Nighthawks

Preciso fazer algo. Retomar o controle das coisas, tê-lo de novo em minhas mãos.

Preciso de um cigarro. Pra quê poupar os pulmões, não é mesmo?

Dois minutos para a meia-noite, a melhor hora pra andar pelas ruas, espiar o lado b da cidade, como se a gente olhasse por trás das cortinas de teatro do mundo, ou tentasse remontar a intensidade de uma festa a partir dos restos de balão estourado e vômito no chão. A cidade de dia é completamente impessoal, todos são gado, colônias de formigas espaciais estocando grãos e se movendo em massa pra lá e pra cá pra aproveitar a luz do sol da melhor maneira possível.

As formigas saem de casa, trabalham, mastigam a comida, trabalham, voltam pra colônia e dormem.

De manhã você não tem um somente um nome, você é sua carta de identidade, seu CPF, seu número da carteira de trabalho. Você tem que estar em algum lugar, ir a algum lugar específico e fazer algo específico pra ganhar dinheiro e depois disso voltar para um lugar com pessoas esperando por você. A manhã tem uma agenda estrita e não permite falhas, é o que coloca o mundo nos eixos.

De madrugada tudo fica diferente, supostamente seus deveres já foram cumpridos. Sem precisarmos parecer ocupados ou atrasados, estar fora de casa é uma opção, não uma obrigação e cada mísera alma que persiste nas ruas fica absolutamente fascinante. Você é uma carta em branco, pode ser quem quiser e como quiser.

Tem um café árabe que fica aberto essa hora, o único desse bairro que vende minha marca de fumo preferida, cheio de pessoas invertidas, lixeiros, frentistas, vigilantes, enfermeiras e prostitutas saindo do turno, indo dormir com o fim da noite. Todos que são também invisíveis pra cidade matutina.

Exceto por quem usa uniforme, não dá pra saber quem é o quê muito bem, mas todos dividem o pacto noturno, aquela cordialidade de quem sabe o cansaço do outro.

Hoje excepcionalmente vazio, exceto por outro notívago e uma moça linda de vestido vermelho.

Começo a enrolar o cigarro e cumprimento os dois com o olhar, ele responde vagamente do outro lado do balcão, ela sorri.

-Boa noite, ela diz.

-Boa noite.

-Me arranja um cigarro desses, cowboy?

-Pode ficar com esse, cowgirl.

Ela agradece sorrindo, é um daqueles sorrisos autênticos, de dentes um pouco tortos, muito mais bonitos do que os de quem tem os dentes perfeitos. Enquanto passo o cigarro pra ela, os dedos se tocam rapidamente e sinto uma bobina de tesla ser ligada na minha coluna.

-Você já sabe o que vai pedir?

– Um café e kafta no prato. É o que eu sempre peço.

-Kafka no prato? Não parece muito bom, ela diz sem a certeza de que eu vou entender o trocadilho de mal-gosto.

-Kafta. É um prato árabe. Kafka no prato deve ser algum besouro muito grande, mal passado e mal temperado.

-E um contrato de 50 páginas, com várias cláusulas pra assinar, revisado e autorizado pelo seu pai, que não fala direito com você há uns quatro anos.

Ambos rimos devagar, de maneira relaxada, como quem ri de algo dito por um amigo íntimo ou amante.

Ambos lemos Kafka em algum ponto da vida, ambos gostamos de fumo suave da Red Apple.

Ambos estamos aqui nesse momento, numa rua vazia de uma cidade dormindo. É estranho, esse tipo de coisa não acontece na vida real, só numa tela, normalmente com o Gregory Peck e a Audrey Hepburn, essa sintonia imediata com um completo estranho.

Conversamos por minutos que parecem horas e a conexão é muito clara, algo totalmente espontâneo e genuíno de uma forma que nunca experimentei na vida.

Eu podia tomar o controle e estender esse momento, preservar ele numa espécie de foto ou pintura, mas esse tipo de coisa nunca funciona como a gente espera.

-Preciso ir, foi bom conversar com você, eu não ria assim há séculos.

-Você precisa mesmo ir agora? Tento usar um tom que não soe patético e não pareça desesperado.

-Infelizmente sim. Ela levanta, me dá um beijo na bochecha e caminha em direção à porta. O som dos saltos dela pelo piso ecoa no café inteiro.

-Posso pagar. Digo já quase que imediatamente arrependido.

O som dos saltos cessa subitamente e sinto o suor frio descer pelas costas. A última coisa que eu queria era ofendê-la, não sei o que me passou pela cabeça.

-É isso que você acha que eu sou? O sarcasmo na voz dela deixa a situação mais confusa.

-Você não está usando uniforme de enfermeira, então eu não quis presumir nada… Desculpe-me, não sei por que falei aquilo.

-Por quê não combinou logo o programa então? Pra quê perder esse tempo todo jogando conversa fora?

-Eu não quero um programa. E conversar desse jeito não é perder tempo.

-Queria namoro, por acaso? Não importa se eu for…

-Não, não importa.

O quarto é pequeno mas eu gosto assim, me lembra o centro de comando de alguma forma.

Ela levanta e liga o rádio. Bill Halley and His Comets- Rock Around the Clock começa a tocar baixinho.

São os últimos minutos da noite.

-Posso te contar um segredo? Ela diz, sorrindo que nem criança tentando esconder traquinagem.

-Claro.

-Menti pra você, não sou prostituta, só queria ver até onde ia dar isso tudo, nunca fiz isso antes.

-Foi divertido? Puxo-a pra perto e a abraço com força.

-Foi. E você? Tem algum segredo pra me contar?

-Tenho. O mundo vai acabar amanhã. Hoje na verdade, assim que o sol nascer. Foi criado um programa analítico de vigilância pra monitorar os russos e ele ganhou consciência própria, perderam o controle. Quando o sol nascer o programa acionará todos os mísseis nucleares intercontinentais e os russos vão retaliar na mesma medida. Não vai sobrar nada. Supostamente alguém deveria convencer o programa a cancelar o ataque, o melhor especialista do nosso lado junto com o melhor dos vermelhos, mas o nosso não está lá.

-Por quê?

-Ele preferiu passar num café que gosta e pedir seu prato preferido, acabou encontrando uma mulher linda e passou o resto da última noite com ela, sem se arrepender de nada.

O rádio toca Jerry Lee Lewis- Great Balls of Fire.

Ela ri alto como quem ouve uma piada, se levanta, aumenta o som do rádio e começa a dançar, na luz difusa do amanhecer rosa que invade o quarto.

Nighthawks_by_Edward_Hopper_1942

Nighthawks por  Edward Hopper

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2 Comentários

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2 Respostas para “Nighthawks

  1. maravilhoso, texto forte e criativo, em alguns momentos (não apenas pela ilustração que indubitavelmente reforça isso) parece ter sido criado como uma tradução literária do quadro do Edward Hopper. Parabéns

  2. Republicou isso em aztecaincaemaiakovskie comentado:
    recontra bueno

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