Lave as mãos

Ela tem as costelas pontudas, como se fossem asas porque na verdade é assim que os anjos são, com o corpo pequeno e costelas pontudas, as asas ligadas ao ventre como uma mariposa, não podemos vê-las, pois batem em outra frequência, enquanto minha mão toca seu corpo, as asas vibram em velocidade assustadora, como uma cigarra. As penas cobrem a cama e o chão do quarto, fazendo cócegas nela. Vemos alguns filmes, falamos sobre todas as coisas, o cachorro arranha a porta do quarto, ela diz que sente pena dele quando faz aquele barulho de cachorro que quer alguma coisa, eu o deixo entrar e ela reclama, eu brinco com ele um pouco do lado de fora e volto para o quarto.

Usar uma camisa minha, que fica gigante e completamente destoante do seu semblante delicado e meigo; é uma das manias dela que eu mais gosto. Uma camisa toda preta com uma caveira enorme. Me aproximo dela beijando seu corpo e ela pergunta se eu lavei as mãos.

Tento não rir alto como um bobo, quando no banheiro pendurado no espelho leio os inúmeros bilhetinhos amarelos que ela publica pela casa inteira, cada um com um aviso diferente, acompanhados frequentemente de uma pequena poesia. Lavo as mãos e volto correndo para o quarto.

Ela dorme no meio do filme, depois acorda de novo e diz que sente muita sede. Minha mente viaja de steadicam até a cozinha e se depara com o galão vazio e um bilhetinho amarelo me dizendo para comprar água.

A câmera viaja de volta sem cortar e foca na cara dela, que fala que não tem problema e que poderia tomar de manhã, mas faço questão de ir comprar. Apesar de não saber onde. Ela me diz onde comprar ao mesmo tempo insistindo para eu não ir. Prometo voltar em poucos minutos. Me visto rápido e saio do quarto. O cachorro levanta e pergunta se quero companhia. Pego alguns biscoitos de ração e enfio no bolso. Ele sempre me acompanha sem coleira e me obedece, mesmo sendo dela e não meu. Talvez seja mesmo um filme, e pior, um musical.

Me tranquilizo em pensar que o diretor sou eu, por isso posso escalar a mim mesmo como protagonista e ela como par romântico, sem dublês. Saio do prédio acompanhado do cachorro e até agora sem começar a sapatear de felicidade. Sinto as borboletas fazendo cócegas no estômago e aquela sensação de ter comido o prato preferido muitas vezes.

O ar frio não importa, nem as ruas vazias, nem o barulho dos adolescentes nos carros dos pais. Tudo é menor que comprar a água e voltar para casa. Nunca me senti tão forte, tão poderoso, tão justo, tão motivado. Estava viciado, drogado, em êxtase religioso, em transe. Era o filme antes da reviravolta, antes do herói precisar cair, passando de novo e de novo, fala por fala no projetor da minha cabeça.  No caminho inteiro, sei que não estou sozinho, quando ela for embora ainda saberei que não estou sozinho e à noite quando não puder dormir e o desespero sentar nos meus ombros, continuarei sabendo que não estou sozinho e que posso ligar para ela e pedir conforto, apenas pela voz, mesmo sabendo que nunca ligaria para não acordá-la. Apenas a possibilidade já serve de conforto. Eu nunca uso o travesseiro para dormir, por isso sempre dou o meu para ela que usa os dois.

Enquanto seu mundo prospera e cresce, um asteroide se aproxima a milhões de quilômetros por hora, disputando uma corrida com o negativo, destruindo a não matéria, preenchendo o vácuo e o seu mundo está na linha de fogo. A vendedora me dá o troco da água e pergunta sobre o meu rosto, como se tivesse acontecido algo com ele. Eu respondo que nasci desse jeito mesmo. Não sabia se ela estava brincando. Essa cena tem que ser editada depois.

Volto para casa pensando no que dizer, pensando nas falas do meu personagem, pensando no jeito como ela segura o copo com as duas mãos para beber água, pensando no começo do filme, naquele carro que quase matou o cachorro, mas acabou batendo em um poste, que a gente se esquecia das falas e precisava ensaiar várias vezes, que ela brigava comigo por eu não usar dublê nas cenas perigosas e sempre ficar com o nariz cheio de sangue e com dor em todo o corpo e quando tudo doía ao mesmo tempo ela me dava um beijo no nariz para não doer e eu não sabia se fingia estar tudo bem ou mais dor ainda para ganhar mais um. Só que alguém mudou o canal e eu não vi. Ela não está lá e o cachorro sumiu. O quarto está vazio e frio.  Sinto que ligar não ia ajudar, sinto que não tenho mais para quem ligar, que não tem ninguém do outro lado. Ela estava me esperando do lado de fora, descalça. O cachorro correu para perto dela.

Não podia ser verdade, ela não podia ter ido embora, não estava no roteiro e o diretor sou eu. Desespero é uma velha gorda com dentes tortos e cheiro de cal molhada em cantos de prédios aonde o sol não chega. Ela senta nos meus ombros e arregala meus olhos com as unhas, deixando a mãe entrar. Dor, que se esconde o mais rápido que pode entre meu cerne. Sou agora um simbionte para ela, um recipiente. Como uma sanguessuga, ela não sai fácil, você precisa chamá-la para fora. Marco meu rosto para que todos saibam que sou portador, marco para que saibam que você existiu, fazendo com que eu também saiba. Marco para sentir algo, para saber que estou vivo. Será que aconteceu de verdade?

O asteroide se move cada vez mais rápido, cada quilômetro conquistado traz a certeza da conclusão, a hecatombe que ele não pode evitar, ele não pode fazer nada a não ser ficar triste.

Ele acelera, aumenta o volume da música, fecha os olhos e solta o volante. Não importa mais o que acontecerá com ele, desde que não machuque ninguém. Ele não pode controlar a trajetória nem quem atravessará o caminho. É uma regra que todo suicida deve seguir, não arraste ninguém para sua tragédia, mesmo um cachorro sem coleira. O diretor do filme quase tem um orgasmo, pois agora o clímax mostra o protagonista não somente caído, mas martirizado, quase heroico. A rota de colisão muda do cão para o poste e o asteroide queima em slow motion para aumentar a carga dramática.

Tem que acostumar com a falta, ela não está mais no filme, mesmo sendo o seu personagem preferido, então eu castigo o diretor, rasgo o rosto dele, quebro seus dentes, soco a sua cara repetidas vezes, bato sua cabeça na parede e no joelho. Depois o entupo de analgésicos para começar tudo de novo.

Quando nada funciona eu pego o carro e acelero sem usar os faróis, como se pudesse rasgar a escuridão do cenário e sair do set, sou o protagonista, posso fazer isso até de olhos fechados.

Tinha uma menina na frente de casa, eu não vi, com uma camisa da minha banda preferida e um cachorro sem coleira.

Não deu certo, a dor não foi embora, o vidro quebrado e o metal retorcido não importam, mas ainda dói. E quando terminar de me arrastar para o quarto e abrir a porta só vai ter mofo no canto da parede e roupas no chão.

Fico sem graça pelo mofo no canto da parede e pelas roupas no chão, mas ela finge não se importar e eu prometo limpar da próxima vez. As roupas dela ficam no chão e vejo seu corpo pela primeira vez. Ela tem as costelas pontudas, como se fossem asas porque na verdade é assim que os anjos são, com o corpo pequeno e costelas pontudas, as asas ligadas ao ventre como uma mariposa, não podemos vê-las, pois batem em outra frequência, enquanto minha mão toca seu corpo, as asas vibram em velocidade assustadora, como uma cigarra. As penas cobrem a cama e o chão do quarto, fazendo cócegas nela.

Abro a porta com dificuldade, o gosto de ferro na boca fica mais forte a cada passo, a dor de fora ainda é menor que a de dentro, mas sei que não vai demorar. No galão vazio um novo bilhete me chamando de bobo e dizendo que eu não precisava ter ido. Ela dorme com dois travesseiros, um na cabeça e um entre as pernas. O espelho do banheiro tem um desenho dela onde eu olho para um desenho de mim mesmo olhando para um desenho de mim mesmo pendurado no espelho. Lavo a boca com água, mas o gosto não vai embora. Todo o corpo doía como se eu fosse um machucado gigante, ela beija a ponta do meu nariz e as penas se espalham pelo quarto. Me aproximo dela beijando seu corpo e ela pergunta se eu lavei as mãos.

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3 Comentários

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3 Respostas para “Lave as mãos

  1. Oi Noan, gostei mto da narrativa, seu texto contém dramaticidade e romantismo (no bom sentido), acho interessante o escrever na primeira pessoa também. Ah! desconfie mesmo da quantidade exagerada de elogios, viu? O meu não conta, Cida

  2. Maravilhoso! O mais lindo de todos eles. Li ouvindo creep do Radiohead. Não foi fácil terminar. Tens o dom de transformar sentimentos em palavras e elas são exatamente como você: intensas!
    Te amo sem fim, mano! A dor te tornou ainda mais vivo.

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