Abacaxis

Abacaxis são tudo o que vejo. Cinco horas de viagem da capital até as praias do sul da ilha e só o que vejo são abacaxis; plantações até onde a vista alcança. Minha avó costumava dizer que cada plantação de abacaxi nasce de um antigo rei morto, que ordenou que todo seu exército fosse enterrado junto com ele, todos do mesmo jeito com a coroa e a armadura, e quem encontrasse o verdadeiro rei no meio dos abacaxis seria o próximo rei. Essa era uma das poucas historias do meu país que não esqueci.

O ônibus chia mais alto a cada minuto, até ele está cansado. Ninguém agüenta mais a viagem, as conversas artificiais com estranhos de sotaque esquisito, a paisagem repetida, o ar-condicionado. Eu não gosto das plantações e de seus reizinhos redondos dormindo em baixo da terra, não gosto de abacaxi.

O ônibus mais parece um trem antigo, cada engrenagem, cada peça fazendo barulho, junto com a cidade e a estrada parece um organismo irritado, um sistema digestivo com úlceras, as pessoas fazendo barulho, os abacaxis murmurando uns com os outros debaixo da terra, as pessoas mastigando, os bares de beira de estrada tocando música alta, os carros passam buzinando e eu fecho os olhos, eu sinto as rodas tocando cada imperfeição da estrada, sinto os sapatos apertarem meus pés e os ossos se comprimirem e por fim aquele gosto azedo na boca.

Abro os olhos e o mundo mudou, a estrada é invadida pela areia e termina, o ônibus suspira aliviado e para. Nada de plantações de abacaxis. Só o mar.

Minha única bagagem além da mochila era minha prancha biquilha que estava no teto.  Tiro as meias e sinto a areia com meus próprios pés, em uma praia que é minha, com meu sol ardendo de um jeito bom na cara, sem aquela sensação opressora do deserto, com certeza aquele sol era outro. E mais importante, o mar. Nada me dava uma sensação de liberdade maior do que o mar, sensação de calma, como se cada onda levasse o peso dos meus ombros sucessivamente, como se nada mais importasse a não ser a corrente.

Não penso em hotéis antes de pensar no mar, nada disso importa. A primeira pousada que encontro já é mais que suficiente para deixar minhas poucas coisas em segurança antes de voltar a fazer a única coisa que realmente senti prazer em fazer.

Surfar.

Antes de sair da ilha, com seis anos de idade, para servir a família real eu surfava com meu pai, mas não guardo nenhuma lembrança consciente dessa época, tudo o que lembro é de ir embora e tudo o que veio depois, estranhar as grandes dunas, a areia quente, as aulas de etiqueta, defesa pessoal, treinamento tático e como eu deveria ficar agradecido pelo resto da vida por aquela oportunidade, ser o ’’ kagemusha’’ do príncipe, sua sombra e anjo da guarda desde a infância até o fim da vida.

A única coisa que eu realmente agradeço é a súbita vontade do príncipe de querer aprender a surfar, nas ridículas praias do país dele, obrigando todo o serviço secreto a aprender junto.

A coisa que eu era sentiu algo de bom, que não fosse a falsa satisfação servil. Depois de anos me sentindo tão humano quanto uma calça, o mar me chamou. Não podia continuar seguindo a vida como era depois de ver o céu se transformar em mar no interior de uma onda. Fui preparado durante a maior parte da vida para proteger a vida do rei e do príncipe, para morrer no lugar dele se fosse preciso ou assumir sua identidade. Sempre me considerei pronto e não acreditava em nenhum motivo para não cumprir o dever. E quando o momento chegou, quando o príncipe desapareceu nas ruas de Sayhera diante dos meus olhos, quando eu devia aparecer no canal mais importante do país usando suas roupas e imitando seus gestos, eu não quis.

Eu fugi, sumi assim como ele sumiu, sem deixar rastro, sem pensar, sem plano nem nada. Apenas segui o curso dos acontecimentos.

Uma semana antes estávamos no deserto e o príncipe chamou minha atenção para uma coisa pulando no meio das pedras, ‘’um peixe’’ ele disse, ‘’no meio do deserto, provavelmente fez uma curva errada e nadou vários quilômetros sem perceber estar num rio sazonal, que é muito comum nesse país, os rios podem se formar e morrer em poucos dias, aqui, na época das chuvas’’. Ele estava desesperado, pulando, lutando para respirar no meio de toda aquela areia e aquilo estava me incomodando profundamente, os olhos já estavam completamente secos e ele se debatia cada vez menos. O príncipe disse ‘’ podemos salvá-lo se você quiser, mas vamos ficar sem água durante toda a volta’’. Quando chegamos ao palácio o peixe estava morto dentro do meu cantil, eu fiquei devastado, mas não demonstrei, o príncipe colocou a mão no meu ombro e disse ‘’ não é sua culpa meu amigo, ele já estava morto ao fazer a curva’’.

Aquela frase ficou na minha cabeça até hoje.

Estou divagando muito e ainda não surfei, cruzo a rua e volto para a areia, da areia para o mar não percebo os locais que me observam como se eu fosse um alien. Tinha me esquecido desse pequeno detalhe, nós somos ensinados a odiar todos aqueles que roubam nossas praias, nossas mulheres e nosso esporte, mas depois de tanto tempo longe, infelizmente, sou mais ‘’eles’’ do que ‘’nós’’.

O alien devia mostrar para o que veio. Entro no mar com pressa sem aproveitá-lo como se deve e escolho a maior onda para mostrar para eles. Tirar o sorriso da boca deles, mostrar que esse mar é meu.

Enquanto ele surfava, eu devia ficar na praia com a prancha enfiada naquelas pedrinhas (o país tinha péssimas praias) posando de civil normal curtindo o sol, por isso minha prancha era qualquer uma comprada de qualquer jeito, uma biquilha de seis pés e dez polegadas que mais tarde eu iria descobrir ser péssima para as ondas altas e curtas do meu país.

Duro no máximo quatro segundos em cima da onda antes de ser engolido pelo vagalhão.

Lá embaixo não existe barulho, não existe frente ou trás, cima ou baixo, não existe tempo, não existe peso. O mar aqui parece muito mais poderoso, mais antigo. Está cobrando o respeito que eu não mostrei me girando como se eu fosse um inseto em uma pia.

Sinto uma coisa quebrando, uma dor forte e depois de uma eternidade nas profundezas, me levanto com dificuldade para descobrir que a prancha quebrou no meio e que minhas costas estão completamente destruídas pelos recifes de coral.

O pior vai ser agüentar a caminhada de volta para a praia. Todos aqueles idiotas rindo de mim e com razão.

No meio de um oceano de adolescentes morenos de calção azul florido, vejo uma mão se estendendo na minha direção e um rosto lindo.

Ela me puxa para um canto cheio de árvores com uma cabana médica, eu começo a ficar tonto. Ela diz que o coral é cheio de microorganismos, diz que estão no meu sangue e por isso vou ter febre, conclui que não sou daqui, me fala que nessa praia ninguém usa longboards exceto os turistas que sempre acabam com cicatrizes nas costas, enquanto pega um vaso e quebra a folha de uma planta com um cheiro forte, as feridas infectadas estavam começando a doer muito, ela esfrega o sumo pegajoso nas minhas feridas enquanto diz que está tagarelando sem parar. Digo que não me importo e sinto a maior sensação de alivio que já senti na vida, a planta é uma benção dos céus. A voz dela me acalma, e ninguém deve deixá-la falar tão livremente sem se importar com o idioma nativo e o oficial se misturando. Anoiteceu depressa e não percebi, ela sai apressada dizendo que precisa voltar para casa. Eu não tenho muita pressa em voltar ao hotel, mas sem a prancha não sobra nada para fazer. Saio e começa a chover uma chuva forte, grossa, pesada, como eu não via há muito tempo, continuo caminhando pelas estradas alagadas e cercadas de plantas, pensando nela e me dou conta que não perguntei o seu nome, quando vejo os locais se aproximando, agora em menor número.

Assim de perto posso diferenciá-los uns dos outros, o que tem mais cara de líder vem me peitar com uma fala extremamente arrastada, enquanto dois outros se separam do grupo com alguma coisa nas mãos, provavelmente para me surpreender pelas costas. Do discurso do líder eu consigo entender pouca coisa, estrangeiro, rico, roubar, mulheres, ela, ela, ela.

Me esqueci de perguntar o nome dela.

Estranho lembrar com ternura do rosto e da voz de uma pessoa enquanto se atinge a garganta de outra. Com os nós dos dedos eu atinjo sua traquéia três vezes, ele tosse descontroladamente antes de entrar em choque, dos outros dois, um fica paralisado e o outro tenta atacar com um ridículo chute alto saído de alguma reprise de seriado dos anos 70, realmente uma tentativa desesperada de recobrar a coragem, evocando um motivo de um ídolo de infância. Tendo todo o peso do corpo somente em uma perna ele praticamente pede para eu chutá-lo na articulação do joelho e afundado nessa lama a fratura era inevitável. Em grupo, os agressores são mais vulneráveis, confiam no maior número e não estão preparados para surpresas, então depois de quebrar a confiança atacando primeiro, posso pensar em como evitar o ataque pelas costas.

Ou não.

Fiquei orgulhoso demais com o trabalho bem feito e me descuidei levando uma garrafada na cabeça. Virei a cabeça oferecendo a testa ao invés da têmpora, conseguindo ficar só tonto e imóvel o que é bem melhor que inconsciente.

Escuto outras vozes chegando. Errei no julgamento do líder, o verdadeiro era um samoano de um metro e oitenta e poucos de altura com uma tatuagem enorme no braço esquerdo, mas apesar do tamanho parecia ser pouco mais velho que eu, no máximo dezessete anos.

Acho que vou morrer hoje. Calculei mal a situação, fui pego desprevenido, pela primeira vez depois de anos escoltando ele, avaliando cada saída possível de todos os lugares antes de entrar, dobrando cada esquina com os olhos antes do corpo e desarmando infiéis, cometo um erro de amador, um erro grosseiro. A única vez que a vida em questão era a minha, eu falho. Falhar quer dizer morte. Falhei com ele, falhei com o mar, com o peixe e comigo. Pode me matar agora, por favor.

Eles não vão me perdoar, pelo menos um deles vai usar muletas por um bom tempo e o outro nunca mais vai cantar. Escuto um barulho comum nos becos do mundo inteiro, facas de mola e facas borboletas abrindo.

A voz dela me vem na mente, falando na língua nativa, o que é muito estranho, e falando alto.

Escuto sirenes na nossa direção e o grupo se dispersa, ela se ajoelha ao meu lado e consigo sussurrar no seu ouvido ‘’polícia não’’.

Quando o borrão passa, consigo ver o sorriso infantil de quem quebra o vaso pela primeira vez depois de anos de obediência aos pais, ela me guia em meio aos hibiscos e cercas vivas. A experiência de quem correu por essas plantas e casas durante dezesseis anos não se comparara a qualquer treinamento ou lanterna da polícia. Correndo como se a fugitiva fosse ela e não eu. Não me pergunta por que eu não queria contato com a polícia ou mesmo meu nome, só diz que nunca tinha vivido nada tão intenso. E ri.

Podia ouvir aquela risada por dias. Ela diz que a cidade não tem polícia, que em setenta anos de existência devem ter havido três roubos e dois assassinatos, que a polícia de uma cidade um pouco maior fazia uma ronda uma vez por semana, que ela não tomava banho de chuva desde os oito anos de idade, se sentia como em um filme e percebo que não soltamos as mãos ainda.

Não sei de onde eu tirei coragem de dizer ‘’você é linda’’ que soou como se eu tivesse dito ‘’o céu é azul’’ ou algo ainda mais idiota. Culpei a concussão. Ela riu. ‘’ não te conheço, tenho certeza, nunca te vi na vida e já sinto mais próxima de você do que qualquer pessoa na cidade’’ ela diz. Não fui treinado para esse tipo de situação, nada me obriga a estar aqui com essa menina louca, mas não queria estar em nenhum outro lugar do mundo.

Preciso pensar em alguma coisa para dizer, qualquer coisa, eu não sei que esportes eles praticam nesse país, será que ela tem alguma doença, por que ela me ajudou do nada, rápido qualquer coisa, meu deus será que eu sou retardado, preciso pensar em alguma coisa, rápido.

‘’Eu ainda não sei o seu nome’’. Eu sou um imbecil.

‘’Maylea ’’.

Infelizmente não me lembro de como começou, posso me lembrar de tudo que tinha acontecido naquele dia, lembro de como ela estava vestida, de como a chuva deixava seu corpo quase nu, do som do nome sendo falado por ela mesma, mas não me lembro de como começou.

Não queria que ela tivesse ido embora, podíamos ter ficado ali.

De volta ao quarto olho para o teto a noite toda, reencenando tudo o que aconteceu. Nunca tinha estado com uma garota antes, nunca tinha usado alguma parte do corpo para expressar alguma coisa que não fosse usual/prática ou com função especifica antes de hoje. Tudo aquilo era estranho para mim. Nunca fui próximo de ninguém que eu não estivesse servindo. É estranho pensar no corpo quando se usa para fazer carinho em alguém. As mãos ficam fazendo movimentos repetidos em alguma área do corpo da outra pessoa da maneira mais lenta possível, quase no limite entre devagar e imóvel. E a boca, tirando a outra pessoa da equação, o beijo é a expressão facial mais ridícula que alguém pode fazer. Não é como lutar sozinho, ou treinar sozinho, lançar golpes no vazio, pode-se perceber claramente a intenção da pessoa que faz tais gestos e o corpo fica bonito, imponente, ameaçador. Lutar com a sombra é como lutar consigo mesmo, exteriorizar os medos e derrotá-los. Não dá para comparar com isso. Por que a boca? Por que usar a boca para mostrar afeição a alguém? Não, definitivamente, beijar o nada e socar o nada são duas coisas incomparáveis, o soco independe de tudo e o beijo não existe sem outra pessoa. Beijar o nada seria como surfar sem o mar. ou sem prancha. É isso, o surf é a perfeita sintonia entre o mar, a prancha e o surfista assim como o beijo é a expressão das duas pessoas naquele momento, todo o sentimento expresso por uma parte do corpo. Toda a energia focada nesse movimento. Pensando assim até parece com um soco, mas o mar e o surf soam bem melhor. Quero beijá-la de novo e mais infinitas vezes. E surfar. Meu cérebro está agitado demais para dormir agora.

O dia amanhece com um sol morno e convidativo, eu não tenho prancha e não sei onde ela mora.

Na praia só tem alguns corredores e velhos fazendo Tai Chi. Eu preciso de uma prancha nova. Preciso de dinheiro para uma prancha e dinheiro quer dizer emprego.

Não estou acostumado a não ter nada para fazer. Estava completamente focado no surf e agora com a prancha quebrada e a consciência de que sou péssimo não sobra muita coisa. Maylea não me disse praticamente nada sobre ela, se a veria de novo ou não. Maylea, tinha me esquecido da sensação de dizer o nome, esse nome sonoro, quase doce. Gostaria de vê-la de novo.

É a segunda vez que me pego distraído pensando nela e esses imbecis aparecem. Ainda bem que não me viram, o samoano tatuado e os amigos chegam em um jipe com pranchas na parte de trás, fazendo barulho e assustando os velhos. Uma velha senhora provavelmente japonesa derruba muitas coisas no chão, frutas eu acho, e o samoano diz aos amigos para pararem com a bagunça e ajudarem a velha. Ela os agradece com gestos gentis e vai embora. Eles pegam as pranchas, chegam à areia, as fincam na areia e o samoano faz todos se ajoelharem e fecharem os olhos como uma espécie de meditação, antes de entrarem no mar. Aquele cuja perna eu quebrei e que está agora engessada, faz o mesmo ritual, mas sem prancha, que ficou no carro.

Essa cena me surpreende bastante e até me faz refletir um pouco enquanto eu roubo a prancha que ficou no carro e levo para o hotel. Não esperava esse tipo de sensibilidade de um monte de moleques xenófobos locais.

Lavar pratos e panelas em uma lanchonete durante a manhã inteira e metade da tarde é o melhor emprego que consigo não tendo referencial nenhum.  O que torna o horário de quatro às seis da tarde extremamente especial, pois não tem viva alma na praia e o sol deixa tudo com cores psicodélicas, como se fosse um sonho. Quando ele finalmente se põe, volto para o hotel e passo por Maylea acompanhada de um homem mais velho, que deve ser seu pai, mas não consigo ver com clareza. Ela me olha com uma cara de ‘’não posso falar agora, mas te vejo daqui a dez minutos’’. Depois ela sai escondida e ficamos juntos a noite toda.

Podia me acostumar com essa vida. Nunca estive com uma garota antes, ou mesmo alguém que pudesse chamar de amigo, alguém para falar sobre qualquer coisa, alguém para beijar, sentir vontade de ver a pessoa todos os dias e agora todas essas coisas me parecem naturais. Sonhei com isso por dezesseis anos, mas não passava de um sonho apagado, em preto e branco, quase desaparecendo, todos os aspectos de uma personalidade foram apagados por aqueles auto-proclamados ‘’nobres’’, tudo o que sobrava de espaço para pensar devia ser aproveitado ao máximo se eu quisesse continuar um ser humano e não me transformar em um acessório, uma ferramenta, um móvel da casa como ‘’A bela e a fera’’, como todos os outros indivíduos que orbitavam aquela família, sempre sorrindo, sem dignidade e sem ambições. Sem alma.

Não sabia o quanto os odiava antes de fugir. Antes de beijar Maylea, antes de entrar no mar, antes de ele desaparecer. Meu prazer deveria se limitar às sobras que me eram oferecidas e eu deveria pensar naqueles objetos velhos como uma benção divina. Eu não sabia o que era prazer, apenas contentamento. Rodeado de toda aquela riqueza eu vivia do lixo sem saber. Agora tudo isso vinha à tona junto com um sabor azedo na boca.

Os telejornais diziam que o príncipe estava em retiro espiritual e o rei se mostrava orgulhoso da devoção do filho.

Estava orgulhoso de mim mesmo, de conseguir odiá-los e de estar apaixonado.

Talvez não tão orgulhoso assim a ponto de ficar tranqüilo para conhecer o pai dela. Não podia ficar só com a parte boa? Todos os rituais masculinos tiveram que ser descobertos sozinhos por mim, como eu podia encarar isso?

Tudo bem, saindo do trabalho então, pôr-do-sol, combinado. Relaxa, ele vai gostar de ti.

A primeira impressão do pai de Maylea era de que ele não era um homem e sim um ser superior, capaz de mudar de forma como lhe era conveniente. Ela estava parada perto da porta do lado de fora enquanto uma voz grave vinha de dentro e me fazia perguntas, ela fingia não rir da minha rigidez física e verbal e eu tomava coragem para entrar na casa sem ter certeza se o rangido vinha das minhas pernas ou dos degraus de madeira velha.

Os instrumentos marítimos estranhos e pedaços de seres marinhos nas paredes, realçados pelo contraste do crepúsculo, só aumentavam minha apreensão e por um minuto esqueci completamente o motivo de estar ali. Um minuto que pareceu durar uma era.

Um estranho pedaço de madeira que lembrava uma pá ou raquete, coroado com o que pareciam ser dentes de tubarão chamou minha atenção em especial, principalmente pelo frio na espinha quando percebi que era uma arma. Aquela visão despertou alguma coisa estranha em mim, pois podia sentir meu coração batendo mais forte a cada segundo, mais forte, e seguindo o rastro das cordilheiras de dentes nas paredes, pude ver um sorriso nas trevas, quase idêntico aos das paredes, e uma silhueta que oscilava entre a fronteira do claro e escuro. Senti como se estivesse caindo em uma armadilha ou no mar depois de ter visto uma barbatana entre as ondas. Como se eu tivesse sido pescado e esperasse pelo golpe de misericórdia da faca enquanto tentava respirar, me afogando em ar. Aquele objeto dentado preso na parede emanava uma aura sangrenta e o dono dela sabia disso. Agora que meus olhos haviam se acostumado com aquela luz desfocada do crepúsculo, podia vê-lo com clareza, era um homem muito grande, que sentado tinha praticamente a minha altura. Braços extremamente fortes, de quem trabalhou a vida toda no mar e um olhar vazio e escuro como de um tubarão.

  Leiomano.

  O quê?

  O objeto que você tanto olha. Uma arma dos antigos polinésios. Era usada para desbastar a carne e quebrar ossos.

  São dentes de tubarão, não são?

  Sim, de tigre. Os antigos começavam uma guerra mostrando a língua e fazendo caretas para assustar o inimigo, mas eventualmente tinham que usar as armas que o mar os dera. Principalmente com forasteiros.

  Mostrar a língua para o inimigo?

  Não se engane rapaz, aqui isso quer dizer ‘’você não é bem-vindo e eu vim comer a sua alma’’!

Aquilo me deixou em estado de alerta total, a tensão era quase palpável e todos os meus músculos estavam contraídos. Estava preparado para agir, não ia falhar dessa vez, não podia falhar de novo. Quando Maylea me tocou com aquelas mãos frias eu tive que fazer um esforço inumano para lembrar onde estava e não virar uma cotovelada em quem quer que fosse. A energia teve que ser redirecionada e depois daquela tensão meu corpo relaxou significativamente e eu perdi o controle das pernas.  Ela riu e ele riu fazendo parecer que todas as bocas mortas o acompanhavam e eu ri o melhor que pude mesmo olhando para elas.

‘’O jantar foi ótimo’’. Eu disse a ela, que respondeu que eu havia causado uma boa impressão ao seu pai. Respiro aliviado depois do aperto de mãos e do beijo tímido, enquanto caminho para casa. Foi como ser avaliado pelos agentes, instrutores e nobres mais uma vez. Mas não pelo trabalho e sim por alguém que eu gosto. Não deve ter sido tão ruim. A pior parte foi ter que fingir gostar de abacaxi e comer duas vezes. Pelo menos o pior já passou. Assim espero.

No caminho para casa escuto um barulho estranho vindo do mato, carregado pelo vento, como uma festa abafada com tambores e grunhidos. Do outro lado de um pequeno morro, entre as fileiras de bananeiras havia uma fogueira e várias pessoas ao redor do fogo com tambores. Ao me aproximar vejo que estavam todos quase nus, cobrindo apenas os genitais com uma coisa que parecia uma sunga de folha de bananeira ou algo do tipo e lama por todo o corpo. Havia também dois homens brancos que pareciam europeus, vestindo o uniforme típico dos turistas, ajoelhados e amordaçados no meio da roda. E os outros eram os locais de sempre, agora com facões na mão, exceto por aquele com a perna engessada que segurava uma espingarda muito velha e o samoano que carregava o mesmo objeto da casa do pai de Maylea. Eu realmente não faço idéia do que possa ser isso, que tipo de ritual bizarro é esse, e nem idéia de como ajudar aqueles caras. Essa xenofobia foi longe demais. Tenho que me acalmar, lembrar das lições, do básico, daquilo que é simples. Pedras, distração, observação. Observo o samoano que xinga e chuta um dos dois turistas e mostra a arma com um brilho nos olhos. Os circulo o mais silenciosamente possível até chegar ao engessado. Bananeira por bananeira, calmamente. Jogo a pedra para a esquerda e corro para a direita, onde ele tem menos mobilidade, todos olham para o outro lado enquanto eu tomo a arma e derrubo com facilidade o engessado. Piso na garganta dele enquanto todo mundo olha para mim com os facões nas mãos e ódio nos olhos. Até aqui tudo bem. Devia ter planejado o passo seguinte. Não sei se eles continuaram com os tambores ou era meu coração batendo enquanto grito o mais alto que posso para ninguém chegar perto com a espingarda apontando ora para a cabeça do engessado, ora para eles. Não posso ser encurralado aqui.

O samoano, que é o único com um semblante calmo, me pergunta na língua nativa se entendo o que ele diz. A voz do meu pai ecoa na minha mente. Uma voz sem rosto, mais uma voz forte. Eu respondo que sim, com dez anos de interferência política e psicológica atrapalhando meu vocabulário. Ele sorri como se confirmasse uma suspeita e responde que sabia que eu era um local, apesar do sotaque e do cabelo estranho, sabia que eu não era um dos turistas, eu era um deles. Estou agitado, não posso deixar que ele domine a situação, pergunto o que está acontecendo, qual o motivo daquele ódio com os turistas, que eu não ia deixar ninguém morrer ali. Ele pega em uma bolsa vários papéis que parecem ser fotografias, os turistas começam a fazer barulho, ele pede a um dos locais para me mostrar as fotografias.

Preferia não ter visto. Abacaxis, o ônibus que eu estava, bares, praias, poses com os donos dos bares, suas famílias, suas pequenas filhas de cinco a oito anos no máximo, e depois, o horror, aqueles turistas e as meninas. Aquelas fotos, se ele tivesse me falado eu não ia acreditar, mas por Deus, queria não ter visto.

Eu não sabia o que fazer, olhei nos olhos do samoano e todos eles começaram a sorrir, eu devia estar com a mesma expressão que eles estavam um minuto atrás, apontei a espingarda para os turistas, mas não consegui fazer nada. O samoano faz um sinal com a mão e eu espero, ele se aproxima e faz menção de trocar a arma dele pela minha. Respondo que não posso. Ele pega minha espingarda de qualquer jeito. Fico parado e observo ele cravar os dentes de tubarão na nuca de um dos turistas. Ele agita a arma um pouco e aponta o cabo na minha direção, enquanto os outros começam a tocar os tambores de novo. Um homem acaba de morrer na minha frente e tudo que consigo pensar é que ele mereceu. Os tambores aumentam à medida que caminho em direção da arma e de repente, luzes e vozes se aproximam daquela pequena festa. Os donos da plantação ou os empregados devem ter escutado algo e vieram investigar. Todos sabem o seu respectivo papel, um conduz o prisioneiro, outro apaga a fogueira, um carrega o corpo e outro o amigo engessado. Só eu não faço idéia do que fazer e os sigo o mais rápido que posso. Depois de algum tempo correndo, acabamos chegando a um pedaço da ilha cheio de pedras. Eles estão agitados com o risco recente de serem pegos.  Se esquecem de mim e riem uns com os outros como crianças roubando frutas, devem se conhecer desde essa época provavelmente, se não fosse a atual situação sentiria inveja deles. O samoano os organiza de novo e me explica que nunca houve turismo significativo na ilha até pouco tempo e depois disso algumas meninas começaram a desaparecer, eles deviam fazer isso há algum tempo, também me diz que eles pensaram que eu era mais um deles, mas depois de me observarem cuidadosamente descartaram essa hipótese.

‘’E eu sei que você tá com a minha prancha. ’’ Disse o engessado, enquanto os outros riam.

Eu me desculpo pelo joelho e ele diz que não foi grave, pois tinha as articulações mais soltas e flexíveis do que uma pessoa comum e na verdade eu tinha tirado sua rótula do lugar e isso já havia acontecido diversas vezes.

‘’ Onde você aprendeu a lutar assim? ’’  Respondo vagamente enquanto eles imitam alguns movimentos de artes marciais e riem.

Isso é estranho. Parece que estou fazendo novos amigos enquanto tem um turista sexual amarrado deitado ao lado de um cadáver, novos amigos que tentaram me matar poucos meses atrás.  O samoano vira para mim e diz ‘’ você sangrou conosco, você correu conosco, agora prove que é um de nós ’’. Eu estava esperando que esse momento não chegasse. Ele me entrega a arma e se afasta em direção ao réu. Ele é o juiz e o júri, eu sou o candidato a executor, eu sou a criança nova no parque que tem que merecer o lugar no balanço.

Sem a mordaça o acusado tenta se defender alegando que não havia feito nada, apenas assistido.

Apenas assistido.

Assisto uma pessoa golpear violentamente outra com um pedaço de madeira cheio de dentes afiados, como se não fosse eu, como se não fosse eu que estivesse coberto de sangue no corpo inteiro, como se não fosse eu quem parou de bater e olhou em volta depois de gritar até a garganta doer, sendo louvado e abraçado pelos outros e ficado feliz com isso. Como se não fosse eu no meio das crianças brincando com sangue.

Queria que não fosse eu ali no meio dos outros, enquanto Maylea estava vendo tudo.

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