode resolver. Primeiramente aceitar a verdade, o que foi visto foi visto. Um unicórnio.

Em seguida pesquisar tudo que os humanos sabem sobre ele. Mas tudo era ridículo e inútil. Todos os livros idolatravam aquela coisa, um símbolo de pureza, sabedoria, liberdade. ‘’Enquanto o mundo arde com as chamas da paixão, orgulho, ambição e ódio, o qilin permanece. Como um símbolo do caminho verdadeiro perante as vicissitudes passionais da vida. ’’

“O unicórnio é um ser único de pura energia,…”

“Apenas donzelas puras e homens afortunados podem fazer contato direto com o animal.”

“Aquele que estabelecer contato terá sua vida tocada para sempre.”

“Não se sabe como a reprodução acontece, em nenhuma mitologia isso é abordado e apenas fala-se sobre os machos da espécie. Daí a ligação com donzelas virgens.”

Vida tocada, afortunados, reprodução, chamas passionais, desapego…

Ele me escolheu. Sempre esteve lá. Na morte dos meus pais.  Na morte de todos. Queria me libertar das amarras do amor e da família. Eu sou sua propriedade, sua cria, sua e de mais ninguém.  Maldito seja. A liberdade era minha sina então.

Todos os unicórnios são humanos então? Ou eram humanos? Por isso que se aproximam de mulheres?

É inevitável. Minha maneira de lutar contra ele é aceitar que ele não existe, é apenas uma manifestação dos seguidos acontecimentos traumatizantes na minha vida. Uma fuga da realidade. Ele é um fetiche. Minha solidão de criança e meu luto adulto.

Um foco de dor. Uma existência que brota de uma mente que não funciona direito.

Um cético só precisa de uma prova concreta para virar um crente. Estou me esforçando ao máximo para sentir o efeito dos remédios e negar as manifestações físicas nas mãos, pés e na cabeça.

Ele está na janela olhando para mim. Maldito. Ninguém pode vê-lo? É tão obvio. Atirem, atropelem, tirem de perto de mim. Ele é um monstro, matou minha família, matou tudo que chegou perto de mim. Eu te odeio Charlie, não quero brincar com você, nunca quis brincar com você, você me forçou. Eu grito pela enfermeira o mais alto que posso.

– Charlie, o que aconteceu? Charlie abra a porta, sim?

 

 

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