Alex- Oy to ne vecher

Eles se aproximam lentamente conversando alto com aquela voz irritante, quanto mais chegam perto mais tenho que me controlar, sou medido de cima a baixo, pelo menos tanto quanto a rua sem poste permite, e o nojo sobe pela minha espinha, coloco as mãos nos bolsos lentamente até sentir o frio glorioso do pedaço de aço. Isso me acalma um tempo, aquelas ondulações no metal e o jeito como se encaixam perfeitamente em minhas mãos. Se eu pudesse escolher um poder mutante seria ter garras retráteis que saíssem das minhas mãos cada vez que alguém me deixasse puto, assim todo mundo ia saber o quanto estavam sendo irritantes, mas no momento esses socos-ingleses bastam. Poucas coisas que eu gosto nesse mundo. Soco-inglês pintado de preto, metal eslavo, artes marciais, e o jeito que a cara das pessoas muda quando olham meus coturnos 44. O pequeno ataque de pânico quando o olhar sobe de novo até a minha cara que confirma o começo do show.  Glorioso.

Não tem a ver com gostar de homem, não tenho problemas com gays, o que eu odeio é a fraqueza.  Pode ser gay se quiser, o que me dá ódio é o jeito como eles falam, o jeito como andam, aquele jeito exagerado e acima de tudo a delicadeza, aquele jeito ridículo de se assustar com qualquer coisinha, isso deixa meu sangue fervendo, como se fosse um inseto irritante zumbindo no teu ouvido quando se quer dormir, eu nem sinto pena do choro e dos engasgos, o que me incomoda é a falta de reação. Assim como velhos, eu odeio velhos, decrépitos e patéticos, melhor morrer de uma vez. Não pretendo passar dos 60 e mesmo assim vou ser um velho Voyn, nada de fraqueza, igual o mestre, igual meu pai.

Eu estou dividido, como uma lembrança de um sonho, posso me ver sentado ali batendo como um louco, chernobog em pessoa, como se estivesse jogando um jogo e o personagem sou eu, me sinto calmo, como se o sangue voando na minha cara fosse o trabalho diário, a coisa mais normal do mundo, Michelangelo na capela sistina e todas aquelas gotas de tinta caindo todos os dias na cara, um pintor, um açougueiro, me sentia calmo e ao mesmo tempo muito irritado, muito puto mesmo, cansei de socar o primeiro cara e passo para o segundo, que tenta sair correndo, isso me deixa furioso, ele nem pensou em ajudar o suposto amigo, puxo a corrente do cinto e giro uma vez, o contrapeso voa na direção da nuca do fugitivo e volta com quase a mesma força na minha cara, mas eu NÃO ME IMPORTO PORRA EU NÃO TÔ NEM AÍ PRA PORRA DA CORRENTE, ele cai e sinto o gosto de sangue na minha boca, e é esse o momento mais esperado da noite, eu entro em transe, monto no cara com os joelhos no peito dele, babando e sangrando, o peso do soco aumenta 20% nessa posição, lembro de cada ofensa que já ouvi na vida, cada pequena coisa que me deixa furioso, cada injustiça encarada com passividade, passividade, enquanto transformo a cara do cidadão em arte moderna, uma sirene passa ainda distante umas três quadras, tenho uns 20 segundos, corro como se estivesse fugindo do próprio diabo, com os calcanhares levantados, pisando com toda a força no chão, como um guepardo urbano, meu cérebro acende como uma supernova, minha coluna é um céu riscado pelas nuvens em atrito penetrando a terra com uma rede de relâmpagos, meu coração não pulsa mais e sim vibra constante, mandando ondas de sangue na velocidade da luz para os músculos, que acordam das entranhas da terra como titãs, nesse espaço de tempo eu sou um deus.

Me escondo, tendo a impressão que meu coração bate tão alto que eles podem ouvir, tudo se contrai, cada osso, cada fibra, as próprias paredes se contraem como se fossem pano de cortina, as luzes passam e meu corpo derrete. Não estou num prédio abandonado, estou flutuando em algodão, num rio de seda, é como se meu corpo não existisse, como se eu nunca tivesse nascido. Deus, nenhuma droga vai conseguir imitar isso.

Adrenalina salva a tua vida, te deixa forte, rápido, atento e excitado. Como um bicho no cio.

Meu irmão esta perto da praça onde fica a maioria das putas da cidade.  Queria contar o que aconteceu, ele ficaria orgulhoso e depois íamos roubar uma cerveja cara e fechar o dia.

Quando passa uma loira sem rosto na minha frente com a menor minissaia do mundo, aquelas que não têm um rosto pelo momento que cruzam contigo na rua junto com o vento que manda o cabelo direto na cara, aí quando elas ajeitam, tu já foste para o outro lado da rua e nunca vai saber como era o rosto delas. Só o que tu ganha é o cheiro do cabelo que o vento te lança com toda a força, como uma impressão, uma intimidade forçada entrando pelos teus pulmões.

Mas hoje eu mereço mais, me sentia vitorioso, excitado, eufórico, o ultimo homem de pé depois da guerra, quero o rosto dela e muito mais.

Tenho que engolir minha raiva e minha vergonha, afinal ele é meu irmão. Depois de ficar sem ar de tanto rir da minha cara, ele pergunta o que eu quero fazer.

Punição foi o que eu disse; punição por ter me enganado, acabado com a glória do dia, me envergonhado na frente do meu irmão e por ser um imundo que se veste como mulher. Tão imundo quanto possível, me contaminou para sempre, não vou conseguir parar de pensar que mesmo por um curto espaço de tempo, aquele embuste, aquela coisa me fez desejá-lo.

E agora seu castigo era iminente. Nada de brincadeiras, agora era assunto de homem.

Desta vez não me sinto bem, este foi um daqueles eventos malditos que não acabam de uma vez, apenas ficam fermentando na tua cabeça, que fica ruminando a porra toda para degustar de vez em quando. Merda. Tive pesadelos a noite inteira, toda a gloriosa mitologia da pátria mãe contada pelo meu pai foi distorcida pelo meu próprio cérebro, milhares de alkonost com a cabeça daquele loiro rasgavam meu corpo me deixando em pedaços.

O resto do dia seguinte passa em câmera lenta e tudo que eu consigo fazer é não vomitar até a hora do treino. Algumas pessoas conversam para esquecer os problemas, outras caminham, fazem terapia. Eu visto meu gi preto impecável e treino com dedicação compulsiva técnicas de assassinato vindas da Ásia.

O mundo dentro da academia é outro, lá dentro, em cima do tatame, nada externo importa, tudo que interessa é a técnica.

Dito isso, não pude deixar de reparar na nova aluna que estava na academia, por mais subconscientemente homoerótico que seja eu tenho alguma coisa com mulheres de cabelo curto, ainda mais se forem lutadoras, talvez seja o aspecto agressivo, dominador, não sei o motivo, mas acho extremamente sexy. O mestre não estava na aula e para minha surpresa a tal aluna nova amarra uma faixa-preta na cintura e nos convida para começar a aula, além de comentar sobre a banda na minha camiseta, uma banda de metal eslavo, que normalmente NINGUÉM conhece além de mim.

Com certeza ela chamou minha atenção.

Não consegui me concentrar nem um pouco no aspecto marcial das chaves e torções até o fim da aula. Aquela abertura do kimono na altura do decote não saía da minha cabeça, por mais que ela fosse magra e tivesse seios pequenos (pelo menos na minha imaginação), de fato não tinha como saber, afinal como toda mulher ela usava um top por baixo. Eu precisava mesmo me distrair e aquele cheiro de fêmea suada estava realmente me deixando excitado, não conseguia pensar em outra coisa que não fosse ela me dominando por completo, me castigando e apertando meu corpo contra o dela em posições sufocantes.

No fim da aula alguns ficam refazendo golpes e se alongando enquanto vou me trocar e deparo com ela se despindo, as costas definidas e musculosas como uma pantera, os quadris estreitos, quase imperceptíveis dentro da samba-canção( ela era absolutamente tomboy e era isso que mais me atraía), ela me vê, mas nem se mexe, continua se trocando na maior naturalidade do mundo. Como se eu fosse um inseto no banheiro. Podia me casar com ela.

Ela não disse o nome e nem nada que não fosse necessário à aula, quase nem ouvi sua voz. De repente ela vira para mim e diz:

— Você luta muito bem.

— Err… brigado.

— E essas tatuagens? Significam o que?

Ela se referia às estrelas náuticas no meu peito e nos joelhos, eu explico que aqui elas não significam nada, mas na pátria-mãe de onde meu pai veio, elas mostram que você é um saqueador que não se ajoelha perante nada, toma aquilo que é seu pelo direito da força e astúcia. Fico esperando algum comentário idiota, como é de costume.

— Então você é um vor?

— Tecnicamente não, mas por sangue sim.

Um de verdade nunca diria que não é. Mas nunca fui preso, muito menos roubei algo que não fosse meu. Meu pai sim.

Ela conhecia a Vory v zakone. E muito mais coisas, filmes, livros, ficamos conversando durante horas que pareceram segundos, ou minutos que eu queria que parecessem horas, um assunto imediatamente puxando outro. Só parei a conversa porque meu irmão me chamou.   Saí correndo para falar com ele e a primeira coisa que ele diz era o quanto o substituto era estranho por ter traços delicados e femininos mesmo sendo exímio lutador e filho do mestre.

Filho? O mestre já havia falado sobre um filho e uma filha e que só um era lutador. Meu cérebro demorou certo tempo processando a informação, não podia ser verdade eu tinha que ter ouvido errado, ainda mais depois de ontem, não era possível que ela fosse um homem, ninguém confundiria uma mulher linda como aquela com um homem por mais afeminado que ele fosse PELO AMOR DE DEUS, eu desejei o toque dela ou dele, senti prazer vendo o corpo dele nu, foi por isso que ele agiu naturalmente, era um HOMEM NU PERTO DE OUTRO, PUTA QUE O PARIU, maldito seja, eu ainda tô dormindo, isso não aconteceu, ainda é o pesadelo, meu irmão não pode perceber o que aconteceu de jeito nenhum, próxima aula me concentro na cara do mestre e esqueço o resto.

Tento disfarçar a enchente de pensamentos concordando com ele e mudando de assunto.

Como ele pode ter tanta certeza que era um homem? Eu não desconfiei nem por um minuto, imediatamente pensei que fosse uma mulher e linda ainda por cima. Qual o problema comigo?

—Ele disse o nome?

—Acho que era Alex.

Alex, nome de homem. Ótimo. Perfeito, eu quis transar com um cara. DEUS, QUE NOJO, vou ficar enjoado pro resto da vida. Tudo bem, apenas um erro, ninguém precisa ficar sabendo, não vai acontecer de novo, agora que sei que é um homem.

Meu irmão percebe minha inquietação e diz que sabe o que vai me deixar melhor. Ele propõe uma caçada nova. Estudar um novo alvo, emboscar e atacar. Depois cerveja roubada e mulheres. Talvez fosse uma boa ideia.

Passamos a semana observando um casal que com certeza é novo na cidade, devem ter vindo de uma cidade maior, se abraçam e beijam o tempo todo e andam de mãos dadas por toda parte.

Um deles até que é atlético, mas não vai dar trabalho nenhum (eu preferiria que desse), o outro é meio gordinho, presa fácil.

Engraçado pensar o quanto eles se dão bem. Não se separam nem um minuto e sempre sorrindo. Meu irmão não para de repetir:

—Bichas.

Depois de observar, vamos a um bar onde as adolescentes bêbadas pseudo-punks, ou sei lá o que é aquilo, sempre ficam dando mole para qualquer um com cara de mal e coturno. Meu irmão escolhe uma loira qualquer que vem com uma morena de brinde, ela me segue até o prédio vizinho que é um casarão abandonado. Essa cena acontece toda semana desde que meu pai morreu, perdi a conta de quantas gurias de jaqueta de couro e cabelo mal pintado já comi ali, mas dessa vez, nessa maldita vez eu não consegui. Pela primeira vez na vida não consegui. As costas da menina eram patéticas comparadas com as de Alex. Pensei nele e me peguei pensando nele.  Não consegui. A guria de tão bêbada nem percebeu, ainda bem.

O treino ficou pior depois disso, o mestre não voltou e segundo Alex vai demorar. O pior de tudo, ele continua parecendo uma mulher, a cara do cara continua igual, o corpo continua igual e agora que eu sei que ele tem um pênis, parece que eu não me importo.  Se não me controlo, fico excitado perto dele. Cada golpe que ele me dá, cada soco, cada chute, parece que estamos em sintonia, ele mesmo já disse que prefere lutar comigo, maldito seja. Se for treinamento de solo fica pior ainda, não sei se ele consegue perceber minha pulsação acelerada, começo a suar frio e apertar os dentes enquanto ele fala as instruções no meu ouvido ou encaixa os pés na minha virilha, ou pelo jeito que ri quando faço o golpe certo antes que ele demonstre. Todos param para assistir quando estamos lutando. Ele sabe como eu me movo e eu já aprendi como ele se move, deixando a luta muito mais difícil e prazerosa. Merda. O risco de perder, de ser subjulgado por ele, se fosse uma mulher seria minha perfeita fantasia.

Depois da aula, resolvo tomar um banho gelado para acalmar. Acho que todo mundo já tinha ido embora, mas Alex ainda estava lá, mas uma vez se vestindo, quase terminando de vestir a calça. Pude ver aquela bunda que não pode ser de homem, completamente contrastante com o corpo magro e as costas musculosas. Vou correndo para o banho, tentando me distrair. Ligo o chuveiro no máximo e mesmo assim a ereção não vai embora. Não o ouvi bater a porta, isso é estranho sendo que o último que fica sempre fecha a academia, por isso o mestre não precisa ficar esperando todo mundo sair. Será que ele estava me esperando?

A porta do chuveiro abre repentinamente, viro e me deparo com ele me encarando, meu coração começa a bater dez mil vezes mais rápido que o normal, fazendo com que eu sinta cada bombeamento de sangue em cada extremidade do corpo, cada órgão, principalmente o que já estava duro e que agora parecia um pedaço de chumbo quente. Alex o agarra com toda a força e surpreendentemente minha reação é do meu verdadeiro eu. O empurro com as mãos em seguida chutando na altura do peito e perguntando:

— Que merda é essa? Tá louco? Tá pensando que eu sou o quê?

Como resposta uma cuspida na cara que eu tento revidar com um soco na cara dele, mas o maldito segura meu braço e gira o corpo encaixando o quadril no meu e me projetando para o outro lado do banheiro, no chão com toda a força. Fico alguns segundos sem respirar, giro o tronco e o chuto no músculo interior da coxa, ele cai. Me aproximo para imobilizá-lo e quando prendo um de seus braços, ele me beija.

Depois de algum tempo, nos levantamos perto da pia, ainda nos beijando, ele se afasta e eu o soco no maxilar, ele então se aproxima e segura minha cabeça acertando uma joelhada na costela.

Ele me segura em uma espécie de clinch com uma mão e a outra de tão terna no meu corpo quase faz o sangue correr ao contrário. Resolvo me entregar e o beijo. Dessa vez com carinho, mais longo, mais calmo. Ele quebra o espelho com a minha testa.

Acordo sozinho. Não sei quanto tempo depois. Me visto e vou para casa. Não posso nem pensar no que aconteceu, meu irmão diz que está na hora.

Nem pergunto que hora é essa, não posso parar para pensar nem por um minuto, tudo que sabia de mim mesmo estava sustentado por um fio de cabelo naquele momento.

A gente come qualquer coisa na frente de um lugar esquisito que meu irmão fita como se fizesse radiografia com os olhos. Depois de várias horas, sai um monte de gente de uma vez e fico sabendo o motivo de estarmos ali. O casal sai com um ar feliz da festa e nós acompanhamos de longe, uma quadra atrás, do outro lado da rua, aparentemente eles são os últimos do grupo no caminho, cada pessoa que fica, meu coração aperta mais e mais, fico olhando para os lados desejando uma viatura, quer dizer, eles não fizeram mal algum, não quero fazer isso hoje. O canto do meu olho denuncia o começo da manobra do meu irmão, ele anda na frente da presa e finge deixar cair alguma coisa, bloqueando o caminho, eu fico atrás na direção oposta.

Eles revidam, esperneiam, choram um pelo outro, tentam defender-se e eu me arrependo de ter desejado isso alguma vez, me arrependo de tudo que fiz na vida até esse momento. Cada golpe, cada gota de sangue, cada grito, vai ficar marcado em mim para o resto da vida. À medida que me movia, sentia como se uma matéria preta estivesse envolvendo meu corpo, me cobrindo de dor, melancolia, vergonha e culpa. Naquela noite eu morri. Me vi pela primeira vez caído e ensanguentado, não de pé. Me vi ao lado de alguém que amo, impotente e desesperado.  Vi que toda aquela raiva não justificava nada, não sentia raiva deles, sentia raiva da vida, da mãe ter morrido, do pai ter morrido, raiva de ter que ficar triste. A única coisa que tive da mãe foi o sobrenome e do pai tudo que eu lembro é a voz que cantava antigas canções da pátria. Ele cantava para o meu irmão depois da morte da mãe e meu irmão cantava para mim quando o pai morreu. A música dos cossacos que dizia ‘’ não é noite, não é noite, eu dormi tão pouco e sonhei que andava no meu cavalo negro, o vento maligno veio e tirou meu chapéu’’. O pai falava que a música conta a história de um soldado que sonha com o vento tirando o seu chapéu e depois é capturado e decapitado. Talvez a intenção do pai fosse de mostrar a cultura de onde viemos, mas a do meu irmão era de mostrar que não se deve temer a morte. Tudo que eu sentia eram tristeza e agonia. Queria gritar, pedir perdão, chorar junto, abraçá-los enquanto se abraçavam e esquecer tudo.

Espero ter escondido bem tudo aquilo. Tive que aguentar até meu irmão ficar bêbado e ir dormir. Depois de 18 anos nas profundezas, todos os sentimentos vem à tona, transbordando, saindo pelos meus poros, toda a violência que criei, todas as pessoas que feri parecem querer sair do meu peito como um parasita alienígena, como um apocalipse nas minhas entranhas.

Luto a noite inteira comigo mesmo ate aceitar tudo. O quanto fosse humanamente possível negar a vida e começar do zero, eu tentaria. No meio da epifania o telefone toca. Alex quer me ver, na academia. Quase choro de tão terna sua voz soou.

Acho que nunca corri tão rápido, essa adrenalina é mil vezes mais poderosa que a do medo, não parece que corri de fato e sim oscilei até lá, como um quasar, ou pulsar, como uma explosão de raios gama. Corro sorrindo, enquanto o mundo explode no meu ventre, explode e renasce com a força de mil sóis, a euforia me domina e tenho que me controlar para não enlouquecer e gritar o nome dele.

Ele abre a porta e me beija como nunca fui beijado na vida, segura minha cabeça com carinho e com ânsia ao mesmo tempo, me olha nos olhos enquanto respiramos pesadamente tomando fôlego entre um beijo e outro, como mergulhadores em apneia, indo cada vez mais fundo.

Ele tira a minha e roupa e me venda, me abraça pelas costas e sinto seu corpo totalmente nu pela primeira vez. Sinto uma coisa penetrando meu corpo, mas não sinto dor alguma no começo, apenas o choque. Um líquido quente começa a jorrar da ferida, tiro a venda e vejo uma mulher na minha frente com um punhal na mão e uma foto na outra.

—Alexandra. Meu nome.

—O quê? Como? Por quê?

—Meu irmão tinha medo de assumir para o nosso pai, já se sentia mal por não gostar de lutar, e por ser o filho homem que queria ser a filha. Naquele dia ele se assumiu e o pai não se importou. Meu irmão nunca esteve tão feliz. Foi naquele dia que eu te vi, não pude fazer nada, fiquei com medo de vocês. Ele nunca mais vai andar, nem falar direito. MERDA, ELE NÃO CONSEGUE NEM COMER SOZINHO! O pai fica lá cuidando dele o tempo inteiro, porque tu acha que eu tô cuidando da academia? Imagina o que eu senti quando te vi entrar pela porta.

Ela joga a foto para mim, a foto dela, do pai e do loiro que eu tinha achado linda. Era o irmão dela, ela tinha me acertado debaixo das costelas, no fígado, talvez eu tivesse dez minutos.

—Me perdoa, sei que não posso pedir isso, mas me perdoa.

—CALA A BOCA!

—Só preciso saber se foi tudo falso, só quero saber isso, caralho, to sangrando muito, me diz, por favor!

Ela não responde. Só me beija e apunhala de novo. Como era a música mesmo?

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1 comentário

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Uma resposta para “Alex- Oy to ne vecher

  1. wilne

    Mais uma vez , surpreendendo com uma linguagem clara , certeira e que envolve o leitor num clima tensão psicológica entre as personagens , terminando com um final inesperado .

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