Càirn

Cresci num campo com meu pai, uma casa bem simples, uma estrada de terra, algumas árvores por perto, nada que chamasse atenção. Com exceção de um montinho de pedras achatadas sobrepostas formando uma pequena torre de uns 80 cm de altura. Alguma coisa naquele monte de pedras me incomodava. Talvez eu fosse pequeno demais e a altura daquilo me ameaçasse de alguma forma ou talvez o barulho que o vento fazia ao passar pelas frestas da formação me assustasse a noite, não sabia bem o motivo, mas aquilo me incomodava.

A estrada alagava e ficava com marcas de roda de carro ou carroça, diminuía com o crescimento de mata rasteira e rachava com o sol de verão.

As árvores eram cortadas, pintadas de branco (até hoje não sei por que), perdiam as folhas, davam frutas, recebiam pneus com cordas e crianças balançando, cresciam e morriam.

Minha casa mudou de telhado, de portão, pintura, ficou mais velha, recebeu reforma, ganhou e perdeu móveis, teve goteiras, rachaduras, cano furado e etc.

Mas não importando o que houvesse aquele monte de pedras continuava lá. O tempo todo. Decorei cada forma, cada cor, cada textura daquelas pedras achatadas sem saber exatamente o motivo. Não cresciam ervas daninhas ali, nem musgo, nem casa de bicho. Não tinha nenhum tipo de liga, mas nada nem ninguém as tirava de lugar.

E aquilo me incomodava. Aquela presença constante, aquele peso de algo que eu não sabia explicar.

Fui-me embora dali e tentei não pensar mais no assunto, tirar aquele peso da minha cabeça.

Nunca gostei de me sentir preso, ou imóvel, talvez por isso eu tenha me mudado para a cidade grande, todo o movimento e a rapidez das coisas me acalmava de certa forma. Movimento e mutabilidade foi o que sempre busquei na vida, no trabalho e nas relações.

De certa forma perdi um pouco o contato com meu pai. Voltar para o campo, a rigidez que a velhice trouxe para ele e aquele monte de pedras não facilitava nosso convívio. Só de pensar em ficar deitado numa cama a maior parte do tempo, com as juntas endurecidas e o coração cansado de tanto bater, não vivendo propriamente, mas apenas existindo. Isso me desesperava, me cobria de angústia.

Protelei minha volta até não poder mais. Engoli a aversão àquilo tudo e fui visita-lo no leito de morte, arrependido pela distância, triste pela perda, mas com o coração leve e preparado para me desapegar por completo e deixa-lo ir em paz.

Seu último pedido foi também a explicação daquilo que tanto me incomodava quando criança. Cada pedra do monte era deixada por um filho, representando seu finado pai e assim por diante quando ele morresse e tivesse seu próprio filho. O monte era alto, batia quase na minha cintura, isso vinha sendo feito há muito tempo. Meu pai tinha posto a última e queria que eu continuasse aquilo. Concordei e ele se foi. Nada muito dramático, nada pesado demais.

Escolhi uma pedra clara e achatada num riacho próximo e iria dar cabo daquilo no enterro. Não no cemitério da cidade, mas segundo a tradição da família, dentro do terreno da casa, no campo onde ficava aquele maldito monte.

O padre da cidade conhecia meu pai e toda a minha família. Coisa de cidade pequena. Acho que a tradição era sabida por todos menos eu. Ditas as palavras exigidas pela religião ele completou com um poema do Drummond, que achou combinar com a ocasião.

O vento batia nas frestas das pedras com força, fazendo um barulho parecido com um uivo ou assovio mórbido deixando a atmosfera um tanto opressiva, pelo menos para mim. O peso de todas aquelas pessoas enterradas debaixo dos meus pés esperando que eu colocasse aquela pedra a mais naquela pequena torre e fizesse parte deles, era como o peso da minha própria morte. Todos exigindo a pedra do meu pai ali, e depois a minha, e a do meu filho e assim por diante.

Comecei a sentir um mal-estar. O padre começou a declamar o poema. Todos os outros habitantes da cidade também tão velhos quanto meu pai estavam presentes. Austeros e imóveis como verdadeiras estátuas me cercando, vigiando e julgando minhas reações, esperando que eu cumprisse as tradições sem falha e ficasse marcado como mais um deles. Como se estivessem esperando por aquilo desde que eu nasci. Sempre lá, esperando por mim. Parados, esperando.

‘’No meio do caminho tinha uma pedra’’.

O peso nos meus ombros aumentava e me deixava rígido. Comecei a suar frio.

‘’Tinha uma pedra no meio do caminho’’.

Senti minhas articulações enrijecendo e já não conseguia controlá-las, apenas tremia.

‘’Tinha uma pedra’’.

Senti o ar lentamente indo embora. Estava sufocando ao ar livre, respirava alto e fazia força para me mover.

‘’No meio do caminho tinha uma pedra’’

Minhas pernas não se moviam por mais que eu quisesse correr para longe dali. Alguma força horrível parecia me puxar para baixo, o chão parecia tremer querendo meu corpo, querendo me paralisar para sempre.

‘’Nunca me esquecerei desse acontecimento (…)’’ O padre parou de declamar ao ouvir meu grunhido de desespero.

Conseguindo finalmente me libertar daquilo, virei às costas e fui embora. Entrei no carro e joguei a pedra, que até então eu apertava com força na mão, pela janela. Uma tradição boba, nada mais, meu pai havia ido em paz, eu estava em paz com aquilo, que importância tinha uma simples pedra? Bobagem.

Na volta, não consigo deixar de reparar no cemitério da cidade, os jazigos e as lápides. Por que tantas pedras, por que usar algo rígido, inerte e imutável pra representar alguém morto? Que coisa mais triste.

Não importa, chega de pensar nesse tipo de coisa. Vou voltar para casa e esquecer tudo isso.

A casa vazia não me tranquiliza, meu namorado deve ter ido visitar alguma amiga pensando que eu demoraria mais no enterro do meu pai. Não sei por que insisti tanto para ele não vir comigo, devia ter posto aquela pedra lá, resolveria o assunto, agora não consigo parar de pensar nisso. E daí se meu pai soubesse da gente? Tão perto do fim? Que diferença ia fazer?

Tenho que pedir desculpa para o Isaque.

‘’Tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra’’.

Esses poetas são um saco. Melhor tomar um banho e ir dormir, tirar isso da cabeça. Ele deixou um bilhete no espelho como sempre, depois eu leio.

Será que eu já passei o xampu? AI CARALHO! QUE ÁGUA FRIA! MERDA DE HORA PRA FALTAR LUZ! AI PORRA! CHÃO DE MERDA!

Que cena ridícula! Ainda bem que ninguém viu, tamanho marmanjo escorregar no banheiro. Caralho, tem alguma coisa errada. Deus, não consigo levantar. MEU DEUS, NÃO CONSIGO ME MEXER!

AI DEUS, QUE JEITO IMBECIL DE FICAR PARAPLÉGICO! Me fodi, me fodi, não consigo nem gritar, vou morrer pelado deitado no escuro. Calma, o Isaque já deve estar voltando, isso! Ele vai chegar daqui a pouco e me levar para o hospital! Tem fisioterapia para isso, afinal. Vai dar tudo certo, só tenho que esperar. Preciso respirar, o peito não quer se mexer, vou morrer do coração antes de morrer de sei lá o que foi que deu! Pelo menos estou consciente, por enquanto. Me fodi.

Não dá nem para mexer o pescoço e ler a porra do bilhete, me fodi. Volta logo, pelo amor de deus!

‘’Antônio, não vou conseguir falar isso cara a cara, não dá. Sou fraco, sei lá. Preciso de alguém que me apoie e que seja presente. Tu é inconstante demais, avoado demais, desculpa. Quero uma coisa mais madura, sabe? Tô indo embora e sim, tinha que ser assim. Tu sabe que bilhete pra mim é coisa séria, né? Já peguei todas as minhas coisas pra ficar fácil, sabe? Pra nós dois.

Tchau e fica bem tá? Não me espera porque não dá mais. Beijo.

Fim do bilhete.’’

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