Ex Lutum…

Se eu lembro da cidade? Como era antes? Rapai, lembrá eu lembro demai… Se eu lembro de Chico? Doido, eu só lembro que no dia que ele morreu o mangue num chiou, num sabe? Por que o mangue chia, todo dia na hora que a maré baixa e aparece a lama preta, a água que fica nos buraco de caranguejo vai evaporando e o mangue todo chia, tás entedendo? E aí sobe a fedentina de enxofre.

Todo dia, Recifede.

Mas no dia que Chico morreu, ficou foi tudo quieto, visse? Eu tinha o quê, sete, oito ano? Meu tio tinha um pé sujo ali na entrada do porto, ali no comecinho, tás ligado? E Chico ia beber ali, sempre que podia, e quando num tava tocando Jorge Ben tocava Nação, num sabe? Eu cresci ouvindo aquilo e vendo ele beber ali com tio sem ligar as duas coisa. No dia que ele morreu, encheu de chama-maré pra tudo que era lado, tava tudo que é caranguejo, parece que saindo, tás ligado? Indo embora, num sei pra onde.

Tio, quando contou, eu lembro, que parecia além de triste que só a porra, mas com medo, sabe? Preocupado mesmo, e eu num conseguia entender aquilo, entendi que o amigo de tio tinha morrido e o dia pra quem era catadô de caranguejo tinha sido bom até demais, fuderoso memo. Mas também só esse dia, porque a partir daí a Biotech, a empresa, tá ligado, essa que chegou comprando foi tudo que era terreno ribeirinho perto do manguezal e um monte de prédio vazio no centro, num sabe? Foi tudo que era nego vendendo casa e saindo de tudo que era jeito, nego que nunca tinha visto nota de cem reais, quando viu mil, cinco mil que os urubu de terno tava dando, vendeu sem nem fazê pantim, assim. Quisero comprá o bar de tio, queriam porque queriam, visse? Eles já tinho a vizinhança toda e num iam desistir de tirar todo mundo dali, a qualquer custo. Por dinheiro né, era o que eu achava na época.

Tio vivia dizendo que num era pra eu ser catadô de caranguejo, que num sei o quê, que era pra eu estudá, que num sei mais o quê, que meu pai era catadô e morreu bêbado e com fome no barco no meio do mangue, e eu dizendo que num quero, que isso num é pra mim, a cidade me dá um arrelio, tás entendendo? É tanto cimento pra tudo que é lado, tanto barulho, tanto caminho traçado no chão que tu num pode ir pra lá, num pode ir pra cá, tanto arrudeio que me dá agonia demais, num sabe? Tudo quadrado, tudo preso, sem podê crescê, espalhá raiz. Num sei quem plantou essa coisa em mim, essa inquietude de num conseguir gostá de muita ordem, se foi meu tio, o mangue ou a música de Chico. Os dois de certa forma dero um jeito de sempre ser parte da minha vida, não tinha pra onde fugir disso e eu nunca quis, queria ajudá ele com o bar, ficá ali, não fazê o que todo mundo esperava que eu fosse fazê e sim algo que viesse de dendimim de verdade. A gente normalmente se dava bem, nunca deixei faltar peixe nem caranguejo no bar, por mais que ele não quisesse minha ajuda. Disse que eu tinha que parar de catar caranguejo e catar estudar pra ser alguém importante.

Ele era mais meu pai que meu tio, na verdade, queria que eu tivesse algo de bom no futuro, algo mais certo que a época de desova e de cheia, mais certo que preço de restaurante chique que tem caranguejo pra gringo comer e compra por balaio e vende por unidade. Como ele mesmo disse, um pouco de ordem na vida. Eu disse que ordem nunca me serviu de porra nenhuma e tava muito bem sem ela, brigado. Ordem o caralho, vê se pode um negócio desse? Lembro que virei as costa e ele seguia falando, num sabe? Segui descendo a linha do trapiche procurando meu barco com os olho e tava ficando escuro já, mas eu sempre atraco no mesmo lugar num sabe? Sem meu tio falar nada, senti que tinham prendido a âncora em mim num sabe?

Ele tinha vendido meu barco.

Meu barco era mais que minha casa, num sabe? Assim como o manguezal, mais que meu trabalho, mais que lembrança de meu pai, num sabe? Era a única coisa que era minha mermo, que teve sempre lá desde que eu nasci. Acho que passei mais tempo lá ou com lama até o pescoço do que em qualquer outro lugar.

Perguntei se ele ia vender a porra do bar também, fosse pra jogá tudo fora jogasse tudo duma vez. A gente brigou feio, mesmo ele dizendo que não ia vender, que tava muito velho pra seguir outro caminho na vida, mas pra mim inda tinha tempo e tal e coisa. Saí dali puto da vida com sangue nos olho e sem ter pra onde ir, num tinha mais barco, num tinha mais nada.

Num tinha nenhum vizinho que ainda morasse por ali, só tinha placa de vendido em tudo que era portão e o nome da porra da companhia Biotech do caralho em tudo que era lugar, mas que porra.

Antigamente parece que a cidade respirava melhor, num sabe? Tinha um pulso constante, eu era guri mas lembro, tinha uma fedentina do cacete mas pelo menos dava pra ver que tava viva num sabe? Fedor só vem de coisa viva. Uma carcaça só fede do jeito que fede por causa dos verme comendo ela.

Tava tudo morto ou no mínimo morrendo. Indo pelo ralo e quem vivia na lama sabia melhor que ninguém, os xié tão indo embora a tempo já. Quem mora na orla que sabe da cidade de verdade. Quem se cerca de cimento e asfalto vive se iludindo num sabe?

Tinha que esfriá minha cabeça, num gosto de ficá brigado com meu tio por muito tempo, decidi conversá melhor com ele. Quando num sinto o cheiro do mangue sei que já tô longe demais de casa.

Ele num fez por mal, eu amava aquele barco, mas amava mais meu tio, num sabe? Refiz o caminho todo de volta sentindo o mesmo peso no peito, mais agoniado a cada quadra, pedindo pra deus pra chegá na esquina dele e enxergá as luzes do bar acesas e ver que tava tudo bem, que era besteira minha, pra gente poder conversá e ajeitar as coisa.

Já tava escuro, essa hora já era pra ter barulho de gente conversando, copo batendo em mesa, música de radiola que dava pra ouvir do outro lado do rio, carro estacionando por ali.

Num gosto de silêncio onde não era pra ter, tenho pra mim que nunca é sinônimo de calma ou paz, é sempre a Ordem das coisas juntando força pra te foder bonito. Bem horrorshow.

Vou andando segurando na parede do quintal, virando a esquina com os olhos, depois com o corpo e parece que meus pulmões e coração caíram no meio do trajeto.

Tava bem escuro, verdade, pelo menos o que eu achava ser escuro, mas consegui ver ali meu tio de joelhos no trapiche, uma Beretta roçando na testa dele e três urubus de terno preto do tipo caro pra caralho.

O homem que me criou e ensinou tudo que eu sei. E eu tinha brigado com ele por causa de um barco. Cadê a força pra gritar, pra fazer alguma coisa? A última coisa que disse pra ele foi uma porrada de desaforo, de tudo que era nome que me veio na cabeça e agora não consigo nem gemer de desespero, nem chiar, nem nada. Não tinha ar dentro de mim.

E aí meu deus? Quê que se faz numa hora dessa? Dava pra ouvir um dos putos falando alto como se tivesse ensaiando uma peça, fazendo um verdadeiro monólogo no ouvido do condenado e eu vendo tudo de longe.

“Essa área é vital para o que temos em mente quanto ao futuro dessa cidade, o mais puro e belo progresso urbano. Não é correto abandonar o progresso de tantos por causa de indivíduos isolados e seus apegos culturais. Isso é egoísmo, tente pensar em grande escala, o que é um único bar de merda perto de rios de asfalto prensado, pontes e viadutos majestosamente projetados? A cidade crescerá 50 anos em 5, como vocês não conseguem enxergar o propósito disso tudo? Vocês me dão nojo, vocês são lodo do mangue, não sabem avançar na vida nem entender o progresso mesmo que ele estando embaixo do nariz, são um bando de caranguejos imundos de lama que só conseguem andar para os lados.”

Os três urubus de terno preto e óculos escuros acenam levemente um pro outro com a cabeça e confirmam.  Vai ser agora.

Rezando pra tudo que era santo que eu conhecia pra conseguir mexer o corpo de novo, eu corri na direção deles.

Bora corpo, bancasse o valente a vida toda, me deixe na mão não. Deixo o chinelo pra trás, nunca consegui correr de chinelo no pé.  Era uns dez passos andando daqui até lá, num tenho certeza. Consigo jogar um deles pra dentro do rio com uma voadera no meio das costas, um mataburro bem dado do lado do queixo derruba o segundo e eu a cada segundo achando que ia dar jeito. Ia conseguir derrubar os 3 e tirar meu tio dali, que ajoelhado e amordaçado só assistia.

Fosse Cordel, fosse filme, fosse letra de música com som de rabeca velha de pinho em meio de baile de chão batido que fizesse tudo que é cobra deslizar pra longe eu tinha conseguido. Mas Lampião morreu, Corisco morreu, Chico morreu e meu tio também.

Tiro certeiro.

Senti um beliscão estranho na canela, como se fosse feito com dedos de aço em brasa, que torcia minha carne até atravessar me fazendo cair de joelhos no chão, fumaçando. O outro tiro foi na cabeça eu acho, parecia que tinham acendido meu cérebro que nem lâmpada velha cheia de mosquito dentro, mas dor num foi muita não. E ainda assim dava pra ouvir o puto falando.

“Lixo, vocês não são mais que isso no fim, então morra de uma vez porque os vermes tem fome”.

Me arrastei como dava, pra perto da água antes dele atirar de novo, e a água me recebe como se eu tivesse em brasa, esfriando o meu corpo e tirando o peso de tudo.

Conhecia aquela água e aquele rio desde que nasci ou pelo menos achava que sim. Minha vida e trabalho vinham dele, sabia o comprimento dele, a cor, o gosto, a densidade de cor já. E a profundidade. Uns cinco, seis metro no máximo.

Mas eu tava ali, afundando, afundando mais e mais. A espessura ia mudando junto, não parecia mais água, parecia aquela tinta viscosa de caneta Bic. Não tinha como brilhar, não entrava luz naquele caldo preto nem fodendo, mas mermo assim eu via um brilho. O pretume cobria tudo, eu não consegui sentir frio, dor ou até mesmo falta de ar. Não sabia o que fazer, morrer, viver, não sabia se tinham passado 2 mil ano ou 2 minuto. Eu era um corpo de lama ainda resistindo por algum motivo, uma consciência solitária no meio do caos.

Então ouvi uma voz.

É assustador estar na água com qualquer outra presença, e quanto maior for a presença maior o medo, mesmo pra mim que praticamente nasci no mangue. Não parecia vir de uma garganta, mas sim de um monte de caixa de som, que nem aquelas de carro de playboy? Que balança tudo quando passa?  E parecia só tocar dentro da minha cabeça.

Olá criança.

Só podia ser comigo, acho que nem dava pra duvidar de nada nesse ponto, eu já devia ter morrido faz tempo e ou isso era o inferno ou caminho pra chegar lá. Não dava pra ver porra nenhuma também.

Assim está melhor?

Duas luzes enormes se acenderam e deu pra ver tudo que era lixo de fundo do mangue e quanto meu corpo era pequeno no meio daquilo tudo, mas como eu disse, num dava pra sentir medo mais, nem quereno muito. Era como se fosse dois postes de luz meio caídos, um pendeno pra esquerda e outro pra direita, que nem olho de caranguejo, assim.

Tinha, que parecia, um milhão de raiz de tudo que era tamanho pra tudo que era lado, sem dar pra enxergar começo, meio e fim e cada ramo se desdobrava em mais mil.

Não tente entender, criança, esse não é o motivo pra se estar aqui.

Eu num sabia como responder nem o que responder, então só pensei:

Quem…? E antes de terminar o processo, aquilo respondeu.

Sou as raízes podres e as folhas mortas, os galhos emersos e frutas afogadas, os vermes com fome no meio do queijo, o fedor do mofo azulado que dorme nos pulmões, o lixeiro da cidade submersa, dentre outros nomes.

Olhe seu coiso, sou um homem simples, sempre fui. Diga logo que é que você quer comigo, me deixe virar lama de rio em paz. Todo mundo que eu conhecia morreu e num tô vendo ninguém aqui, deixe de historia comigo que eu quero é sumir em paz. Roubaram foi tudo que eu tinha, me deixe pelo menos o fundo do mangue.

Quem roubou o quê de você, criança?

Oxe, tudo caralho, roubaram tudo. Os urubus, eles roubaram. Cada playboy de gravata pagando caro pra comer siri e caranguejo em bar de hotel de orla. Cada companhia e empresa que expulsa gente de história do lugar como se expulsa rato de cozinha, cada empresário que força gente simples a vender sua casa, seu trabalho, oferecendo um contrato ou uma bala na cabeça e um corpo sem dedo nem dente na boca. Pra destruir tudo que é lugar com alma e fazer um monte de prédio espelhado, de destruir comunidade inteira de gente que só quer viver pra fazer loja pra turista sexual se sentir seguro. Roubaram minha cidade toda. Ainda bem que eu afundei antes de ver isso, me deixe de mão, deixe.

Eu paro de pensar em responder o bicho e as músicas de Chico começam a tocar na minha cabeça, o bicho ouvindo e escolheno como se eu fosse um juke-box. Não dá pra chorar direito debaixo d´água, mas lembro do meu tio limpando o balcão, de repente fechando os olho e apontando o dedo pra cima, dizendo preu prestar atenção que uma das preferidas dele ia começar a tocar. Roubaram ele de mim, roubaram foi tudo.

“Posso sair daqui, pra me organizar, posso sair daqui pra desorganizar, da lama ao caos, do caos à lama, um homem roubado nunca se engana”.

Gostei dessa, o bicho disse. Bela voz para o Caos foi a desse menino, bela mente, lembro bem quando essa voz se calou. O mangue lembra. Posso pegar de volta pra você criança.

Pegar o quê de volta?

Tudo. O bar, o cais, a orla, os rios, as pontes, o mangue, a cidade inteira. Posso sair daqui para desorganizar tudo, começar de novo, quebrar essa Ordem dos homens. E posso te levar junto. Se aceitares vir comigo.

Muito bonito essa papo todo. Mas me diga com quem eu tô falando então? Aliás, com o quê? Isso é o inferno? O céu? Tô falando com Deus por acaso? Pra ter esse poder todo, no mínimo algum santo que num é. Tentei disfarçar o medo e a raiva, acho que sem sucesso.

Depois de algum silêncio a voz do mangue, já sabendo da minha decisão, respondeu:

Caos não se define criança, apenas existe.

Quando nego pergunta se eu lembro da cidade, eu digo :

Rapai, lembrá eu lembro demais, mas lembro melhor da cara dos urubu engravatado e dos playboy tudo se afogando na água barrenta enquanto a cidade nova e as casas caras afundava tudo debaixo das garra do bicho do mangue.

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4 Comentários

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4 Respostas para “Ex Lutum…

  1. MERMÃO, TO MUITO DE CARA COM ESSE TEXTO!!!!!!!!!!!!!!!!! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

  2. Meu amigo, isso é simplesmente foda. Como recifense, estou de boca aberta.

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