Troca

Tento obrigá-lo a parar de olhar para o relógio a cada cinco minutos, ele sabe que o tempo é relativo e fazer isso faz tudo ficar duas vezes mais lento.

Os tendões do braço doem e ardem, tentando acompanhar a velocidade do pensamento. O trabalho tem que ser terminado o mais cedo possível pois o corpo e a mente não aguentam mais. O barulho da tecla de espaço, o clique das canetas e a mastigação de chicletes já sem gosto, junto com as discussões sobre novela e o clima, as respostas monossilábicas e as moscas batendo desesperadamente nas janelas de vidro recém borrifadas com álcool formam uma orquestra de dor que faz os ouvidos dele sangrarem. A escala de subordinação e cargos ridículos do mundo do trabalho sobe em cima dele, forçando o corpo para baixo e tornando difícil de respirar. Como se  cada palavra de todos ao redor viesse com uma legenda embutida dizendo ”você é absolutamente nada, um pedaço de material atóxico 100% descartável e deveria se orgulhar disso”.

Faltam duas horas agora.

Não dá para ouvir os cães de rua latindo de fome, os carros buzinando mesmo sabendo que o engarrafamento não vai sumir, os filhos mimados gritando por terem o modelo do celular que é da semana passada e não da semana que vem, o estalar da língua, aquele ”tsc” de reprovação que as velhas na frente da igreja fazem sempre que passa uma garota com camisa de banda ou calça rasgada, o choro do menino que é hostilizado por não querer jogar futebol, o óleo chiando na chapa suja de lanchonetes baratas e o som abafado que faz um corpo morto caindo no chão.

Não dá para ouvir, mas todos eles estão tocando. O tempo todo. Ele sabe que está tocando, o rádio está dentro do carro, nove andares abaixo, desligado, mas ele ainda consegue ouvir. Deixando o ar pegajoso, e as texturas das coisas ao redor extremamente incômodas.
Falta meia hora e algumas linhas.

Tento falar para ele que, se relaxasse, ia ser mais fácil. Mas os joelhos tremem e os pés ficam inquietos, para cima e para baixo, acelerando um carro invisível.

Ele começa a temer secretamente pela própria sanidade, em um nível extremamente contido e apropriado para o ambiente de trabalho, é claro. Começa a repetir palavras mentalmente, por falta de maneira melhor de expressar a inquietação e vontade de sumir dali.

É estranho como algumas palavras, quando repetidas muitas vezes, acabam perdendo o sentido, ou dando a impressão de terem perdido. Por um breve momento Ele pode dar as palavras o significado que quiser, a cara e o cheiro que quiser. Talvez, se ele repetir todas as palavras que lembre na maior velocidade que puder, possa renomear todas as coisas do mundo.

Antes de tudo, havia o verbo. Uma tela em branco, com um novo documento e uma marca de pauta sumindo e desaparecendo.
Havia o nada e o nada o era. Ele então disse: Que se faça a luz.

Finalmente o fim, as luzes se apagam e ele pode ir para casa.
Ele termina o trabalho, desce nove andares e entra no carro. O conforto do silêncio daquele mundo que é só dele. O fim daquele ruído irracional das rodas dentadas que não param, aquele formigueiro que vai engolindo tudo ao redor. O silêncio cobre tudo ao redor dele, fazendo com que deseje algum barulho que possa controlar, algo que o agrade até chegar em casa.

A estrada quase vazia e o ritmo marcado daquela surf music/reggae do Current Swell. Dá para aguentar as três horas até em casa. Ele conhece cada metro da estrada, rodar por ela é quase como já estar em casa.

Faltam pouco mais de duas horas. O rádio fica estranho sem que ele tenha mudado de estação. Um chiado esquisito e as vozes começam a ressoar como se estivessem em uma igreja. Ele passa por uma placa conhecida que sinaliza a proximidade do pedaço preferido da estrada.

Ele conhece o caminho como a palma da mão, então onde foi parar o ponto de retorno? A ponte e os ipês amarelos? Excluindo a rótula do retorno, a estrada é quase totalmente sem curvas, mas ainda assim, ele tinha a sensação de estar dando voltas sem fim.

E as casas? Eram poucas, espalhadas em grandes intervalos ao longo do caminho, mas eram tão charmosas, daquele jeito irregular feito com intuição, o esqueleto da taipa e da tapera coberto com barro pintado de azul, as janelas quase sem nenhum ângulo reto e os bancos com as marcas da talhadeira, deixando ondas castanhas no veio da madeira. Era tudo tão bonito de ver, pequenos cosmos cheios de personalidade, cheios de algo único. Algo que escapava da roda e seus dentes duros.

Ele não via os moradores, mas sabia que eles estavam lá, pulsando vida naquelas casas de barro.

Não dava para ver nada que não fosse o asfalto. Uma neblina estranha apagava toda a paisagem ao redor. Mesmo sem serras ou rios por perto. Além disso, já era para o sol ter se posto. Ele estava dirigindo há um bom tempo naquela zona de crepúsculo. E há um bom tempo ele não conferia o relógio, conservava a esperança de ter passado mais tempo e estar mais perto de casa do que podia calcular.

Ainda faltavam duas horas.

Pelo jeito o tempo tinha se perdido também, talvez tentando enxergar aquelas belas casinhas pela estrada. Um desconforto começava a crescer ali, entre o peito e o volante.

”Será que eu morri? Deus! E se isso for um tipo de limbo para quem dorme e morre na estrada sem perceber? Ai Deus! Só queria ir para casa de uma vez, meu Deus!”

Deus. Uma palavra que rapidamente parecia ter perdido o sentido. Como dar um rosto para ela?

Ele vê alguém na borda da neblina e da estrada. Um rosto familiar que ele sabe nunca ter visto antes. Alguém pedindo carona. Ele não percebe já ter parado e aberto a porta, enquanto tentava decidir se parava e abria a porta ou não.

Aparentemente os dois iam para a mesma direção.

Talvez devesse acontecer um silêncio desconfortável, um diálogo vazio entre dois estranhos, uma small talk.

Mas não aconteceu, nenhum cumprimento, nenhum comentário vazio, nada que dissesse o quanto ele estava cansado e o quanto queria voltar para casa. Parar de ficar sentando em cadeiras de escritório ou bancos de carro. O quanto ele queria tirar os sapatos e o quanto queria parar de responder tudo com ”sim, senhor”.

Ele entendeu tudo naquele momento, literalmente tudo e além disso. Alpha e Ômega, se é que posso resumir a isso.

Aquele sentado ao lado dele era Ele. Não havia um sentimento de presença ante um júri, ou rei, ou celebridade. Ou algo que alguém sentiria frente ao nascimento do universo, uma supernova, um planeta explodindo, uma aurora-boreal, um belo nascer do sol. Era como se fosse seu pai, ou sua avó, sua namorada, seu melhor amigo, seu amigo imaginário, seu brinquedo preferido, como se fosse a sensação gostosa de afundar os dedos em arroz cru. Ou ao se sentir mal por se esforçar muito para impressionar alguém, cozinhando para a pessoa e a receita passa um pouco do ponto, para receber como resposta ”na verdade, eu prefiro assim, mais queimado”. Algo agradável, mas nada extravagante.

É inevitável querer saber o motivo de coisas que fogem do cotidiano. Ele sabia quem, sabia quando, sabia que como não importava e muito menos onde.

-Por quê? Por quê agora? Por quê eu?

-Eu precisava ”terminar” um trabalho, digamos assim. Vocês são feitos para achar que tudo tem que ter um fim. Você pode chamar isso de fim, um fim para Mim. Na verdade você me criou para ter um ”fim”, você me fez vir aqui, nesse dia, nessa estrada. No momento que abriu a porta eu deixei de Ser. Agora você É. Não existem mais perguntas ou respostas, a não ser que você queira.

Sim, tudo estava claro, tudo que havia e não havia sido respondido e perguntado, não havia fim ou começo, apenas uma troca. Mas então havia isso. De tudo, dos quarks e átomos, da matéria-escura, da entropia, do fim da novela das oito, da última palavra humana, da primeira palavra entre seres de planetas diferentes, Ele não entendia o motivo da troca. Uma carona de alguém no meio de uma estrada vazia? Um administrador de distribuição de qualquer coisa de uma empresa qualquer querendo voltar para uma cidadezinha sem nada de interessante? Por quê abrir mão de Tudo? Do controle, do conhecimento, da plenitude?

Ao quê o que costumava Ser, apenas disse:

-Só quero voltar para casa.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s