Filtros

Filtros
Tenho azar, muito azar. É a única explicação para o filtro de sonhos ficar sem bateria um dia antes do teste. Sonhei a semana inteira com as perguntas e rotinas do teste, a taxa de sincronia já estava perto de 80%. E a bateria do filtro acaba, nessa hora da madrugada.

Preciso dormir, não quero que vejam minhas olheiras ou atrasar alguns milésimos de toda a turma, mas como ir dormir sem saber como irei sonhar? Sonhar sem guia, sem escolher o ambiente e o tema? E se eu tivesse um desapelo? Perdesse a sincronia com as outras pessoas? Quisesse ouvir uma música fora de época?

A hipótese já era perturbadora o suficiente. Posso sentir meu corpo ficando lento e os olhos ardendo cada vez mais. Não posso dormir sem o filtro de jeito nenhum. Preciso ficar acordado.

Talvez estivesse me preocupando muito com uma bobagem. Não me sinto tão cansado assim, as horas passaram mais rápido do que pude perceber e o dia amanheceu bem bonito.

Um bom dia para passar no teste e me tornar finalmente um cidadão, um modelo para a sociedade, alguém perfeitamente normal. Poderia ter um emprego estável e uma casa segura em uma rua tranquila, assinar o pacote onírico mais comprado por todos e ter sempre baterias extras para o filtro.

Já amanheceu, finalmente. Aguentei bem, muito bem até.
O dia está lindo e nunca me senti tão disposto, até o caminho para a escola-molde parece diferente, as ruas mais calmas, sem o corre corre habitual de formigueiro perto de pirulito caído em dia quente, que me incomodava tanto, apesar de não incomodar mais ninguém.

Me sinto pronto, mas minhas mãos estão estranhas, como se quisessem estar em outro lugar fazendo outra coisa, talvez um curso de origami ou enfiando os dedos em sacos de arroz cru.

Fico me perguntando o que teria acontecido comigo se tivesse ido dormir sem o filtro, os horrores de um sonho espontâneo, sem controle, gerado pela minha mente sem pudor nenhum, diferente de todas as outras pessoas, único e imprevisível e como isso poderia afetar minha sincronia com o resto do mundo.
Assustador.

Estranho isso, pensava estar indo para a escola. Estou em casa, pelo visto o teste ocorreu bem, nem me dei conta dele acontecendo. Sou como todos os outros agora, penso igual, falo igual e poderei trabalhar igual, finalmente. Minhas mãos estão estranhas.

Não lembro como cheguei aqui. E esse barulho estranho vindo não sei de onde.
O despertador. Como pode ser o despertador a essa hora?

Acorde. Acorde.
Hora do teste.

Filtros II

Deitado na cama, tentando sonhar, enquanto escurecia lá fora, vendo a poeira dançar nos restos de luz que entravam pela janela, esperando passar o efeito do remédio, a euforia sem gosto e aquela felicidade opressora dos antidepressivos.
Se fosse possível sintonizar a alma humana ou essência ou sabe se lá o quê que nos diferencia de outros seres no fim de tudo , talvez eu ficasse de fora. Pelo menos naquela tarde, sem os compostos químicos dissolvendo no meu sangue, eu iria ficar de fora. Havia algo dentro de mim brigando contra o ”efeito esperado do medicamento, caso não haja resultado, não aumentar a dose indicada sem consultar o médico”.

Era Sally o nome daquela cadela do filme? Aquela que morre em um poço ou algo assim? Não consigo lembrar o nome do filme, mas também não conseguiria chorar. Nem ficar com os olhos mareados, nem nada.

Nem se eu conseguisse tirar de ouvido no violão o solo de Epic do Faith No More e o ex-guitarrista da banda que abandonou a música para plantar abóboras fosse meu vizinho, ouvisse, botasse a mão no meu ombro e dissesse ”rapaz, nunca senti tanto orgulho na vida” e resolvesse voltar a tocar por minha causa. Sem choro, sem sintonia.

Eu diria algo como “que bom” com uma expressão neutra e ficaria de fora. Todos que choraram e se arrependeram, todos que sentiram medo por si mesmos e por outros, todos que pensaram que nunca mais haveria arte, comida, piadas, filmes, sujeira, spray de cabelo, depilação ou qualquer rastro da história humana no fim das contas, seriam recolhidos, salvos ou catalogados, virariam pontos de luz, ou anjos, ou dados de um grande computador celestial. E eu ficaria de fora.

Vendo a poeira dançar nos restos de luz que entravam pela janela. A poeira iria diminuir com o tempo, sem formas orgânicas perdendo matéria para formar poeira e talvez também não houvesse mais sol no fim das contas. Mas eu não sentiria falta e nem choraria.

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