Textx.

Olha só, tá passando Robocop 3 na tv do bar. Esse filme é uma merda, mas dá pra matar o tempo enquanto ele não chega. Pelo menos não tenho mais que apertar os olhos pra enxergar a tv.

Eu tinha sido míope por 20 anos e era um saco. Quando é preciso usar óculos, as pessoas esperam que você fique quietinhx em um canto lendo alguma coisa e sempre tenha uma resposta inteligente na ponta da língua ou algo interessante a dizer. Com interessante, quero dizer algum fato curioso aos moldes de chamadas de programas do Discovery Channel. Essas que pulam da tela do seu relógio sempre que ele detecta um aumento nos batimentos cardíacos indicando que aquela pessoa que você está interessadx está se aproximando e você quer algo ‘’interessante’’ pra dizer.

Normalmente eu não tenho nada minimamente interessante pra dizer e quando tenho espero que a pessoa escute por mais do que 30 segundos. Mas isso não é importante.

Eu troquei a porra dos olhos por duas esferas de Nano-Carbonádio, com visão humana perfeita, visão 3d, visão noir, visão neo-80s e o caralho a quatro. Quero dizer, não enxergar é uma merda e fazer uma operação pra enxergar bem até os 40 e poucos pra voltar pros óculos de novo depois de tudo é uma imbecilidade. Foda-se. Toma meus créditos, troca essa porra, arranca meus olhos e passar bem. Obrigadx.

Mas isso é uma exceção ok? Sei lá, miopia é uma doença como qualquer outra. Durante a escola inteira eu queria quebrar o braço pra ele ser assinado por toda a turma e virar uma espécie de celebridade quebradx e fodidx, pra poder dizer pra todo mundo que o osso saiu pra fora e os tendões tiveram que ser grampeados no meu braço. A ideia é legal, mas aquela merda dói. Quebrar o braço é uma merda assim como usar óculos.

Mas eu gosto do meu corpo, nasci com ele e quase sempre a gente se deu bem.

Moda é uma merda também. Converteram O império contra-ataca pra cinema sensorial, ou é cinema de imersão sensorial? Eu nunca sei. Converteram todos os Star Wars pra aquele formato que o filme passa direto no seu cérebro em primeira pessoa. Depois disso todo mundo queria cortar a mão direita fora e colocar uma prótese Psicomotora.

Não gosto de me meter na vida dos outros, eles dizem que as sensações são iguais ou até mais fortes (a pele de metal supostamente envia sensações com mais eficiência pro córtex), dá pra baixar habilidades que você não tinha e tudo mais, é como colocar um piercing de transmissão global e etc. Mas porra, é a sua mão, malucx do cacete.

E a tendência da vez é o ‘’Colossus’’. O tal do processo que coloca o seu cérebro num corpo metálico de variados estilos, do retrô-futurista estilo Fritz Lang até os M.E.C.H.A asiáticos que lembram muito de longe algo de humano. Alguns modelos são cópias perfeitas, sem engates e circuitos visíveis, pintados em escalas de tom de pele beirando à perfeição. E você não sabe que está interagindo com um colosso até que ele toque em você. Aquele toque frio de coisas sem alma. Me dá arrepio só de pensar.

Ser alguém ainda feito de carne entre um monte de colossos é uma mistura de estar sóbrix numa festa de cheiradores de morfocaína e ser a única criança do recreio sem um holotoy. Você está obsoletx, moçx. Abraçar ou beijar alguém de carne é tão ultrapassado quanto usar os dedos pra ativar algo. Transar com alguém de carne é como caçar animais com lanças de ponta de pedra lascada.

Eles dizem que colossus podem transar por dias sem parar, com uma transmissão sensorial supostamente mais eficiente, as descargas de endorfina, dopamina e noradrenalina viajando diretamente sob a pele metálica, aumentando os efeitos por horas e horas, até acabarem as baterias embutidas. Mas e depois disso?

Será que sou atrasadx? Por achar que um corpo metálico não sabe ficar de conchinha debaixo do cobertor, que uma boca mecânica não sabe dosar a pressão de uma mordida de carinho ou até fazer qualquer tipo de carinho que seja? Um braço cheio de pistões e válvulas sabe apertar os dedos da mão sem machucar a mão do outro?

A minha primeira vez, por exemplo, eu tava no 1ºano, eram 3 da tarde e meu namorado da época tinha terminado mais cedo a prova de recuperação e ia passar lá em casa, o meu quarto recebia todo o sol da manhã até o meio-dia e de tarde virava um grande forno. Tudo ficava quente e até os pôsteres das paredes pareciam murchar. A porcaria dos meus óculos embaçava a cada minuto, eu tava nervosx pra caralho e ele também, sempre que a gente se tocava dava pra ver o arrepio mútuo enrugando a pele dos dois. E a minha respiração, afobada, tava mega alta e não dava pra disfarçar. Estragando o clima todo. Até que o meu vizinho, que era professor de violão do meu irmão caçula, começou a tocar sem parar o solo de Stairway to Heaven numa imitação barata de uma fender branca toda descascada que eu adorava, era uma das minhas músicas preferidas na época, com um dos solos de guitarra mais lindos do mundo e eu me lembro daquela tarde quente pra caralho até hoje. Lembro que meu pai chegou em casa do nada e a gente se vestiu na velocidade da luz, um com a camisa do outro, sendo que eu só usava preto e ele só usava amarelo ou roxo. A gente voltou pra escola pra esperar o pai dele vir buscá-lo e ficamos rindo a tarde inteira sem soltar as mãos e sem falar mais nada.

Mesmo antes dos Nano-olhos registrarem tudo que eu faço a cada 3.5 segundos, mesmo sem banco de dados sensorial. Lembro como se fosse ontem.

Fico todx bobx pensando no cabelo dele, caindo na cara a cada passo que dá, sempre reclamando que o cabelo tá feio ou bagunçado, acho que ele é mais preocupado com essas coisas do que eu. O meu sempre tá de qualquer jeito e eu não tô nem aí.

Nossa, mas esse filme é uma merda mesmo. A única cena relevante é a do Robocop fazendo carinho na cabeça da menininha enquanto ela dorme no colo dele. Que inclusive devia estar odiando, aqueles dedos metálicos, sutis como uma empilhadeira, batendo no couro cabeludo dela. Como uma máquina pode fazer carinho em alguém? Metal não foi feito pra isso.

Isso não entra na minha cabeça, daqui a alguns anos todas as árvores terão um leitor de créditos e as pessoas poderão selecionar a estação que querem ver na árvore. Um crédito, outono, frutas transgênicas, folhas recém-impressas caindo em diferentes matizes. Outro crédito, inverno, galhos secando e retorcendo animatronicamente a cinco quadros por segundo. Até que só existam flores perpétuas de plástico com a marca d´água e o cheiro da Channel e ninguém se lembre da textura e do cheiro real.

Até que ninguém se arrepie, ou se assuste, se espreguice de manhã ou estale os dedos.

Estou devaneando de novo. Eu não vou existir pra sempre e nem ele. A gente vai ficar velhinho junto falando mal da juventude de metal que não sabe o que é sentir medo, nem dor, nem alegria. A gente vai franzir os lábios e balançar o punho fechado no ar pra dizer que no nosso tempo era melhor. Vamos lembrar de como algumas cidades tinham ruas e becos não planejados onde não passava nem uma bicicleta e ladeiras tão íngremes que até o vento tinha preguiça de subir.

Não sou preconceituosx, mas qual o motivo de estar aqui pra sempre? Ser feitx de metal e fibra de carbono? Robôs não podem amar, nem fazer arte, nem escrever Sófocles, sei lá. Bom, talvez Sófocles sim, mas não Bradbury ou Phillip K. Dick. Ou Asimov.

Seria bem irônico.

A própria ironia deixaria de existir. E devaneios e monólogos internos enormes enquanto se espera o namorado no bar, como esse agora, seriam pacotes artificiais disponíveis para download por um preço módico dependendo da sua assinatura prévia. E você poderia devanear sobre qualquer assunto e se perder por um momento na sua longa e vazia existência robótica. Eu mesmx poderia ser um deles e ter me perdido na duração do pacote de devaneio.

Ele chega, finalmente. Toca a parte de trás do meu pescoço com o nariz e a boca ao mesmo tempo. Sinto um milhão de descargas elétricas explodindo na minha coluna, meus olhos se reviram pra dentro do crânio e o sorriso é automático.

-Ei sonhadorx, contando ovelhas eletrônicas?

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1 comentário

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Uma resposta para “Textx.

  1. interessante a crítica a sociedade da tecnologia que criou essa distopia habitada por seres “quase humanos”.
    Penso que (nesse caso aqui) o narrador em primeira pessoa não deixa de ser um eu lírico (posto que o gênero está invertido), mais um motivo pra que o autor não tenha a vida conhecida, (ódio às biografias.)
    Genial o aproveitamento dos elementos específicos da ficção científica para pensar as aproximações e afastamentos entre os sentimentos/emoções humanos (as) e a hipotética frieza das máquinas, ressaltando que o trecho sobre as árvores com estações artiticiais e/ou manipuladas mostra o quão frio e descerebrado é o ser humano.
    bem pensado o diálogo final citando o PHILIP Kindred DICK.
    genial

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