Crossover- parte I

A vida começa em dor, uma brusca ruptura entre duas existências. De repente você está sozinho e desprotegido, a luz queima os seus olhos, você precisa fazer esforço para respirar e seus músculos acostumados a flutuar sentem uma estranha força pressionando por todos os lados. Do lado de fora é tudo seco e gelado, todas as superfícies são ásperas demais e incomodam a pele. Você grita e implora para lhe levarem de volta, mas aquela sensação de conforto foi embora para sempre.

Em 1989 uma garota treina escondida uma rotina marcial, repetidas vezes, até atingir a perfeição, até que os movimentos fiquem tão naturais quanto piscar.

Em 2012 dois amigos, homem e mulher, voltam da aula da faculdade discutindo sobre o significado de macho e fêmea na sociedade, os valores familiares judaico-cristãos e coisas do tipo. Os dois valorizam e respeitam a opinião um do outro. Eles sentem uma espécie de sintonia quando conversam, pois algumas frases não precisam ser completadas para serem compreendidas e o silêncio não é algo desconfortável, muito pelo contrário.

Em 1997 um pai avança para bater no filho depois de flagrá-lo dançando no quarto com o namorado. Já era um hábito até, a bebida tornava o trabalho tolerável, o casamento, a velhice, o time do coração sempre perder tolerável, mas o jeito do filho ficava mais insuportável a cada gole, aqueles movimentos que não eram para ser feitos por um homem e muito menos pelo filho dele, o deixavam com o sangue fervendo. Ele batia no filho com as mãos até cansar, para depois usar o cinto. Chamava ele de veadinho e ridículo, dizia que não podia ser pai daquilo. O filho se sentia bem, tinha aprendido passos novos que não conseguia fazer antes e não queria que nada estragasse aquele dia. O pai não conseguiu sequer tocá-lo, ele desviou de todas as investidas desajeitadas e por fim ajudou o pai a ir ao chão, bêbado, com o cinto nas mãos e a calça nos tornozelos, apenas perguntando para si mesmo quem era verdadeiramente ridículo.

Em um ano esquecido, o sexto ou sétimo século antes do deus crucificado, antes de Homero ser um só, Heracles buscava o cinturão de Hipólita, a rainha das amazonas, as melhores guerreiras que já existiram. A versão mais contada diz que Hipólita ficou impressionada com o respeito que Heracles, mesmo sendo um homem, mostrou para com ela e por isso cedeu-lhe o cinturão amistosamente, mas Hera incitou as amazonas a atacarem Heracles, que no meio da luta acabou matando Hipólita por acidente. Nenhuma versão conta que Heracles desafiou Hipólita para uma luta em troca do cinturão e perdeu. O filho de Zeus havia perdido em uma luta justa para uma mulher, o homem que havia separado dois continentes com as mãos nuas se via deitado aos pés descalços da rainha que lhe oferecia a mão estendida para ajudá-lo a levantar-se. Ele era a própria força viva, ali respirando e vivendo, a idéia do que é força bruta canalizada em um único ser vivo. Mas ela era muito mais, ela era técnica, precisão, leveza, calma e beleza.

Nike e Apolo, a beleza da vitória. Aquela mulher nunca iria perder ou fugir. Naquele momento ele se esqueceu de todos os trabalhos e deuses menores. Queria adorá-la pela eternidade. Ele segurou a mão da rainha e não conseguia soltar, não conseguia parar de olhar para ela, nem por um segundo. Hipólita não podia acreditar que aquele tido como o maior e mais selvagem dos guerreiros homens pudesse expressar tanta humildade e ternura. Não esperava isso de homem algum. Somente mulheres sabiam ser humildes e ternas, somente mulheres sabiam mostrar carinho.

Em 1429 um dos maiores comandantes do exército francês, depois de ter vivido inúmeras batalhas, se recusava a acreditar que uma mulher estava liderando uma ofensiva militar em nome do rei da França. O que uma mulher poderia fazer em uma guerra? Por quê as tropas a idolatravam tanto? Quem era essa Joana qualquer que se achava tão superior ao ponto de ouvir as palavras de Deus pessoalmente? Essa virgem de Orléans se achava igual a mãe de Cristo?

Assim que ele viu Joana com os próprios olhos, coberta com uma armadura manchada de sangue, mas carregando um estandarte branco imaculado, tudo fez sentido. Não conseguia dizer o motivo, mas sentia que por ela poderia lutar contra toda a Inglaterra de uma vez. Ela era a mãe, a filha, a irmã e a mulher dele. Ele rezaria para ela se não fosse uma heresia. Ela era a própria França, a nação estava ali na frente dele pedindo para que ele lutasse. Até a morte se fosse preciso.

Em 2065 a 4ª guerra mundial é travada por máquinas controladas por mentes humanas.

Em 2080 nasce o primeiro ser humano gerado inteiramente em útero artificial. Todo tipo de união humana, independente de gênero é legalizada e amparada por lei. Descriminação de gênero ou orientação sexual vira tabu, pelo menos por um tempo.
Em 2100 uma mulher, reconhecida por dois quintos da população do planeta como reencarnação de Jesus e por um quinto da população como reencarnação de Siddhartha Gautama é queimada viva pela Frente Fálica. A Armada Amazona reage com atentados terroristas a todo tipo de instituição constituída majoritariamente por homens, assim como qualquer instituição mista.

Em 2125 começa a 5ª guerra mundial.

Em 2173 a raça humana abandona o planeta Terra. Separadamente, os gêneros eram agora inimigos e totalmente independentes um do outro.

Em 2190 nascem 86 e Boudika.

86 gostava de ler, de estudar história e cultura antiga, de todos da sua geração ele era o mais franzino, com músculos definidos e calejados de uma vida inteira dedicada à guerra, porém não como os outros grandalhões de veias saltadas e fibras artificiais. Ele era diferente.

A máquina tinha três funções especificas: gerar, proteger e armar o soldado. Depois da última guerra não havia mais mulheres e os seres humanos nasciam a partir da fusão dos gametas em um útero não biológico, não havia famílias, nem casais, nem qualquer outra coisa que não fosse divida em pelotões. Em pouco tempo o exército teve a brilhante idéia de unir os veículos de combate pessoal e os úteros artificiais em uma única máquina. Todos os potenciais gênios que a humanidade poderia ter foram transformados em cápsulas, balas, projéteis, algo nascido dentro do cano de uma arma. E os faziam amar aquilo. Cada minuto de suas existências era devotado ao ofício e culto da guerra. Isso alimentava as engrenagens da guerra, as emoções dos soldados serviam de combustível para os processadores eletrônicos, as ondas emitidas pelo cérebro humano tornavam os computadores mais eficazes. Desde que fossem controladas. Tristeza causava queda na velocidade de processamento e felicidade causava sobrecarga. Motivação, raiva e orgulho era o que os lideres queriam e incentivavam. Os meninos eram competitivos e muito unidos, no sentido de formato, como uma seleção de objetos expostos em vitrine, viviam juntos como um pelotão, mas 86 preferia ficar só, se sentia inferior aos outros e gostava mais de ficar dentro do útero.

A humanidade havia conquistado o espaço, o planeta Terra era uma lembrança distante e ainda assim não haviam abandonado a guerra. Armas de projéteis ficaram insustentáveis devido à prioridade de uso dos metais para o habitat humano, feixes de energia de armas de apenas dois soldados que se chocassem em batalha poderiam causar explosões de raios gama que destruiriam tudo que existe. O homem retorna ao combate corpo-a-corpo.

A espada é uma extensão do corpo do guerreiro, ele se torna íntimo dela durante toda a vida a ponto de sentir falta como se sente falta de um membro decepado. Durante toda a sua existência, o ser humano se projeta sobre as coisas que o circulam, buscando saciar uma conexão com algo há muito perdida, ligando seu cerne a coisas não-humanas. O guerreiro e a espada, o piloto e seu carro, o ator e seu trabalho, o autor e sua obra.

86 sentia-se uma máquina desligada e sem propósito, quando não estava no treino simulado, dentro da armadura, girando a lâmina incandescente entre lixo espacial e inimigos. Só naquele momento ele podia acreditar que valia a pena existir. Quando toda a existência humana, da concepção à morte, era fadada ao isolamento. A vida do lado de fora ficava no piloto automático. Não importava o quanto algo pudesse mantê-lo afastado, ele sempre buscava retornar ao útero.

Ele ainda não havia visto de fato o inimigo do homem, só sabia que devia odiá-lo e aniquilá-lo sem hesitar.

Não existiam núcleos, casais, melhores amigos, pais e mães ou irmãos. Apenas a colméia, a corporação, todos unidos, trabalhando juntos pela sobrevivência da espécie e o homem nunca esteve tão só.

Hipólita sente que pode ser submissa se quiser naquele momento, ou dominadora, pode continuar rainha se quiser, ou pode ser escrava, pode tirar todas as máscaras. Heracles pode ser delicado se quiser, ou bruto como nunca foi com mulher alguma, ele pode desligar o medo de ferir com força desmedida se quiser, mas também sabe que pode mostrar uma ternura que ninguém acredita que ele tenha dentro de si. Sabendo de todas as possibilidades eles apenas riem juntos e se beijam. Eles se transformam em um único ser de oito membros e duas cabeças, como era antes de Zeus separá-los. Os músculos se tocam e se reconhecem, pois ambos passaram por coisas parecidas, surras, cortes e desconforto. Eles se fundem lentamente, até que sumam as dores e fraquezas e só reste a máquina. Algo indissociável.

O útero se abre em forma de losango acolhendo 86, que mergulha a consciência e o corpo em plasma. As vértebras são conectadas uma após a outra e ele pode sentir o chão debaixo dos pés metálicos. Os sensores e os olhos, os propulsores e as escápulas são uma coisa só. 86 quer entrar em uma batalha real mais do que nunca na vida.

Entre a expectativa e a realidade existe um abismo infinito e silencioso. O som não se propaga no vácuo, não se ouve nada além dos comunicadores, a respiração pesada e os corações batendo. Pulsando, martelando no escuro, transformando o soldado em um sino.

Se sua armadura fosse atingida você não escutaria nem mesmo seu próprio grito.

Só o silêncio da guerra.

Ele avista o inimigo e ao contrario do que foi levado a acreditar durante a vida inteira, o último impulso que ele sentiria naquele momento seria o de destruir algo tão belo. O inimigo tinha formas estranhas, formas que ele nunca havia imaginado existirem no universo, curvas e ângulos que despertavam milhões de sensações que ele não sabia que existiam. Por um curto período de tempo, ele chega a pensar em um tipo de arma, uma investida, algo que estivesse controlando sua mente sem que ele pudesse fazer nada a respeito. Mas a sensação era tão boa e a vontade de tocar aquilo era tão grande que qualquer tipo de medo foi esquecido no ato. Toda a história, tudo que havia aprendido, todos os atos da vida que culminaram naquele momento não importavam mais.

Aquilo se movia de um jeito hipnótico, no meio da batalha, no espaço em todas as direções possíveis, carcaças metálicas destroçadas por toda a parte e ainda assim ele gostaria de passar a vida toda assistindo. Aquilo vira em direção dele e a máquina começa a apitar e vibrar freneticamente, o nível de adrenalina do piloto fica dez vezes maior do que o que havia sido calculado e previsto para a batalha. Os processadores superaquecem com o ritmo de pensamento e sensações. Aquilo está cada vez mais perto e agora, já sem controle, a única chance dele é usar a gravidade do planeta mais próximo, abraçar o inimigo e tentar destruí-lo queimando ao entrar na atmosfera ou com o impacto da queda. Satisfazendo o desejo de tocar e o dever de destruir.

O inimigo se debate e tenta escapar, mas os controles derreteram e os braços formam agora uma peça única. Eles se fundem lentamente, até que sumam os medos e diferenças e só reste a máquina.

Algo indissociável.

Anúncios

5 Comentários

Arquivado em Uncategorized

5 Respostas para “Crossover- parte I

  1. genial mesmo é a forma de encadear fatos aparentemente dispersos , de início parece que são dados postos ao acaso sem nenhum elemento de ligação, entretanto tu consegue amarrar tudo e usar isso a favor do conto, que nesse caso finda por fazer um histórico de heroínas.
    se eu falar que é o teu melhor conto fica redundante, passa que a cada conto fica melhor (exceto Henshin que não significou evolução em relação a alguns anteriores), mas não se pode matar um leão por dia.

  2. genial mesmo é a forma de encadear fatos aparentemente dispersos, o que de início pode ser visto como dados dispersos sem elemento de ligação, são ”amarrados” em favor da dinâmica da narrativa, nesse caso esses dados findam por fazer uma antologia de heroínas históricas.
    se eu falar que é o teu melhor conto vai parecer redundante, isso é signo de evolução estética (penso que com exceção de Henshin, de um conto pra o outro dá pra notar essa evolução), entretanto não se consegue matar um grifo por dia.

  3. Fizeste um passeio pelo tempo nos levando a pensar a mudança do homem na própria relação com ele mesmo e com o outro , na sua evolução e involução dialeticamente falando .Muito bem pensado !

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s