Beat’em up!!!

Insira ficha.

Esse arquivo não pode ser deletado de jeito nenhum. É a ultima coisa que ele lembra de dizer à coruja antes de dormir. Precisava dormir um pouco, foi um dia cansativo hoje. A coruja estava ficando sem bateria também, quase desligando. Ele adormece, e de novo uma sensação estranha de estática cerebral. Como se seu cérebro fosse uma sala vazia com a TV ligada, as informações passam sem intervalo, a bilhões de Teras por segundo, mas ninguém está assistindo.

Ele acorda, ouvindo uma música polifônica cheia de sintetizadores, mas não move um músculo, além dos olhos, não tem certeza de estar acordado. Parecem que se passaram dez mil anos. Sua cabeça dói e ele deve estar com hematomas gigantescos. Em alguns instantes o monitoramento da coruja vai saber que ele está acordado e vai dizer as atualizações.

Procura a namorada na Corrente, mas ela não atende. Ele odeia essas malditas propagandas, a mais tocada agora mostra um monte de velhos bombados e velhas com corpo de atletas olímpicas do século XX, tomando um mingau cinza nojento e sorrindo compulsivamente. Ela não atende e essa propaganda bizarra toca em todas as telas. Não são velhos com corpos saudáveis na proporção dos velhos, tipo os velhos mestres de karate, são seres humanos que parecem ser nascidos de programas de edição de imagens, com um corpo de 20 anos e o rosto de 80.  A coruja percebe as alterações hormonais e recomenda um calmante, que ele aceita sem nem pensar, deita na cama e assim que os cabos atingem seu sistema nervoso ele dorme um sono sem confusão e sem culpa, um sono químico.

Jogador II aperte START para começar. Insira ficha.

Ela chega da mesma maneira sempre, escala a escada de incêndio do prédio e fica aninhada no parapeito da janela, como uma borboleta. Ela tem as roupas combinando com a cor dos cabelos e um par de espadas-borboleta de Wing Chun preso no cinto, junto com um chaveirinho em forma de ursinho panda. Eu prefiro um par de Nunchakus como arma. Do parapeito para a cama num pulo ela o acorda pingando água gelada da chuva que cai dos cabelos. Não para de chover nunca. Algumas cidades têm comidas típicas, prédios famosos, expressões singulares. Aquela cidade tem a chuva e as gangues.

Se não fosse ele, Butterfly e o prefeito, pai dela, para botar os marginais na linha, a cidade já teria ido para o saco.

Uma grande gangue ameaça a cidade com terrorismo e o prefeito coloca as antigas roupas dos tempos de lutador profissional, chama a filha e o genro para resolver tudo com os punhos.

Ele provavelmente será reeleito.

Uma rotina confortável, batendo em bandidos com roupas coloridas, comendo comida junk e aproveitando um ao outro. Ele gostava dessa vida.  Mas se sentia controlado. Seguia os avisos que no ar diziam GO, GO, GO. Sempre avançando, nocauteando ao lado de Butterfly e do prefeito. Expressando o corpo com combos e especiais. Tirando dinheiro de vasos e caixas quebradas.

O progresso era salvo, as vidas eram abundantes. Mesmo sem códigos e cheats. Eles se amavam e subiam de nível todo dia. E ele se sentia controlado, a violência já fazia parte do seu corpo, socava e chutava em todos os cantos da tela, antes mesmo de perceber. Ele sentia prazer em lutar ao lado dela, que em contraste com seu estilo de luta, era graciosa e suave.

Mas a vida não podia ser só isso, ele também desejava ficar em paz, junto com Butterfly em alguma Zona de Colina Verde ou uma praia que não tivesse paredes invisíveis. Entrar em um museu sem usar as obras removíveis para jogar em chefes gordos. Não terminava nunca, a cada inimigo abatido, vinham mais cinco, com roupas iguais de cores diferentes.

A vida deveria ser mais do que tudo isso. Ele queria descansar, não ter que viver o mesmo ciclo repetidas vezes por toda a eternidade.

Uma certa fase, ele parou, largou os comandos e sumiu. Butterfly tentou segui-lo, impedi-lo, mas ele vivia agora em outra frequência e não havia nada que ela pudesse fazer. Ele precisava sumir antes de tudo começar outra vez, desde o inicio. Butterfly o encontrou na Ponte da Memória olhando para o Rio dos Slots Descartados. Ela perguntou o que ele estava fazendo e a resposta foi:

– Indo embora.

– Por quê?

– Tem que haver mais que isso, lá é a única saída que eu conheço.

– Mas… eu te amo!

– Eu sei. Mas não aguento mais nenhum Reset, essa violência, esse pensamento inerente no meu cérebro, bata neles, bata neles, bata neles. Eu controlo meu destino, a Lifebar é minha. Adeus.

 

Ele pula. Fim de jogo.

 

Continue? 9…8….

 

Insira ficha.

 

– Zerou?

– Sim, que final foda, teve até metalinguagem com os personagens, tu acredita?

– Dá pra jogar de dois?

– Eu fico com o melhor controle!

 

 

 

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1 comentário

Arquivado em Uncategorized

Uma resposta para “Beat’em up!!!

  1. é muito legal ver como tu consegue narrar com encadeamento, como se uma coisa fosse gaveta da outra, desde Alex- Oy to ne vecher isso tem se acentuado, a narrativa flui mesmo com as pequenas paradas pra micro explicações, nesse que utiliza uma linguagem de videojuego fica mais cifrado com a chave mais fácil pra quem entende ou conhece o jogo.
    cada dia passa tu estás melhor

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