Mal de Santo Huberto/ B.B.W. II

Ela entra em casa e observa um envelope em cima da mesa, ele aparentemente não chegou, ela parece preocupada com o comportamento do marido, desde que ele voltou da viagem, senta no sofá e leva a mão à cabeça como quem conforta a si mesma.

Ela foi criada em um ambiente extremamente religioso o que a transformou em uma adulta completamente cética. Provavelmente uma das coisas que a atraiu em seu marido foi o desprezo mútuo pelo misticismo da religião e o amor as artes.

O marido era um famoso fotógrafo que há alguns meses voltara de uma expedição que tinha como objetivo fotografar animais selvagens em uma reserva natural. Sempre foi um homem extremamente gentil e amoroso, que a telefonava sempre que possível, mesmo no interior da reserva no Alaska, sempre dava um jeito de chegar ao posto de comunicação ou ainda mesmo à vila que ficava a mais de dez km de distância e falar com a esposa, até duas semanas antes do retorno.

A esposa não sabia o que havia acontecido. Foi tomada pelo desespero depois de três dias sem comunicação. Mas confiava nele, sabia que se alguma coisa tivesse acontecido ele daria um jeito de avisá-la, não importando o meio ou o tempo que custasse.

Ao chegar ele era um homem completamente diferente. Não a abraçou como de costume, apenas chegou com um olhar vidrado e tirou toda a roupa. A esposa não compreendia aquilo, não podia fazer nada a não ser olhar e esperar alguma explicação. Ele tirou primeiro as calças e por último o sobretudo peludo e a camisa, revelando o dorso coberto de cicatrizes enormes.

Depois ele se ajoelhou num gesto de desamparo e a olhou com um jeito de menino perdido que encontra a mãe. Ela se colocou perto dele, que começou a chorar compulsivamente.

Eles se abraçam por um longo tempo e ele começa a contar toda a história.

Todo o começo da viagem se resumia em fotos de alces e cervos e a aurora boreal, mas o que ele queria mesmo era registrar o comportamento dos animais antes e durante a noite polar, que durava dois meses. Dois meses de noite.

Um verdadeiro desastre. Os animais se comportavam exatamente como esperado, a maioria migra,hiberna ou continua a vida normalmente. O único que não se adaptava as condições era o homem.

As pesquisas que ele fez falavam sobre o alto índice de depressão e stress durante essa época, as pessoas ficam visivelmente mais reservadas, caladas ou violentas. Ele resolveu mudar o tema e capturar os humanos, como se fossem animais, o que não agradou nem um pouco as pessoas do lugar. Se antes lhe tratavam com cortesia, agora ele era repudiado por todos. Mas era fácil sentar em um carro com vidros escuros ou no próprio quarto do hotel e tirar fotos dos sujeitos no seu comportamento natural, exatamente como animais. Os mais fascinantes eram os jovens e os Inupiat que habitavam uma área afastada da cidade, próxima a reserva. Os Inupiat caçavam pouco hoje e seus hábitos nômades eram cada vez mais influenciados pelo aquecimento global. Eles haviam falado a ele sobre a presença de um grande mal rondando o lugar. Difícil um cético levar a sério qualquer tipo de misticismo nos dias de hoje, mesmo vindo de um ‘’bom selvagem’’ como aquele que posava para as fotos com o orgulho digno dos peles-vermelhas de um filme de faroeste. Os jovens também estavam alvoroçados, uma coisa rara nessa época do ano em que vão e voltam da escola sem ver o sol um único minuto. Boatos do desaparecimento de uma jovem do condado vizinho e vários assassinatos macabros ao longo da estrada Dalton, começando pela estrada Elliott. Pessoas despedaçadas, com marcas de garras por todo o corpo. Ele sabe como são boatos de adolescentes. Por pouco tempo ele fica intrigado pela coincidência da fala do índio, mas o índio provavelmente devia ter um rádio ou até um computador, por que não?

Uma agitação, uma fato extraordinário, o que por ali é mais literal e cheio de significado do que em muitos outros lugares do planeta. Algum animal estranho, provavelmente fugido de um ambiente artificial, a julgar pelo comportamento atípico.

E agora se aproximava daquela cidade. Uma grande criatura de pelo negro foi vista alguns quilômetros ao leste. Todos os homens se armaram e se voluntariaram para capturar o bicho. E surpreendentemente (ou não) deixaram o fotógrafo registrar a empreitada heróica.

Depois de dias rondando a reserva sem encontrar nada, um trenó cheio de cães vem da vila para dizer aos presentes que três pessoas tinham sido estripadas na casa de uma família de pescadores e uma garota havia desaparecido.

O fotógrafo quis ir junto com a multidão enfurecida para a área do mar congelado, mas alguma coisa lhe disse para ficar perto da reserva. Em último caso poderia passar a noite no posto de observação. O guarda era a única pessoa com a qual ele tinha se dado bem.

Um pressentimento estranho. Um frio na espinha que não o usual dos dezoito graus negativos, ele esperou em silêncio no escuro. Não como um fotógrafo. Como uma coisa diferente.

Demorou um pouco para a espera dar fruto. Barulhos abafados o levaram na direção da coisa.

A coisa, aquela imagem que nunca ia sair da memória dele. Um lobo ou urso com garras enormes, um bicho que ficava em pé sobre duas patas e que fazia um barulho horrível. A seus pés os restos da filha de pescadores ainda frescos, um pedaço ainda na boca da coisa.

Ele hesitou por um momento, mas logo depois tentou pegar a arma que o guarda o havia emprestado, infelizmente o instinto de fotógrafo o fez pegar a câmera ao invés da arma.

A coisa investiu e derrubou o fotógrafo com um golpe, deixando o braço retalhado e o peito sangrando.

Antes de entrar em choque ele teve forças para tirar a arma e descarregar o cartucho na direção da coisa.

Acordou no hospital da cidade para ficar sabendo que dormiu dois dias inteiros e a coisa havia sido capturada graças a ele e os guardas , e queimada, por se tratar de um grande lobo infectado pelo vírus da raiva. Os habitantes não podiam deixar a doença infectar os cães que eram primordiais naquela região. O hospital já havia iniciado o processo de vacinas que deveria continuar assim que ele voltasse para casa. Pelo menos a neve havia dado um tempo.

Ele perguntou se poderia ficar mais algum tempo para procurar a câmera, ou pelo menos o cartão de memória que provavelmente ficou na floresta.

Nesse meio tempo tudo voltou ao normal. Havia sido uma semana extremamente extraordinária para a cidade e para o fotógrafo.

A maioria das fotos já estava no computador, mas a cidade estava sem rede de internet ou telefone devido às péssimas condições climáticas. Muitas coisas para contar à esposa que teriam de esperar.

Ele perguntou ao amigo na reserva se algum dos guardas havia encontrado sua câmera provavelmente quebrada, mesmo sabendo que debaixo de tanta neve era praticamente impossível. O guarda comentou que todos os guardas que participaram da captura haviam sido transferidos para um hospital particular e ele não havia recebido mais notícias.

O tratamento era dolorido e incômodo. Vacinas com agulhas enormes em lugares sensíveis como o umbigo.  O hospital era um pouco precário e ele deveria voltar logo para a cidade natal para fazer exames mais elaborados e o resto do tratamento com acompanhamento médico especializado. Mais alguma coisa ainda o prendia ali.

A névoa e a neve voltaram, assim como as mortes.

Os poucos animais que se arriscavam a sair no inverno estavam aparecendo mortos do mesmo jeito de antes.  O fotógrafo instalou várias câmeras pequenas pela cidade e pela reserva. Assim ele podia ficar no hotel e recolher o trabalho depois.

Ele começou a sentir efeitos estranhos que atribuiu às vacinas.

As mortes aumentaram em quantidade e gravidade, animais maiores, domésticos e por fim seres humanos.

Toda uma família Inupiat havia tido a casa invadida e sido estraçalhada por outro grande animal infectado pelo último.

O prefeito da cidade estava encorajando a todos para não saírem de suas casas e no caso dos turistas para voltarem para o lugar do onde vieram.

Ele recolheu as maquinas da cidade, mas deixou as da reserva, combinou com o guarda que ele o enviaria assim que possível as fotos, se o clima colaborasse. Ele voltou para casa. Uma semana de viagem febril saindo de Barrow até Juneau e de lá até a Columbia Britânica.

Ele não fala com a esposa nesse tempo. Mesmo que possa. Não sabe o que está acontecendo, tem alucinações e perdas de memória.

O contágio deve ter aumentado o número de ataques mais ainda.

Ele está assustado. Ele não falou para ninguém como se sentiu ao ver mais mortes em uma semana do que a população do Alaska vê em uma vida. Ver pessoas estraçalhadas e o sangue, o sangue que não era em preto e branco como nas belas fotografias de guerra ou de revolução, o sangue fresco, com o cheiro pesado da carne aberta bruscamente, o sangue que não queria ser separado do corpo e jorrar pela terra, o sangue que não fede a ferro, o sangue que fede a medo.

Ele não está assustado pelas alucinações que vem tendo ou por não conseguir engolir nem a própria saliva sem ganir de dor, não está assustado com o possível vírus incubado dentro do seu corpo, nem com a visão da fera no cenário real que mais parece ter saído de um pesadelo. Uma cidade que fica dois meses no escuro, nevando todos os dias cujas únicas saídas são a estrada mais deserta do mundo, um oceano congelado e a própria floresta de onde vem a criatura sedenta de sangue.

Nada disso o assusta, o que o assusta de verdade foi a visão do sangue sob a neve, aquele contraste macabro.

O que o assusta de verdade era o fato de ele ter achado maravilhoso.

Uma semana se passa desde que ele chegou. Tudo mudou. Ele não para em casa. Grita e briga por qualquer motivo.

Ela abre o pacote e lê o conteúdo. Não sabe como reagir, tristeza ou felicidade, é tudo muito confuso.

Ele chega a casa com um olhar vidrado e ar irritadiço. Quase maníaco. Uma coisa que ficou comum nessas últimas semanas.

Age como se não soubesse o que fazer, ou o que dizer.

—Eu tô doente.

—Calma meu amor. Tá tudo bem!

—Não, não tá! Eu tô doente, muito doente. Eu contraí raiva e o tratamento não tá funcionando!

Ela pensou em interrompê-lo, mas nunca havia feito isso quando era um homem carinhoso e calmo e simplesmente não consegui começar agora que ele parecia um louco, um verdadeiro psicótico.

Ele continuou

—Eu… Eu tô tendo alucinações, pesadelos horríveis com cães negros enormes que são onipresentes, eles me perseguem por todos os lugares matando todos a minha volta e no final rasgam a minha carne e eu fico parado apenas sorrindo! E essa raiva o tempo todo, às vezes da vontade de arrancar a garganta de alguém e pisar em cima. Um mendigo hoje…

— Chegou um pacote para você.

—E? O que tem nele?

—Documentos do seu amigo do Alaska, junto com suas fotos

—Diz logo o que você viu sua puta!

Ela fica completamente chocada e ele fica desesperado.

—Me perdoa, por favor, eu te amo, eu tô com medo, eu não sei o quê que tá acontecendo comigo, eu acho que matei um cara hoje…

Ele começa a chorar e ela pensa na melhor maneira de perguntar o que aconteceu.

—Um cara veio me pedir esmola e eu disse que não tinha, mas ele ficou insistindo e chegando perto, eu não sei o que aconteceu direito, eu empurrei o cara com força, eu tava com raiva, ele caiu no chão, eu comecei a chutar ele, não sei por que, tinha tanto sangue, eu quero ficar bom, eu não tô bem, foi o bicho, é um vírus, tem cura, tem que ter, tinha muito sangue meu deus, tem mais gente eu acho, não consigo lembrar, me ajuda, por favor!—toda aquela gente morta…

—As fotos.

—Sim! As fotos do bicho, eu tenho que ver, eu preciso ver

—Em todas as fotos só aparece a mesma coisa!—começa a chorar.

—O quê?

—Você.

—…

—E o exame de sangue?  Que doença é? É raiva? Eu vou morrer em quanto tempo?

— Eu…

— O quê? Eu preciso saber!

Ela se tranca no banheiro chorando e leva o exame. Ele começa a bater na porta furiosamente oscilando entre ameaça e barganha.

—Sai daí, por favor! Eu confesso ok? Fui eu que matei toda aquela gente, eu lembro de tudo! Era isso que você queria ouvir? Foi por isso que eu não fiz contato, foi por isso! Eu matei! Não agüentei aquelas caras simpáticas ridículas sempre me perguntando se eu estava bem e pedindo esmolas e se eu tava afim! Eram só umas putas e uns mendigos, ninguém vai ligar! — Pelo amor de deus abre essa porta, eu não vou te machucar, eu te amo, eu preciso saber que doença eu tenho! Você quer que eu morra? Que eu fique louco? Seja preso? Eu quero ficar curado! A culpa não é minha!

Ela fica em silêncio e passa o exame pela porta no qual se pode ler:

‘’Nenhum traço de transmissão/contágio de vírus ou bactéria infecciosa’’

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1 comentário

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Uma resposta para “Mal de Santo Huberto/ B.B.W. II

  1. wilne

    É impressionante como a leitura desse texto nos leva a uma linha crescente
    de interesse e curiosidade .Há uma certa metodologia na maneira como está narrada com se o autor nos levasse passo a passo ao grande final que é surpreendente e devastador pois nos leva a pensar o quanto é terrível descobrirmos algo que não sabemos de nós mesmos. É sem dúvida uma leitura instigante e que mexe com imaginário . Um bom prato pros psicólogos !

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