Ephemeroptera

Nunca gostei de relógios e acho que o sentimento é mútuo. Nunca gostei de terno e gravata também.

Se o tempo tivesse um corpo, os relógios seriam um terno, mofado e que faz a pele coçar, e os ponteiros seriam gravatas, incômodas, apertando cada vez mais o pescoço do tempo até que ele ficasse tonto e se confundisse todo. Para piorar, talvez as horas fossem os sapatos sociais, com números e combinações confusas que o fariam caminhar esquisito e todo torto.

Eles o fazem ir onde ele não quer; fazer o que não quer e caber onde não cabe. Nas datas, nas agendas e calendários, nos horários de chegada e partida, regressiva e progressivamente.

E nos relógios.

Estávamos afastados. Não nos conhecíamos mais, por mais ridículo que isso pareça. Incomodado com isso, tanto quanto era possível ou permitido que eu ficasse, quis vê-la.

Falar sobre algo banal ou importante, que não fosse podado e talhado pelos relógios e agendas.

Eu precisava pensar em algo para dizer, todos os silêncios confortáveis entre nós já haviam passado da validade. Acho que ela sempre me viu como uma perda de tempo disfarçada de gente.

Oito minutos atrasada.

Posso começar falando de como meu avô costumava dizer que antigamente, caçava na mata fechada, aonde a luz do sol quase não chega. Ele costumava ficar deitado na posição de tiro, até esquecer as horas e os dias. Até que os insetos fizessem trilhas por cima dele, até que os pássaros pousassem no cano do rifle e a presa se acostumasse com o cheiro dele tanto quanto qualquer outro, para só assim atirar, no curto intervalo do pulso, quando o coração não bate e os capilares do dedo estão se contraindo.

Ele dizia que quando o tempo ia embora dava para sentir a Terra girar. Era como se habitássemos o tempo e contássemos o espaço, não o contrário.

Sem ninguém por perto nos sentimos mais confortáveis para buscar o conforto, agir como quisermos, falar como quisermos e vestir o que quisermos. Ou não vestir nada.

Assim também é com o tempo. Sem métrica, ele corre solto por aí, sorri, saltita, anda para trás, fica de cabeça para baixo ou se deita de costas sem se mexer, olhando para o teto do espaço até recuperar o fôlego.

Posso falar daqueles insetos que parecem libélulas, que só vivem algumas horas durante a vida adulta, acasalam e morrem, sem ao menos se alimentar. Eles poderiam viver a vida inteira sem notar um caçador humano parado com seu rifle em meio à vegetação, o tomando por parte da paisagem. E mesmo se ele se movesse e fosse embora, seria algo tão imenso que suas pequenas vidas não notariam.

Talvez sejamos assim também.

E se o tempo fosse embora? Os paraquedistas, traceurs, trapezistas e suicidas ficariam presos numa queda eterna ou indefinida como Alice na toca do coelho. Os professores de física virariam pó, juntamente com os alunos durante uma explicação de ondulatória e se misturariam aos restos de giz na lousa e no chão. Os projecionistas das salas de cinema esqueceriam suas vidas e tomariam o filme como a realidade, depois de milênios de projeção. Os cobradores e motoristas de ônibus perderiam a função das pernas e se fundiriam ao maquinário, formando uma nova entidade.

Eu veria os executivos com seus relógios caros de peças de titânio completamente parados, mas funcionando perfeitamente, conversarem através das décadas sobre coisas banais enquanto esperam o fim do happy-hour.

Veria crianças brincarem até a velhice em recreios intermináveis, até que esqueçam os nomes de seus pais e por fim seus próprios nomes.

Veria civilizações alcançarem seu ápice e decaírem com o passar dos anos, as gírias mudariam ao meu redor até que eu não compreendesse mais nada e tivesse que comprar um dicionário da minha língua morta.

Talvez tudo ficasse imóvel, sem começo e sem fim, até que alguém puxasse a tomada da existência e criasse uma tela em branco com pequenas impressões do que havia antes.

Dez minutos. Melhor deixar que ela fale, não consigo manter um assunto por muito tempo.

Costumava ser bom nisso, eu podia ouvi-la falando por dias e dias, sem perder a atenção, sobre qualquer assunto do mundo. Como estar boiando a deriva, num mar de palavras. Não importava para onde eu iria e sim onde eu estava.

Talvez ela tenha passado por aqui sem que eu percebesse. Talvez tenhamos esquecido um do outro. O tempo pode ter levado a memória embora junto com ele, para poder ter alguém para conversar. Vai saber.

Talvez eu estivesse esperando por algo que não lembro mais, talvez não estivesse esperando nada e tivesse parado ali de bobeira.

Que horas são afinal? Melhor ir para casa.

Acho que sempre foi assim, o tempo estica na direção que eu não quero.

Nunca gostei de relógios mesmo.

 

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