Cliché Negatif

Ela se veste de acordo com um esquema complicado de combinação de cores e dias da semana, querendo equilibrar o guarda-roupa de costume e o objetivo do dia, que consistia em passar despercebida em meio à multidão.

Pega uma lata de achocolatado em pó e desce as escadas em direção à rua. A lata, já previamente preparada, possui um furo milimétrico quase imperceptível na parte externa e na parte interna, papel fotográfico virgem. No fundo, um pássaro preto de asas abertas desenhado com marcador permanente, para marcar sua posse.

O tipo de fotografia preferido dela, Pinhole, consiste em expor o papel fotográfico por um longo período de tempo, muito maior que o tempo de exposição que uma câmera normal usa pra registrar o momento, sendo assim tudo que é móvel ou efêmero fica de fora. No lugar preferido dela, o metrô, os passageiros comuns e os trens são meros espectros, imagens borradas que mal podem ser distinguidas entre si; e a estação, os pilares, as escadas e principalmente os personagens daquele lugar, artistas, moradores de rua, pedintes e velhos que desconhecem o motivo de estarem ali, ficam em destaque, ficam registrados no filme como algo perene, que existe além do tempo.

Em uma das fotos, já havia registrado duas pessoas se abraçando com clareza tal que indicava que o abraço deve ter durado horas e ela não sabia o motivo ou a história por trás disso, mas havia sido registrado, para sempre. Ela amava essa cumplicidade, essa sensação de segredo compartilhado por ela e seus modelos, de tudo que valia a pena, que não era parte da correria absurda do cotidiano, que exigia tempo e paciência, ficar guardado por ela, em seu precioso álbum.

É uma sensação boa, que faz com que ela se sinta poderosa, uma deusa que tem o poder de eternizar momentos, eternizar pedaços de existência, onisciente e se assim quiser, onipresente.

Seus amigos, parentes e até mesmo professores lhe dizem constantemente da qualidade de seus trabalhos e não medem elogios ao seu olho artístico. Algo que ela ouviu a vida toda, o quanto seus olhos eram fantásticos, originais e invejáveis.

O quê muitos não dariam por olhos assim.

Ela desce as escadas do metrô, tentando absorver aquela atmosfera, nada resume o conceito do que é “urbano” como o metrô, nem ruas ou edifícios. Vamos adentrar no subterrâneo em vermes de metal, sem ver a cabeça do verme, sem saber quem conduz, sem precisar falar com ninguém, sem interação direta, todos ocupados com suas vidas fingindo que não compartilham o mesmo espaço, o mesmo ar.

Urbano, pura e simplesmente.

Todo esse entra e sai, essa disposição de colméia, a correria contida do bicho humano moderno, essa pressa de chegar a lugar nenhum, ficava de fora. Fora da captura dos olhos dela.

Os rostos, os olhares focados em jornais e celulares com medo de cruzarem com olhos de outrem, os passos apressados e os encontros de ombro e empurrões sem desculpa, os pedintes com textos decorados e os artistas incompreendidos vítimas do sistema e da auto-piedade, tudo ficava de fora.

Seus olhos queriam outra coisa. Queriam os pôsteres de bandas colados uns sobre os outros, falando de apresentações baratas em casas de show minúsculas, as inúmeras camadas de anúncios de prostitutas em papel azul e amarelo com prefixos de telefone que não existem mais, os amontoados de cadáveres de insetos nos cantos das lâmpadas fluorescentes e os desenhos formados pelas manchas de urina de cães e bêbados.

Queriam se livrar do imediato, do efêmero, de tudo que dura segundos ou minutos. Separar o clichê negativo dos momentos repetidos minimamente. Ela dizia para as pessoas que não acreditava em talento inato, que a aptidão artística e sensibilidade para com a fotografia eram fruto do meio e dos estímulos criativos que seus pais a haviam submetido, porém guardava para si e mais ninguém, certo orgulho de revelar, sob aquela pesada luz vermelha, os filhotes de seu talento com a essência da cidade.

A manipulação do instante, da capacidade de alongar os momentos com o tempo de exposição da câmera, era como criar mundos paralelos, outras dimensões, dependendo da iluminação, da atmosfera, das runas de luz criadas pelos movimentos agitados de um cigarro indo de lá pra cá nos dedos de um fumante, os seres humanos distorcidos em borrões de 8 pernas e 3 cabeças, como se cada foto revelada fosse um relance da epiderme do mundo. E ela queria ver tudo, ou pelo menos de tudo um pouco.

Ela adorava o metrô, ficava tanto tempo ali que já havia criado intimidade com o lugar, as estações e lances de escadas com caricaturas de gente fazendo espetáculos em miniatura já eram parte da sua definição de normalidade. E tinha um bom motivo pra isso, suas exposições eram sucesso absoluto de público e crítica, dezenas de revistas famosas usavam suas obras em anúncios milionários. Numa era de tendências hippies-bucólicas, ela conseguia fazer o urbano não ser clichê, de um jeito que ninguém conseguia.

Depois de deixar a lata nova, recolher as antigas e memorizar os melhores locais pra posicioná-las, ela volta pra casa se sentindo satisfeita, como que de estômago cheio. Recosta a cabeça no banco menos sujo do vagão e tira uma última foto, com as retinas, dos elementos da cena. Fecha os olhos enquanto a estação e as luzes vão ficando para trás.

Ela acorda no escuro, tem 5 anos de idade e acaba de chegar de um pesadelo para entrar em outro. Ela sente a cama e ouve barulho em algum ponto distante, mas de certa forma abafado, distorcido de uma forma sinistra. Sua mente não consegue calcular direito a familiar distância entre a cama e a porta fazendo com que ela vá em direção ao armário, ela sente a maçaneta e abre a porta de forma brusca tentando vencer o próprio medo, estica as mãos procurando os pais e encontra formas estranhas, macias, sem vida, que parecem querer cair sobre ela. A menina começa a gritar e chorar, correndo na direção oposta, achando a porta do quarto fechada, coisa que não era costumeira na casa, todas as portas costumavam ficar abertas, ela não conseguia entender o motivo daquilo, estar presa ali na escuridão sem saber direita e esquerda, sem saber nomes e formas, só sentindo medo. Em poucos segundos a luz é acesa e seus pais a encontram chorando num canto desesperada, com as portas do armário abertas e muitas roupas no chão. Numa reunião de amigos, adultos rindo e bebendo, haviam deixado a filha dormindo com a porta fechada para que o barulho não a acordasse. Primeira e última vez.

Ela acorda no claro, 22 anos de novo e os elementos da cena mudaram enquanto ela não via, mas ela sabe exatamente onde está. Ela vê o nome da estação passar rápido e sumir enquanto o trem acelera. Quase nada foge aos seus olhos.

Exceto um novo passageiro no banco a sua frente, que a julgar pelas roupas parecia ter recém saído de um poço de piche, no colo um capacete de construção e nas mãos uma lata. Tinha algo nele, ao mesmo tempo familiar e alienígena, como se fosse um ser literalmente de outro mundo, que não pertencia de maneira alguma aquele lugar, mas era como se ela já soubesse disso, inconscientemente. Primeiras impressões sempre são estranhas.

-Isso aqui é seu? Ele oferece a lata a ela apontando para as outras com o olhar.

-Acho que sim, obrigada. Ela repara nos dedos curtos e grossos com as unhas literalmente quadradas e imundas enquanto pega a lata das mãos dele, o homem era muito baixo, provavelmente uns 20 centímetros a menos que ela, e muito forte, atarracado era a palavra que ela havia escolhido pra descrevê-lo em sua mente. Uma pessoa pequena, mesmo dentro de sua mente tinha medo de usar o modo de descrevê-lo não politicamente correto, um “anão” por assim dizer.

– É algum tipo de experiência? Vi muitas dessas caixinhas pela linha inteira. Ele fala com um sorriso estranho, meio que escondido pela barba, que não a deixa saber se a pergunta era séria ou uma brincadeira.

– Elas são uma espécie de máquina fotográfica caseira, mas sem tempo determinado pra “bater” a foto, então dá pra deixar por aí e ver o que ela capturou com o tempo. Ela fala com medo de ser técnica demais e parecer querer mostrar superioridade ou arrogância.

-Então são como se fossem seus olhos espalhados por aí. Ele usa aqueles óculos de soldador com lentes de plástico grossas e abas extensoras de poliuretano pra proteger os olhos das fagulhas, tornando impossível ver nos olhos dele algo que não fosse reflexo distorcido das luzes do vagão.  Devia trabalhar reparando as linhas internas, as costelas do metrô.

– Acho que sim, de certa forma.

-Essa aqui tava na intercessão 0-D1 Norte. Mas não tem nada lá. Nem luz.

-A luz do vagão passando é suficiente pra captar alguma coisa, dependendo do tempo de exposição, mas aonde mesmo o senhor disse que achou?

-Na intercessão 0-D1 Norte. Se a moça pensar na planta do metrô como uma árvore, a 0-D1 seria a base da árvore entre as raízes e o tronco.

-Eu não lembro de ter colocado nenhuma lata lá.

-Não estou brigando com a senhora, só avisando que andar por ali é perigoso. Nem a equipe de manutenção gosta de passar por ali, é o ponto mais fácil de morrer eletrocutado ou esmagado em toda a linha.

-Sim, eu conversei com a direção e com a prefeitura antes de começar o projeto, anotei os riscos e lugares mais seguros.

-Claro, claro. É que por falta de comunicação já perdi dois homens naquela parte; sem falar nos mendigos que passam por ali sem que a gente saiba. Sempre sobra pra minha equipe. Não tem nada de bonito lá. Nada que queira ser visto.

Algo no tom da fala dele, apesar de casual e simpática, parecia de alguma forma, como que em frequência escondida em música, algo subliminar, começar a ter um tom ameaçador. Como quem avisa algo sinistro tentando não assustar.

Ela sentiu algo, algo que não viu com seus olhos, com perspicácia e sim, talvez instinto. Ele parecia não entender porra nenhuma de fotografia e ao mesmo tempo saber muito mais do que ela podia imaginar, coisas profundas e velhas, literalmente, que precisam ser cavadas pra serem vistas. Ela precisava descer. Sair daquela conversa.

Não era o ponto de descida dela, coisa sabida já por cores e sons, antes da voz do metrô anunciar. E a última coisa que ele diz, de um jeito como quem fosse sumir pra sempre no oco dos mundos.

-Estranho pra hoje isso, foto de tudo que é coisa em tudo que é canto, talvez deixe teu trabalho mais fácil ou mais difícil, quem sou eu, de lá do corredor de pedra no meio do breu total pra dizer algo pra senhora, mas…

-Brigada, tenho que descer aq…

-Algumas visões tem preço.

A luz dos vagões meneou e ela teve a impressão de ver no rosto dele naquele instante, algo que não parecia humano, mau sinal. Ela estava perdendo o controle de si e precisava sair dali o mais rápido possível. Sem conseguir deixar de manter contato visual, o instante foi se mantendo o mais desconfortável possível e ela sentiu a pressão do sangue descer junto com as luzes da cena a cada passo que dava para trás e para longe do vagão. A porta fecha e as luzes se apagam por completo.

Das trevas, ela volta à consciência com um gosto familiar na boca. Indesejado e até odiado, mas familiar. Coca. Antes de pensar em reclamar ela refaz a situação inteira e lembra que não tinha nenhum amigo dela por perto e nenhum amigo ou mesmo conhecido seu lhe daria Coca-Cola. Ela ignora a multidão de olhares curiosos, inúmeros pares de olhos focados nela, e agradece ao gentil desconhecido insistindo que está bem e tem condições plenas de seguir sozinha, apesar de reclamar mentalmente do que para ela foi praticamente uma tentativa de envenenamento.

Ela pensa em como a marca é uma certeza em quase todas as mesas de todos os restaurantes e padarias ou lanchonetes, quase nunca uma opção. Se ela pusesse suas Pinhole de exposição prolongada nas mesas desses restaurantes, as garrafas e latinhas de Coca-Cola sairiam muito mais nítidas nas fotos do que as pessoas. As famílias crescem; diminuem; mudam; os namoros acabam; os amigos se afastam; os momentos se perdem e a marca fica; inabalável.

Um pensamento desagradável e desolador. Ela tenta afastar com uma água mineral qualquer, mas em vão, aquele ranço de mistura de tudo que é produto químico escroto junto, fica coçando na garganta, como muco podre, que nem doença. Pra quem tenta ser saudável, ter controle do que come, é pior ainda. Ela se dá conta de que não bebia Coca desde os 14 anos.

Ela chega em casa e imediatamente se sente melhor. Dizem que a casa de alguém reflete seu interior e a dela não poderia ser mais reflexiva.

Controle. Algo realmente importante, aquilo que intimamente ela não compartilha com ninguém, mas que era sua verdadeira fonte de prazer. Ter e manipular seu controle sobre as coisas e ser elogiada por isso. Nos elementos que compõem uma foto, ou na maneira como se veste, como escolhe seus namoros, como organiza seus livros na prateleira.

Tudo.

Ela dispõe as latas de acordo com as estações em que estavam dispostas e na ordem que serão reveladas, checa seus e-mails e se prepara pra tomar banho.

Olha o corpo nu no espelho contando as runas tatuadas nas costelas, como se esperasse que alguma tivesse caído no meio do caminho, entra no Box e liga a água gelada já embaixo do chuveiro, por gostar de sentir a temperatura da água mudando. O dia em questão era dia de lavar o cabelo, ela de olhos fechados, pega o frasco, sempre no mesmo lugar e começa a lavar os cabelos.  No meio de um procedimento automático, o cérebro fica livre pra divagar com mais facilidade.

Ela sabe de cor os locais de todas suas câmeras, sabe a hora de recolhê-los em relação ao fluxo de trabalhadores do metrô, sabe quase que inteiramente a planta baixa das estações. Pra fazer esse projeto de fotografias do metrô, pago por uma iniciativa da prefeitura, ela teve permissão direta da administração pra transitar por ali.

Então de onde diabos veio aquela lata com o homem do vagão? Ela tinha posto todas em ordem e não tinha nada sobrando.  Mas a lata era idêntica às dela, o mesmo produto, lata de Nescau lixada, as mesmas anotações com a letra dela e o mesmo corvo desenhado no fundo. Alguém poderia estar querendo brincar com ela? A esse ponto, de imitar cada detalhe de sua arte? Ninguém a conhecia intimamente e profissionalmente a esse ponto. Ela se sentiu completamente exposta naquele momento, como se cada canto de parede e cada janela escondesse um infinidade de pares de olhos curiosos buscando vigiá-la em segredo.

Um pensamento perturbador, mas não, aquela lata simplesmente não devia existir. Ela devia ter esquecido ou confundido os números, a explicação racional é sempre a mais provável.

Ela se veste e sai em direção ao quarto de revelação de olhos fechados enquanto enxuga os cabelos. Não há perigo de derrubar algo ou tropeçar em alguma coisa, cada objeto tem seu devido lugar e se retirado sempre retorna pro mesmo, ela faz disso do mesmo modo que um cego se guia pela memória e organização.

Ela tinha um orgulho especial do seu quarto de revelação que montou sozinha como uma cientista maluca ou uma vilã de filmes de espião, gostava do fato de que quando as pessoas passavam na rua e viam as janelas cobertas com papel refletor e alguns escapes de luz vermelha sabiam que naquele apartamento morava uma fotógrafa.

Apesar disso a revelação era a parte que ela menos gostava, mas pelo processo em si, não os resultados.  A pressa da excitação de ver o resultado tomando forma era um descontrole que ela não apreciava de modo algum em si mesma e a decepção de fotos abortadas por alguma obstrução ou white-out tampouco. Nada que alguém que usa digital saberia, o imediatismo das digitais era algo tão mundano pra ela, tão grosseiro. Ela banha foto por foto no Dektol, passando pelo stop e terminando com o fixador. Mas as imagens da lata desconhecida tinham ficado muito granuladas, estranhas, não dava pra distinguir direito o que as imagens diziam. Formas e cores se sobrepondo como microfilmes lisérgicos dos anos 60. Como se alguma parte daquela linha do metrô abrigasse outra realidade.

As outras tinham ficado belíssimas, nítidas e dentro do esperado, só de bater o olho ela sabia que podia esperar prêmios e contratos novos. Seus olhos não erravam nunca.

Depois de organizar todos os materiais e pendurar as fotos no varal, ela lava as mãos e deita a cabeça no travesseiro, pensando em tudo que seus olhos viram no dia como pedaços de um quebra-cabeça, algo que só podia ser montado por ela. A luz certa, na hora certa, com os componentes certos podiam dizer tudo sobre uma cidade, sobre um povo, sobre uma época inteira, um pedaço de tempo que não ia se perder no fluxo do mundo, que tinha sido resgatado por ela.

Ela tinha comido, separado o material para o dia seguinte, feito tudo que tinha pra fazer, devia descansar os olhos e dormir um pouco. Um merecido repouso, mas tinha uma coisa impedindo, a curiosidade fazia sua cabeça parecer grande e desconfortável como se estivesse tentando dormir com um cone de trânsito na cabeça, todas as posições eram incômodas. Seus olhos ainda tinham fome. Precisava saber.

No seu reino vazio, sem prestar contas a ninguém, ela levanta e decide voltar ao metrô. Tinha um tipo de ciúme naquele lugar da cidade que a fazia ficar inquieta. A unha de um dedo feria a de outro e o canto do lábio inferior era mordido constantemente até a parada do vagão.

Lembrava-se de coisas que seu ex-namorado havia escrito; pretenso poeta que era; pedaços de textos avulsos que ele dizia terem sido feitos para ela, mas ele era um descontrolado e ela nunca sentiu muito por ele, não mais que uma admiração passageira, alguns poucos interesses em comum.

“A rainha dos contempladores, das entranhas do mundo fez sua casa e observava tudo que havia, por todos os lados em todas as horas, os corvos em seus ombros comiam nomes e formas e seus olhos sempre tinham fome”.

Esse pedaço de poema em especial chamava a atenção dela naquele momento, os trilhos e os “entreestações”, os bolos de cabos de força emaranhados entre si parecendo se mover como uma coisa orgânica realmente davam a ideia de serem as entranhas do mundo. Os corvos eram suas câmeras escuras e seus olhos estavam sempre buscando mais. O descontrolado tinha acertado alguma coisa pelo menos. Vivia falando de teorias da conspiração absurdas e dimensões paralelas, mundos dentro de mundos e coisas do tipo, coisa de quem lê ficção científica demais e essas bobagens.

Fotografia era algo muito mais tangível pra ela, algo muito mais interessante e maduro. Transformar o cotidiano e mundano em arte, ter o controle daquilo, isso sim era algo admirável.

Seu monólogo interno é interrompido pela sensação de estranheza das estações, as pessoas que trabalhavam ali, muitos já conhecidos seus aparentemente haviam sido substituídos por pessoas completamente diferentes.

Não dava pra dizer com certeza, aos olhos dela, os passageiros eram de um jeito peculiar, passageiros normais, mas não da mesma época ou nacionalidade dela. Todos pareciam estar vivendo na Europa dos anos 60, os cabelos, os cigarros, as roupas. Tudo pertencia à outra realidade que não a dela. E o vagão estava frio, frio como nunca antes esteve no mais frio inverno possível das cidades brasileiras da região sul. Frio como o inferno.

Algo no ar fazia arrepios seguidos passarem pelo seu corpo. Todo ser vivo tem a capacidade de sentir uma ameaça chegando, sentir antes dos outros sentidos, antes da audição e do olfato, antes da visão. Parecia que cada passageiro, cada um deles tinha os olhos colados nela. Como se ela estivesse nua.

Era uma sensação completamente aterradora, ela decide mudar de vagão, mas o clima hostil parecia continuar. Felizmente a estação se aproximava. Ninguém além dela parecia querer descer ali, além de abaixarem as cabeças, se encolhendo de medo e prendendo o fôlego, o vagão inteiro fazia força pra fechar os olhos e algumas pessoas entrelaçavam os dedos orando baixo. A cada passo pra fora do trem as pessoas saíam do caminho dela como se ela tivesse lepra.

Era como desembarcar num pesadelo. Papéis rasgados no chão inteiro, vidro quebrado em qualquer banca de cigarro ou anúncio luminoso, uma em cada três lâmpadas estava funcionando e o grafite nas paredes.

Ela nunca tinha visto grafite parecido, era como se os mais talentosos artistas dos piores sanatórios do mundo tivessem se encontrado para decorar o lugar. Famílias inteiras, mães com carrinhos de bebê, velhas senhoras e crianças, todas sendo perseguidas e retalhadas por todos os tipos de monstros e demônios, cada bueiro, porta e buraco parecia ter dentes e garras e devorava os passageiros em pânico. As cores vibrantes do vermelho pareciam querer sair das paredes e pular em cima de quem tivesse vendo. Ela podia ouvir seu coração batendo como se quisesse pular fora do peito.

Ela tira fotos quase trêmulas daquilo tudo, dizendo pra si mesma que é apenas arte. Arte urbana quase sempre é agressiva, instigadora, melhor assim.

Ela desce as escadas e ignora os avisos de perigo, seguindo a linha do metrô. Sem grafite, mas com pixações comuns, daquelas que são somente assinaturas e recados numa língua que só os pixadores entendem. Marcação de território.

E mesmo essas pareciam assustadas, apressadas, com medo de estar ali. A escuridão só crescia e a partir de um ponto era puro breu. Ela tinha que usar a câmera pra enxergar. O lugar não lembrava em nada as linhas que ela tanto conhecia, parecia um cenário pós-guerra nuclear, as paredes imundas e esburacadas, ratos por toda a parte e um cheiro nauseante. Junto com o som cada vez mais forte das batidas do coração, crescia um ruído estranho, abafado, como um monte de gente chorando ou gemendo, um ganido parecido com o de cachorro ferido.

A visão noturna já não funcionava mais, não havia absolutamente nenhuma fonte de luz ali. Ela precisava usar os flashes da câmera pra poder andar. Tudo dizia pra ela voltar, dar as costas imediatamente e voltar o mais rápido possível, cada sentido dela apitava desesperadamente pra sair dali, menos a visão.

O que quer que houvesse no fim da linha, ela precisava ver, ela tinha que ver nem que morresse por isso, já tinha chegado tão longe. A visão entrecortada pelos flashes só piorava as coisas, no segundo sem luz ela sentia coisas passarem por ela, sentia movimento, mas na luz não via nada. Pilares quebrados e vigas torcidas. O som da sua respiração fazia eco ali, por mais que ela tentasse controlar. Olhando para a câmera ela via criaturas humanóides ao seu redor, sem olhos, mas com dentes afiados. Ela abafa um grito com a mão e percebe que não podem vê-la, mas sabem da sua presença.  A ponta do tênis chuta alguma coisa macia e ela aponta a câmera para o chão.

Ela morde a parte da mão embaixo do polegar o mais forte que consegue, tapando o pânico na linha da garganta antes que ele saísse. Pedaços de membros humanos de todas as idades cobriam o chão todo.

Ela pega uma pedra, joga a sua frente e começa a correr na direção contrária. Como se o próprio inferno a seguisse. Os poucos minutos até chegar à estação parecem durar anos. Para sua surpresa e alívio, o velho anão do vagão parecia esperar por ela na plataforma. Ela se joga nos braços dele e começa a balbuciar, despejando tudo que tinha visto e pedindo pra saírem dali o mais rápido possível, tentando não engolir as palavras e puxando ele ao mesmo tempo.

Ele abre a porta de uma das cabines de controle e mostra um atalho pra superfície. A rua vazia e suja da madrugada nunca tinha parecido tão confortadora.

– O que aconteceu senhora? O que a senhora viu?

Ela tenta falar calmamente, mas não consegue, mostra as fotos da câmera apontando ofegante e entregando nas mãos dele.

Ele passa, foto por foto, dos grafites, das pixações, do túnel, das coisas e dos restos humanos. Não vê nada. Apenas um túnel deserto fechado pra obras. Equipamentos esquecidos ou abandonados e corredores vazios.

O suor frio começa a brotar do corpo dela, ela se desculpa, agradece o homem, ri da sua bobagem, pega um táxi e vai embora. Liga para o seu contato na polícia e na administração do metrô, explica toda a história racionalmente, sem exigir nada, ressaltando que pode ter sido um surto de pânico da sua parte, mas que era bom checar em todo o caso. Tão racional e controlada quanto possível. Agradece e desliga. Paga o táxi e entra em casa.

Revê as fotos no computador e constata que não havia absolutamente nada lá. Um ataque de pânico, ilusões da mente assustada. Ela procura na internet os telefones de um bom psiquiatra e um bom psicólogo, pra marcar uma consulta tanto quanto antes. Sem desespero, é o stress da vida moderna, das pressões da vida adulta, todo mundo passa por isso. Ela andava trabalhando demais.

Sim, era isso, ri sozinha, racionalmente de sua própria bobagem.

Ela se deita na cama e apaga a luz.

Ouve uma respiração que não a sua no canto do quarto. Ela liga a luz, grita e pula da cama, joga tudo ao seu alcance na direção da coisa, sem acertar nada. Ela engatinha para o canto do quarto com uma tesoura comprida na mão e um pedaço de vidro quebrado na outra, não vai se entregar sem luta. A coisa chega perto dela sibilando e babando, calmamente.

-Ss… Sssenhooraa. A coisa para a dois passos de distância e se ajoelha, como se fizesse reverência diante de uma rainha.

Ela vê as fotos granuladas da lata desconhecida caídas no chão e agora todas elas pareciam completamente nítidas, de um jeito que fotos de Pinhole nunca ficam, a não ser que o momento em questão durasse uma eternidade. Milhares das criaturas horrendas em círculo, fazendo todo o tipo de atrocidades, gente morta em pilhas enormes, carcaças penduradas e ossadas nos cantos, cada rosto que permanecera intacto carregava uma expressão de horror absoluto. Como uma festa no inferno.

No meio disso tudo, claro como o dia em cada foto, numa posição central, privilegiada e até louvada por todos os monstros, inegavelmente, ela mesma, com um grande sorriso de satisfação, observando e controlando tudo.

 

 

 

 

 

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