Chroma key

Verde.

Por toda a estrada podiam ser vistas placas dizendo ‘’confiamos no verde’’, dizia meu pai.

Eu devia começar assim.

Durante toda a minha vida fui ensinado a cuidar da plantação. Não só cuidar, mas proteger. Proteger com a própria vida, como dizia meu pai. Aqueles metros quadrados de erva, legumes, terra remexida, bichos e pedras eram minha escola, minha casa. De tanto tempo que passamos ali, meu pai ficou com cara de rabanete. E barba de trigo. Fora alguns metros de terra que todo dia ele levava para casa dentro das unhas. O dono nos havia dado esse presente e não escondia a preferência por nossos frutos de trabalho. Vinha pessoalmente dar o ar da graça na coleta de sua gorda parte. Elogiava meu pai e seu legado. Eu via esse legado em nossas mãos, amareladas de sumo, de terra e cheias de calos. Podia ver o dia que minha barba se transformaria em vagens de cereal e meus dedos seriam ramas de batata, como meu pai. Eu saberia diferenciar a abóbora boa da ruim somente pelo toque e o som da polpa ecoando lá dentro. Meu pai ficaria orgulhoso. Um dia eu acordei cedo e meu pai não. Não hesitei nem por um momento. Saí de casa em direção à colheita.

Queimei tudo.

Aquilo me sufocava, toda aquela devoção e comprometimento para alguns metros de terra cercada não faziam sentido para mim. Aquela rotina incessante, ensaiada repetidas vezes. Não tirava o sustento da terra, ela que tirava sustento de mim. Não sei o que me fez lembrar disso agora, eu deveria estar dormindo, descansando o corpo, mas o sono nunca vem quando preciso. Não acho os óculos, nem o interruptor, nem ela e nem o ar. Esqueço como respirar, meu coração dispara, minhas mãos tremem e as pernas enfraquecem, as pontas dos dedos dormem e a visão fica opaca, afunilada, acho que cortaram a energia dentro de mim. Todos os pensamentos assustadores me atingem de uma vez só e finalmente caio no chão, suando frio, sem gongo, sem árbitro para abrir a contagem, sem cordas no canto do ringue. O anzol fere a minha boca e eu luto para respirar, mas esse outro lado é estranho, seco demais e por mais que eu puxe o ar não entra nas guelras, não posso nadar nem gritar, só posso espalhar poças de água no chão. Não consigo parar, não consigo evitar.  A luz acende e ela me vê agonizando no chão, indefeso, lutando de dentro para fora. Ela levanta a camisa e encosta a barriga quente e os seios nas minhas costas geladas de suor. Passa a mão no meu cabelo e sussurra me dizendo que vai ficar tudo bem, que ela está ali e não há perigo algum. Ela me ensina a respirar de novo, e meu coração segue no ritmo dela, mesmo que eu não saiba dançar. Pergunto se ela conseguiu pintar alguma coisa, mas ela responde que estava indisposta com o laranja e não estava conseguindo levar o verde a sério. Ela me avisa que Vincent tinha terminado um quadro novo e queria nos mostrar, Sterrennacht ou algo parecido.

Laranja.

Devia começar assim, mas não vou. Podia ter falado para ela que os calos em minhas mãos vieram de uma horta dez vezes maior que a dela. Ela separa os vegetais e os pigmentos para começar um quadro novo e começa a reclamar do laranja mais uma vez, eu digo que comi abobora no almoço e tinha sido um dos melhores almoços em muito tempo e que o laranja abre meu apetite. Ela diz que sabe fazer torta de abóbora e que fica deliciosa. Mal posso esperar.

De todas as pessoas que estiveram em minha vida, ela é a única que parece gostar dos calos, sempre que alguém chegava ao ponto de andar de mãos dadas comigo ou tocar nos calos de alguma forma, em seguida vinha com a recomendação de cremes e lixas e coisas do tipo. Meus amigos ignoravam por serem todos lutadores e terem os seus próprios. Mas ela gostava deles, dizia que a minha mão podia ser reconhecida só pelo tato, como um móvel artesanal.

Ainda não é isso.

Você precisa ir mais fundo, sinta o diafragma rasgando no meio e controle, lembre-se dos quadrinhos do Aquaman na época boa, quando ele tinha cabelo comprido e um gancho na mão e tinha descoberto um filho esquimó que odiava ele. Eles dormiam nas correntes quentes que vinham do sul e treinavam nas correntes do ártico. Aquaman costumava empalar com o gancho os caçadores de baleias. E ainda dizem que ele não é legal.

Quando o ar fica muito seco ou a noite muito quente, não importa onde eu esteja, posso sentir a terra arder, como fábrica de vidro, os talos e caules estalando antes do fogo chegar neles, e aquele rosnado meio baixo que o fogo faz à medida que aumenta. Por um curto período de tempo aquele fogo foi maravilhoso, libertador. Então muda, rápido junto com a direção do vento, não estou do lado de fora com o isqueiro na mão, estou embaixo da única árvore grande do sitio no vão feito pelas raízes no montinho de terra, e não posso mais respirar. O fogo consome tudo que encontra: plantas, folhas, verduras, terra, pele, carne, raízes e um amor que podia virar casa e algumas histórias em quadrinhos.

Preto.

Está escuro aqui, mas me sinto seguro, mais que seguro, confortável, acolhido, abraçado. Tenho que seguir a corda e afundar. E vencer dela.

Vencer o outro é mais um estímulo e um tapinha nas costas que diz tenta de novo, do que qualquer outra coisa. Apneia é vencer o mar, o oxigênio e o medo. Você precisa se entregar por completo, deixar a falta de ar te preencher e afundar. Nada além de afundar cada vez mais fundo, esquecer tudo que ficou na superfície, chegar aos peixes abissais e voltar com poderes de Ultraman. O diafragma para de vibrar tocando música de filme de suspense e relaxa, se expandindo duas vezes mais que o normal. O ar entra de novo depois de muito tempo pelas ruas conhecidas e mal reconhece o lugar, mas se sente em casa. Ela tira a máscara de contorno plástico verde e mostra o sorriso mais lindo do oceano, dizendo que ganhou de novo e me chamando de mané, subo no barco e pergunto qual era o prêmio para quem vencesse e ela espera alguns segundos para o nascer do sol e não precisar responder. Nosso primeiro beijo é interrompido pelos gritos do Claude, falando para eu começar a remar e sair da frente, para não estragar a impressão.

Tudo que eu sabia fazer era capinar, plantar, arar, regar, colher, semear e respirar. Pensava verde e sentia dor nas mãos e nas costas.  Odiava aquela cor, odiava aquele cheiro de terra molhada e de polpa de verdura espalhada por tudo que era lugar. Odiava aquele homem que só sabia dizer que eu estava fazendo corpo mole e só sabia reclamar, mesmo que eu só respondesse abaixando a cabeça sem fazer som.

Ela sentada com as pernas balançando me mostrou como o verde pode ser bonito. Um mascarado que desenhava e criava coisas feitas de luz sólida e imaginação, que não fediam a nabo ou beterraba. E ela criava coisas também, mundos inteiros com giz de cera. Aquele cheiro e aquelas cores pareciam muito mais reais e bonitas do que as da plantação.

Depois de passar 6 horas debaixo d’água em uma pressão que amassaria a caixa torácica de um peso pesado da WWE como se fosse um saco de papel, tudo fica mais leve. Tudo mesmo, incluindo o trânsito, a conta de luz, vizinhos evangélicos, japoneses matando baleias e a solidão. Mas esse efeito é igual ao de qualquer outra droga e se estabelece uma tolerância. No turno oposto, quando estamos saindo e diminuindo a pressão , no meio de um monte de estranhos de rosto cansado, tinha visto a mergulhadora mais linda desde 007 contra o satânico Dr. No. Com o cabelo escondido pela roupa, ela estava mais bonita que todas as mulheres maquiadas e penteadas que eu havia visto até o momento. Parei de respirar durante todo o tempo antes dela mergulhar, involuntariamente, como em fases subaquáticas de vídeo game.

Viro o rosto na sua direção e tento começar um assunto dizendo que ‘’estive pensando’’ e ela responde falando para eu tomar cuidado com aquilo, pois não estava acostumado. Estamos colados um no outro, nariz com nariz, minha visão faz com que os olhos dela se misturem e por algum motivo acho que fica parecida com um golfinho ou uma foca. Dou a sugestão de ela ir se foder e continuo a história.

Falo sobre cercas brancas e móveis rústicos e crianças correndo e cachorros babando e livros espalhados e arcos e facas e cozido de alce e lasanha de carne de coelho e chá gelado. Ela diz que quase tudo é lindo, pois é vegetariana. Ela remete com pás e enxadas e legumes e documentários. Não consigo disfarçar minha perturbação, posso sentir a terra puxando meus pés e as bolhas em minhas mãos. Fico irritado sem conseguir explicar o motivo.

Ela vive falando de Sea Shepherd, Green Archer,ELF, faucheur volontaire e vida limpa, vida verde. Eu só quero mergulhar e ter dinheiro para comer e comprar alguns livros. Ela fica ranzinza em resposta ao meu descaso. Vira para o lado e me ignora. O que me faz lembrar o começo, ela tinha um cheiro de café da manhã enquanto todo mundo fedia a sal e ferrugem. Sabia que ela era especial, mas por sua vez me evitava como se eu fosse um leproso e me chamava de boca-de-carne. Mesmo assim ela me fazia querer prender a respiração e afundar.

Ela se torna pouco a pouco mais distante, mais fechada e não sei o que fazer. A seleção dos mergulhadores fica mais intensa e ficamos mais tempo separados. Chegamos em turnos diferentes, exaustos, com forças apenas para adormecer um ao outro. Às vezes acordo a ouvindo chorar e repetir que é uma pessoa horrível. Beijo seus olhos molhados e peço que pare de dizer besteiras. Ela insiste dizendo que fez tudo errado e não consegue parar de chorar. Abraço-a com toda a força que me permite o resguardo de quebrá-la.

Tão quebrada quanto eu.

Ela insiste para eu não ir até a plataforma, não mergulhar hoje, chorando e soluçando sem parar. Fico com ela até ficar calma e finalmente dormir, sem parar de repetir para eu não ir, nem por um segundo, até as frases ficarem cortadas e desconexas. Prometi para ela, mas precisava mergulhar aquele dia mais do que nunca na vida.

O ar é distante, afaga teus cabelos e logo vai embora, mas a água não, a água te acolhe, te recebe e te deixa flutuar sem peso algum. Ela mostra diferentes camadas e profundidades, como uma relação amorosa, a água te prepara para mais pressão só quando você está acostumado o bastante.

Paramos e falamos por sinais de mergulho. Você quer ir mais fundo? Quer conhecer tudo que existe lá embaixo, todas as cavernas e monstros?

Não precisamos da superfície, só quero estar aqui e mais nada, quero afundar e ser embalado nas tuas correntes quentes.

Mas sou obrigado a voltar e na superfície vejo uma cor laranja que não tem gosto de abóbora.

Tudo queimava. As paredes, o teto, os cabelos e as roupas. Meus colegas, concorrentes, companheiros, irmãos. Folhetos falando que extração de petróleo é igual a estuprar a terra. Que éramos todos vilões. Eu e meus amigos que queriam ganhar a vida embaixo d’água.

Não podia acreditar que alguém fosse capaz de tamanha crueldade, não era possível uma cor tão dolorosa, uma visão horrenda. E no meio do caos das explosões e do fogo, a última visão do meu olho direito foi ela fugindo com folhetos na mão, alimentando o incêndio com gasolina.

Ela levou os pinceis e as tintas, eu fiquei só com um carvão.

E mais uma vez, um vegetal, que não se mexe, não ouve música, não mergulha e não vive. Apenas existe. Uma peça sobressalente com defeito.

A pressão aumenta e o ar é intangível, ele não me segura, não me protege, sinto que o céu vai rachar e vou cair para cima. O ar vai embora por completo, me debato no chão sabendo que ninguém me vai por na água de novo. Queria ouvir a voz de novo, aquele sotaque simpático, vê- la andando de bicicleta. O cabelo vermelho, os sapatos roxos, os olhos castanhos.   Ficou tudo escuro, talvez eu tenha esquecido de pagar a conta.

Não consigo respirar. Estou afundando devagar e no meio do breu lembro-me do meu pai, do jeito apaixonado dele para cuidar das plantas, da maneira carinhosa de explicar cada passo para cuidar da horta, de como ele falava sobre as plantas nos darem tudo que precisamos e mais um pouco. Lembro-me dele falando daquele lugar durante todo o caminho como se fosse um sonho, todas as pessoas de bem que iam viver juntas em harmonia com a terra e entre elas. Agora podia ver com clareza o que ele era pra mim, e como ele fazia falta. Talvez eu pudesse ensinar um dia pro meu filho, como cuidar de uma horta igual aquela, como diferenciar a abóbora boa da ruim somente pelo toque e o som da polpa ecoando lá dentro.

Por toda a estrada podiam ser vistas placas dizendo ‘’confiamos no verde’’.

O carro faz com que tudo fique borrado, uma impressão de paisagem, a cara do Claude e do Vincent. Do banco do motorista um cheiro de café da manhã que me faz pensar em mil coisas para dizer, para gritar, mil sentimentos e pensamentos ao mesmo tempo. Do banco de carona, presa numa cadeirinha, vejo um bracinho segurando um giz de cera e um pedaço de papel.

—Ela quer que tu conte uma história pra ela.

—Não sei como começar. O que ela tá desenhando?

—Ficou lindo filha, agora faz um pro papai. Ela quer saber, qual a tua cor preferida?

Qualquer uma.

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1 comentário

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Uma resposta para “Chroma key

  1. Como és criativo ! A maneira como escreves faz com que a narrativa nunca seja entediante . O enredo é sempre algo que nos surpreende
    nunca é o óbvio e ao mesmo tempo parece tão verdadeiro e próximo.
    Parabéns pelo talento que estás demonstrando ter. Não sou especialista mas o que importa é se o leitor gosta não é mesmo? Eu gostei !

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