Blues em linha reta

Nunca tinha ficado triste depois de uma luta.

Nunca me importei em ganhar ou perder, pra mim boxe era mais que isso. Nunca me importei se o outro cara era mais pesado ou mais leve, se era southpaw ou ortodoxo.

Destro, canhoto, pouco importava. Só queria lutar, sentir o corpo acordar um pouco. Eu sei que isso é besteira, mas não consigo parar de pensar que se eu tivesse vencido naquele dia, tu teria ficado. Já me sentia culpado de te arrastar, toda culta e intelectual que és, pruma luta de boxe. Por mais que tu fingisses entender o que aquilo significava pra mim, me sentia ridículo.

Dá pra te ouvir falando que é bobagem, mas sinto que se ele não fosse canhoto com passada esquisita, se eu não tivesse avançado em linha reta, se não tivesse levado aquela porrada, sei lá, teria sido diferente. Eu que me sentia vivo e tranquilo depois de tirar as luvas, naquele dia só senti angústia.

Lembra daquele poema do Pessoa que o professor de português pôs no quadro no dia que a gente se conheceu?

‘’Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. (…)

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. (…)’’

O professor diria que falar de Pessoa e de boxe no mesmo discurso é um crime inafiançável, que o poema é muito mais profundo do que o sentido literal. Que eu devia ler mais e tentar apanhar menos.

Não acho que ele tenha entendido. Mas também, quem sou eu pra falar algo? Alguém de nariz quebrado, cara inchada e olho roxo, nunca poderia entender Pessoa. Ou Campos. Nenhum deles. Todos passam batido por mim e nem me dou conta. Que nem o soco do canhoto. Que nem tu.

Nunca avance em linha reta. Quando um canhoto te acerta no fígado, o corpo todo se acovarda, pede pra parar. Te faz se curvar e cair. O corpo apaga e a mente vai embora.

Eu tinha 14 anos quando ouvi um verdadeiro álbum de Blues. Sweet Tea do Buddy Guy.

Sendo fã de música pesada na época, eu preferia as músicas mais ‘’rock’’ do álbum e ignorava as mais tradicionais, mais lentas, tocadas somente com violão e voz.  Detestava em especial uma faixa chamada ‘’When i´m done got old’’.  A música não falava comigo de nenhuma maneira, não fazia sentido. Não que as outras faixas, sobre de dor de cotovelo e brigas de bar, falassem com um moleque de 14 anos, mas de qualquer modo faziam algum sentido. Mas aquela faixa não, algo nela soava repetitivo, cansado, triste até. É óbvio que o conceito do blues é brincar com esse tipo de sentimento, expurgar isso de quem canta e ouve. Estar blues ou sentir blues é basicamente estar triste. Mas o triste daquela faixa era de alguma forma diferente.

Ficar velho é muito parecido com ficar doente. Você nunca pensa sobre o assunto até que aconteça. Faz a pele mudar de cor e a comida ficar sem gosto. As pessoas ao redor fingem não ter nojo de você, mas sem muito êxito. E o pior de tudo, você infecta tudo que toca. A música que você escuta é música de velho, suas roupas são roupas de velho e tudo relacionado a você recebe o selo ‘’velho’’, para que todos se afastem o mais rápido possível e procurem ajuda médica.

E tudo fica longe demais, difícil demais. Fora de alcance. Me mexo devagar, tanto quanto meu corpo deixa e mesmo assim tudo dói. Parece que me rechearam com areia dos sacos de pancada e as porradas vieram junto.

Naquele minuto que não fui rápido o suficiente pra baixar o cotovelo e proteger o fígado, perdi minha última chance de ter vigor, de ser rápido, de ganhar em algo. Tudo virou um grande nocaute depois disso. Uma cara inchada e um gosto amargo na boca.

O canhoto nem sabe a força da porrada que deu, o efeito do soco.

Dirigir até parece um jeito de matar essa vastidão da velhice, mas piora. O mundo do lado de lá do para-brisa vira um videoclipe malfeito que não muda de ritmo. Um blues arrastado, com voz baixa, que mal toca as cordas do violão, que não termina com uma frase virtuosa na guitarra ou piano, só vai enfraquecendo até sumir.

Vi o canhoto atravessando a rua ontem. Os mesmos tiques, a passada esquisita. Um passo direito, um passo esquerdo, um micro passo esquerdo e mais um direito. Todo canhoto é estranho.

Avancei em linha reta de novo. Dessa vez, peguei ele. Claro que, nada muda pra gente. Tu podes fingir entender o que significa pra mim e eu ainda vou me sentir ridículo. Depois de todo esse tempo, ainda sou o cara que perdeu naquele dia e o cara que não leu aqueles livros, aquele cara que não entende um poema do Pessoa.

Mas posso responder pra ele agora.

‘’ Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.’’

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2 Comentários

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2 Respostas para “Blues em linha reta

  1. Bah, du caralho. Pessoa, blues e boxe na mesma narrativa. Demais, véi. Parabéns.

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