Agulhas

Estico os braços até sentir as articulações estalarem e tento não pensar nas pessoas ao redor, não sinto as formigas na minha pele, mas os olhares alheios me incomodam; ela fala para mudarmos de posição. A prática estimula os caminhos de energia do corpo e me sinto muito mais relaxado, a sensação é parecida como quando se está acostumado com algum ruído que de repente para e só nesse momento percebe-se o quanto era incômodo. Não há pessoas passando ou carros buzinando, formigas na minha pele, calor ou frio e melhor de tudo, não há culpa. Depois da dor nos braços e dos vários minutos tentando não mover os olhos dentro das pálpebras consigo chegar a uma sensação boa. Uma pequena paz. Uma paz só minha no meio do caos do mundo. Naquele momento tudo bastava, não precisava de nada, não sentia falta de nada nem de ninguém, até abrir os olhos.

A paz não dura muito. Abro os olhos e a vejo sentada em um banco lendo um livro, vejo sua pulseira cheia de pontos vermelhos e lembro que cada pontinho vermelho é uma cabeça de agulha, lembro das agulhas no meu corpo e do quanto preciso da terapia e da terapeuta.

Costumava ver em cores, tenho certeza.

Na verdade não, não dá pra lembrar de uma cor, nem inventar uma nova. Mas hoje vejo tudo em preto e branco, o que era até legal durante um certo tempo. Tudo virava cena de filme noir. Parece que em preto e branco tudo fica mais sutil, mais calmo.

Talvez eu sonhe colorido, mas não dá pra ter certeza. Ando muito confuso ultimamente. Eles dizem que quem tem sonhos lúcidos costuma sempre se lembrar deles. Ou quem lembra dos sonhos costuma ter sonhos lúcidos. Você precisa ficar parado por um bom tempo, sem mexer nem um músculo, nem mesmo os olhos. Até o cérebro achar que seu corpo está dormindo. Ele testa o corpo mandando sensações incômodas, desconforto e coceiras por todo o corpo. Os membros ficam rígidos. Você começa a ver formas no escuro, depois cores e cenas desconexas até chegar a uma sensação boa.

Tem muitas formigas aqui, pequenos pontos vermelhos passando pelo meu corpo, me furando, uma dor quase imperceptível que me diz que estou acordado.

Meus olhos estão pesados, o corpo lento, os músculos relaxados. Não consigo dormir, nem ver cores. Não são formigas, estou deitado no colo dela. Ela acaricia meus cabelos e coloca as agulhas no meu corpo. Pequenos pontinhos vermelhos furando minha pele, mas a dor é passageira, a prática estimula os caminhos de energia do corpo e me sinto muito mais relaxado, a sensação é parecida como quando se está acostumado com algum ruído que de repente para e só nesse momento percebe-se o quanto era incômodo. Só ela consegue me fazer dormir desse jeito. Ela e as agulhas. Consigo dormir e ter uma paz. Uma paz só minha no meio do caos do mundo. Naquele momento tudo bastava, não precisava de nada, não sentia falta de nada nem de ninguém, até abrir os olhos.

As pessoas passam, os carros buzinam e tem formigas, formigas por toda a parte.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

2 Respostas para “Agulhas

  1. tem uma estrutura circular que nâo é comum nos teus textos

  2. e mais raro ainda ler um texto teu
    tao curto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s