Tempos de chumbo.

Se você me perguntasse, anos atrás por que não existem bons super-heróis brasileiros, eu ia responder, aliás, ia encher o peito e falar que não tinha gente séria o suficiente pra fazer ou compenetrada o suficiente e provavelmente ia falar que o ‘’jeitinho brasileiro’’ estraga com a inocência e a ingenuidade inicial que o personagem precisa ter pra vestir uma malha com uma cueca por cima e uma capa nas costas pra combater o crime.

Ah, e falando nisso, me refiro aos super-heróis brasileiros, nascidos no Brasil, cuja história se passa aqui mesmo, nos Rio de Janeiro, Maranhão, Pernambuco e Paranás da vida. Nada de Quebra-Queixo, Capitão Ninja, Judoka e Capitão 7. Nenhum desses deu certo, tipo Batman ou Homem-Aranha, comercial ou simbolicamente. O que funciona aqui é Mônica e charges engraçaralhas metidas a besta. Temos tirinhas de qualidade, claro, temos Laerte, Angeli e todo esse povo. Mas não tô falando de Bob Cuspe ou Overman, ok?

Tô falando de algo foda, algo que inspirasse as pessoas simplesmente por ser foda, sem uma dose obrigatória de sátira. Por que quase tudo que é feito aqui tem que ser “espertinho” ou “malandro”?

Alguns anos atrás, diria que gente como eu devia fazer quadrinhos ou cinema. Fabricar heróis, talvez, que isso não é exclusividade de primeiro mundo, o México faz isso com a Lucha Libre e o cinema. Não dá pra ter algo parecido aqui? É tão irreal na mente do brasileiro conceber alguém que faça algo extraordinário? Nossos heróis acabam sendo pessoas que fazem atos ordinários como não furar uma fila ou não contratar um sobrinho e sim um profissional treinado? Sim, eu sei o quão ingênuo e inocente isso soa, mas é exatamente esse o meu ponto.

Aliás, como eu disse antes, era o meu ponto. Anos atrás.

E por favor, não me venha com Capitães Nascimento. Aliás, é aqui que nossa discussão fica problemática. Sou um cara criado pelos anos 90, alimentado pela cultura pop que nem um pato ou ganso é alimentado pra fazer foie gras.

Então eu não vivi a ditadura, o máximo de dor física que tive que suportar foi uma desarticulação do joelho e alguns pontos por bater de cabeça na parede em uma aula de educação física por causa da má combinação de Tênis Rainha e piso emborrachado de escola que quer impressionar pais médicos e desembargadores. O máximo de repressão que sofri foi de alguns professores que não gostavam da minha cara e não aprovavam o fato de eu usar brinco desde muito novo e ser homem. Mas o fantasma disso tudo ainda habita nossas vidas, de formas que nem mesmo sabemos.

Então, o que quero dizer é que um herói fascista, principalmente no nosso país, não é um herói, mas sim um vilão, do pior tipo.

Quero dizer, ser criança é absorver, imitar e fazer escolhas. Não ia gostar de ver um filho ou filha usando uma boina preta e emulando enfiar cabos de vassoura em seus amiguinhos amordaçados.

Lembro de sair horrorizado de aulas de história contemporânea do Brasil, quase depressivo até, com as coisas que eram ditas sobre as torturas militares, por professores que haviam de fato vivido aquilo muito mais na pele do que em livros e relatos, do quão surreal e distante aquilo parecia, de como o ser humano é inventivo ao machucar outrem. E de dar graças a deus por aquele sentimento horrível não durar mais de uma semana.

Mas por mais distante que fosse o horror da ditadura militar, não conseguia lidar com aqueles fatos e relatos da maneira tranquila que as outras pessoas da sala, babacas que eram, lidavam, como se estivessem ouvindo mitologia grega ou algo do tipo. Não conseguia ter essa falta de empatia. Meu pai havia me criado diferente, me ensinado a se importar com o que é certo. Sempre que esse assunto chegava perto de nossas vidas eu via meu pai se fechar, se encolher e ficar assustadoramente quieto. Nunca tive coragem de perguntar, tinha um certo medo do que iria descobrir. Isso junto com o fato de não ter conhecido minha mãe fazia minha cabeça ir longe, talvez eles tivessem feito parte de uma resistência armada nos anos 70 ou 80 e ela tenha morrido assim.  É bizarro admitir, mas eu meio que gostava desse mistério todo.

Acho que a coisa com super-heróis veio daí. Ele era professor de história também e seguia uma vida de mente sã e corpo são que pra um menino cujos colegas eram filhos de engravatados inchados de comida cara e excesso de conforto, parecia algo extraordinário. Contava pra ele as histórias dos heróis que inventava no meio das aulas como quem conta a um amigo da mesma idade e ele não retrucava com “presta atenção na escola moleque, não pago pra ficares desenhando”, mas sim com comentários legais de ouvir sobre os poderes e as cores dos uniformes.

Ele era meu norte, tudo que queria ser quando crescesse, eu me vestia como ele e agia como ele. As coisas que gosto e que faço vieram dele e eu gostava disso, gostava quando as pessoas reparavam e comparavam a gente. Olha o fulaninho, é a cara do pai. Como aquela música do Nelson Gonçalves:

Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
”.

Ele era meu herói. Podia contar com ele pra tudo, os pequenos problemas de vida de adolescente ficavam mais fáceis com ele por perto.

Nunca me dei com matemática, por exemplo, e alguns professores conseguiam piorar e muito essa relação.

Uma em especial parecia me odiar, muito. Não conseguia nem disfarçar a cara de desprezo ao ler meu nome na chamada, nunca por completo, diferentemente de todos os outros alunos ela me chamava apenas de Júnior e dizia essa palavra com tanto amargor que parecia dizer “maldito” ou “leproso”.  Mesmo antes das primeiras provas e de constatar meu completo retardo quanto a números e operações. O que era tão fácil de ser entendido e reproduzido em matérias como português, artes, filosofia e coisas do tipo, em ciências exatas era simplesmente impossível.

Tinha virado rotina, ela sempre me chamava pra ir resolver equações no quadro e eu simplesmente não sabia o que fazer com o giz, ficava ali parado querendo morrer, como se estivesse frente a um pelotão de fuzilamento.

A única pessoa que ficava de fora desse pelotão era a Maia. Ela queria ser arquiteta e era boa de cálculo e de desenho. Dizia achar engraçada a minha burrice e eu não conseguir entender como alguém que desenha bem podia curtir matemática.  Nunca fui muito popular na escola e também não fazia muito esforço pra mudar isso. Maia era minha melhor amiga e eu dava graças a deus por ter aprendido LIBRAS antes de conhecê-la. Costumava ir às aulas que meu pai frequentava e tinha orgulho de conhecer a comunidade surda, de ter um nome em LIBRAS e poder me comunicar com a Maia de um jeito que ninguém no colégio, fora a mãe dela que era a tal professora que me odiava, podia. A turma naturalmente composta de babacas a excluía com a desculpa da barreira de língua e me excluía junto, falando babaquices sobre nós dois na nossa frente como se eu também fosse surdo ou como se ela não percebesse o clima hostil. Mas eu não me importava. Quando eu falava com Maia e vias as mãos pequenininhas dela se mexendo e formando palavras, o mundo ficava quieto e a mesquinhez das pessoas ficava boba e pequena.

Lembro muito bem do dia que a gente ficou amigo de verdade. Festa junina da 8ª série.

Na escola, me fizeram usar uma roupa ridícula e não me deixaram comprar uma caixa de bombas de murrão. Quando se tem 14 anos de idade e não dá pra explodir as coisas, São João serve pra quê? Passei o caminho de casa até a escola emburrado, julgando tudo que existia com xingamentos infantis. De saco cheio pra tudo.

Até ver o sorriso dela. De orelha a orelha, lindo e natural. Aqueles de criança que sorri com o corpo inteiro. Ela era o meu par naquele ano e eu que nunca tinha ligado pra nada, agora me via suando pelas mãos cada vez que a gente se encostava pra fazer um passo ensaiado. Um vestido combinando com a minha roupa, mas nela não ficava ridículo, muito pelo contrário. Qual era a cor? Azul? Não, era outra cor. Amarelo? Odeio amarelo. Falei pra ela que me sentia ridículo naquela roupa e ela respondeu que aquele era o objetivo do São João. Éramos todos ridículos. Tanto ela quanto eu.

As turmas dançaram suas danças típicas sazonais e depois de tentar lembrar os passos e engolir a vergonha, a gente foi correr pela escola e brincar um pouco. A escola era muito grande e mesmo cheia de crianças gritando e pais fingindo gostar da socialização, dava pra achar lugares não tão lotados.

Sentamos num pequeno pátio que ficava no centro de um conjunto de rampas que ligavam os andares das séries do ensino fundamental e costumava ficar fechado nessas ocasiões. A gente pulou a grade e sentou lá no meio. A gente tinha essa brincadeira, eu e ela, de repetir uma palavra até que ficasse estranha, até que parecesse perder o significado. Em LIBRAS esse fenômeno é bem mais divertido. Era divertido vê-la rindo de uma palavra comum como se fosse o gesto de um desenho animado.

Ela escolheu o sinal do meu nome naquele dia pra ficar repetindo, eu era muito pequeno pra saber o que estava acontecendo comigo e muito leigo pra saber o poder das palavras, mas aquilo sendo sinalizado por ela, por aquele sorriso e aquelas mãos, repetidas vezes como um mantra, foi uma das sensações mais intensas que havia sentido. Como se não controlasse meu corpo e pensamentos, como se ela estivesse me fazendo afundar num mar de sons silenciosos sem que eu pudesse fazer nada. Eu só sentia vontade de me entregar mais e mais, de me deixar levar pela correnteza. Ela fechou meus olhos com as mãos e eu fiz o mesmo, agora começando a repetir o nome dela. O nome dela me deixava quente por dentro, me dava um calor mesmo, que nem fogueira. Comecei a pensar em fogo, bombas, rojões, foguetes e coisas explodindo, fogos de artificio e no sorriso dela. Tudo me queimando por dentro, mas de um jeito bom. O calor dela chegava perto, cada vez mais perto, cada vez mais quente. Como ficar perto de uma fogueira de olhos fechados.

Escuto o alarme de incêndio da escola tocando alto, mas não consigo parar pra pensar no que aquilo significa, estava quase em transe. E no meio do barulho da sirene, ouço algo que parece meu nome, mas dito pela primeira vez de um jeito completamente diferente, com raiva, gasto.

A mãe dela a chamando pra ir embora, furiosa por algum motivo. Tentei barganhar mais tempo pra brincar e ficar ali, em vão. Pra mim, ela nunca poderia entender o que tinha acontecido entre aquelas duas crianças momentos antes. E eu só entenderia os motivos dela anos mais tarde.

Desde essa época, corriam boatos que a surdez da filha vinha de Sífilis congênita contraída pela mãe durante a gravidez, e os alunos julgavam sem pena e sem empatia tanto mãe quanto filha. Já no ensino médio, sendo aluno dela eu quase conseguia simpatizar com a professora frente a essas situações de merda, mas ela me tratava tão mal que era simplesmente impossível. Puxava a filha pelo braço sempre que via a gente junto, mandava a gente sentar nos lugares mais distantes da classe e sempre se referia a mim num sinal em LIBRAS que eu não entendia e Maia não queria traduzir. A relação das duas não era das piores, mas também não era das melhores.

Não como eu e meu pai, pelo menos. Ele me instruiu pra ser verdadeiro tanto quanto fosse possível e encarar os problemas com sensatez. Não sabia o motivo de tanto desprezo da tal mulher comigo e resolvi perguntar, dialogar com ela. Havia outros alunos tão ruins quanto eu na matéria e não parecia ser esse o motivo de tanta antipatia.

Juntando toda a coragem que uma situação como essa me permitia juntar, perguntei pra ela um dia, qual era o problema comigo ou o quê eu havia feito de errado pra ser tratado daquele jeito. Tentei parecer maduro falando o quanto eu gostava da Maia e o quanto ela era importante pra mim.

O quê poderia dar errado, afinal?

Tudo.

Se você perguntar pra alguém que entende de literatura ou construção de mitos, qual o elemento chave pra criar um herói ele dirá: é bem simples, catarse.

Veja bem, toda história precisa de um conflito e é nessa hora que conhecemos os verdadeiros papéis do vilão e do herói da historia, alguém precisa fazer uma escolha e tudo fica de cabeça pra baixo, mas acaba se resolvendo no final e quanto maior o problema, mais catártica fica a resolução, maior é a recompensa de quem acompanha a história.

Se você está esperando algo assim, pare por aqui.

Ainda estamos bem definidos, herói e vilã. Ela me odeia por pura maldade, sem motivo nenhum. Até esse ponto, se você me perguntasse eu diria que meu pai seria o perfeito herói nacional, que havia lutado pela libertação do Brasil na ditadura, havia perdido a mulher e criado o filho sozinho e agora defenderia o direito do filho de gostar de uma menina, filha de uma mulher terrível, que impedia a felicidade dos dois. Bem clichê, não?

Que merda, vá se foder Aristóteles e vá se foder você também, se continuou a ler, se precisa saber o fim da história, não importando o que vai acontecer com o personagem no fim, você quer sua recompensa não quer? No mínimo a satisfação da curiosidade mórbida, a mesma que faz você virar o pescoço e dirigir devagar perto de algum acidente.

Acontece que diferente da ficção, a vida é uma história mal escrita que não precisa fazer sentido, as coisas simplesmente acontecem e não tem clímax no fim.

Mas eu te entendo, eu também quis saber a história inteira.

As coisas pioraram a ponto de os tais colegas de classe que me tratavam como lixo ficarem incomodados com a maneira que a professora agia perto de mim. Eles comentaram com seus pais e uma coisa levou a outra. Reuniões e reuniões de pais e professores circundando o assunto, mas nunca tocando explicitamente na verdadeira razão. Meu pai era chamado, mas não de forma que deixasse claro que sua presença era vital, e como era muito ocupado e confiava no filho, nunca ia.

Por acaso, alguém sugeriu uma palestra de sensibilização ou algo do tipo, pra falar sobre bullying, violência nas escolas, drogas, relação aluno-professor e coisas do tipo. Uma das palestras abordaria a violência que os estudantes sofreram durante a ditadura militar e meu pai como professor de história, foi convidado pra participar da mesa redonda.

Um jeito inventivo que a escola achou pra resolver a situação. Admito.

Podemos dizer que é incrível como algumas coisas simplesmente acontecem, como escolhas que não fizemos e coisas que não dissemos se amontoam no caldo de roteiros ruins do universo. Como se alguém tivesse escrevendo tudo. Dia após dia, página por página.

Eu vi o sentimento pairando no ar como se fosse uma cortina de pano, o sentimento que eu sentia ao ler relatos de quem sobreviveu aos anos de ferro da ditadura, nos olhos de quem estava na plateia no dia da palestra. Fios elétricos, pau de arara, cano de descarga, agulha embaixo das unhas, cacos de vidro na boca e mordaças, violência, abuso, estupro, morte.

Dor.

Não dá pra fingir esse tipo de coisa. Os olhos da professora estavam imóveis, injetados de sangue e lacrimejando, enquanto meu pai falava sobre todas aquelas atrocidades. Os olhos dele e dela se encontraram e ficou tudo claro, claro até demais.  Eu não sabia o que fazer, era como se tivesse perdido os sentidos, mantido em algum porão e finalmente podia enxergar, mas a luz feria meus olhos. A professora segurava a filha pela mão e sem tirar os olhos do meu pai se levantou e ficou encostada na porta esperando por ele. Foi como ver um condenado marchar pra morte. Sabe as vezes que você se pega distraído no meio de um texto, com os olhos correndo formando palavras de um modo automático, mas formando significados totalmente aleatórios, pensando na morte da bezerra. E de súbito, acontece algo chocante, algo que te faz pisar no freio da mente, franzir o cenho e pedir pra descer.

A máscara caiu. Ouvi algumas poucas palavras da professora e algumas marcas e comportamentos de ambos começaram a fazer sentido. A implicância com meu nome, que era o pouco que ela lembrava ou sabia daquele homem era mais que implicância, mais que coincidência. Às vezes o mundo fica pequeno de propósito, é o universo rindo da cara de seus personagens.

Fui lá fora e ele tinha ido embora sem mim. Atônito, mas sem pensar duas vezes entro no carro da professora como se fossemos próximos. Não consigo pensar em nada pra dizer durante todo o caminho. Ela me deixa na frente de casa e enquanto me despeço de Maia ela põe algo na minha mochila. Não finjo não perceber.

Subo os degraus do meu prédio como quem invade a torre de um castelo maldito, pra matar um vilão com uma arma vingadora, mas tudo que sinto é um peso enorme no peito. Nada de heroico. Rezo pra que aja uma verdade agradável no fim, algo acolhedor nessa tragédia.

As luzes apagadas, bebendo no escuro, tão dramático. Tão falso. Tudo que ele pede é que eu não pergunte por quê. Talvez por ser outra pessoa em outra época, outra máscara, se é que há ou houve um motivo pra tal atrocidade, ficou perdido pra sempre nos anos de chumbo, se existe alguma forma de redenção depois disso tudo, alguma forma de perdão, eu não consigo achar. Mas não importa não é? Um herói faz o que é preciso, não importando o que sinta.

Vou andando até a casa da Maia, tentando pensar só nisso, em como eu gosto do seu sorriso e como ela dizia gostar das coisas que eu escrevo, dos heróis que invento, das coisas bobas que saem quando penso nela. Tento pensar na dança de São João e no calor que aquela memória me trazia, tento pensar nas lindas pontes arcadas que ela queria um dia projetar, nos rabiscos complicados dela que eu fingia entender.

Não faço ideia do que será minha vida, mas se ela fizer parte, acho que consigo aguentar qualquer coisa. Atirei até sobrar apenas uma bala, naquele homem que não conheço, naquela pessoa horrível, mas infelizmente meu pai morreu junto. A gente passa a vida pensando estar preparado pras possibilidades sem saber como elas são cruéis. Por mais infantil e maluco que fosse esse pensamento, pensava que a partir daquilo a professora iria aceitar a gente querer ficar junto. Eu não sou ele e ele está morto. Amo essa menina mais que tudo e faria qualquer coisa pra continuar perto dela porra, afinal já não provei isso? Que outro sacrifício eu tinha que fazer pra terminar essa história?

Maia me recebe com uma mochila nas costas e sinaliza pra mim que a mãe dela quer falar comigo a sós. Digo pra ela que a justiça foi feita. E soa completamente ridículo, li quadrinhos demais.“Os pecados dos pais cairão sobre os filhos.” Quão clichê um professor dizer isso. “Algum dia te contarei a história toda” ela diz, “mas conheci ele antes da captura da nossa frente de resistência, a Maia foi gerada ali, antes de o teu pai trair a gente e tu já tava na barriga da tua mãe”. “Vocês tem o mesmo sangue, não podem ser um casal, nunca, mas eu te aceito como amigo da família, quase um filho se quiseres.”

“Ela sabe disso”? Pergunto não acreditando no quão surreal era tudo aquilo.

Não.

Se você me perguntasse do que é feito um herói, anos atrás eu diria que tudo depende de vários fatores diferentes. Um bom vilão, uma boa origem, uma motivação interessante. Mas acima de tudo, de escolhas.

Sabendo que ela não ouviu o tiro que matou sua mãe, pego a mão da minha irmã e vamos embora sem olhar pra trás sabendo que vou ter que usar essa máscara pelo resto das nossas vidas.

Se você me perguntasse hoje do que é feito um herói, não saberia o que dizer.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Selenita

O pior dos meus problemas é o espaço-tempo

A distância dentre os teus olhos de um céu que não acaba

E o tempo que eu fiquei perdido lá

Não tem mais sincronia

Nem gravidade

Fica tudo suspenso

O corpo se esquece de fazer direito

O coração bate pra cima e pra baixo dentro do peito

Invés de ir pra frente e pra trás

Não adianta queimar as palavras

Nem socar paredes

A tua toxina escorre nas minhas narinas

Entra debaixo das unhas

Se espalha nos dentes

O sorriso ácido

Derrete tudo em volta

E o ar vai embora

Quero gritar com toda força que resta

Mas o som não se propaga no vácuo

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Càirn

Cresci num campo com meu pai, uma casa bem simples, uma estrada de terra, algumas árvores por perto, nada que chamasse atenção. Com exceção de um montinho de pedras achatadas sobrepostas formando uma pequena torre de uns 80 cm de altura. Alguma coisa naquele monte de pedras me incomodava. Talvez eu fosse pequeno demais e a altura daquilo me ameaçasse de alguma forma ou talvez o barulho que o vento fazia ao passar pelas frestas da formação me assustasse a noite, não sabia bem o motivo, mas aquilo me incomodava.

A estrada alagava e ficava com marcas de roda de carro ou carroça, diminuía com o crescimento de mata rasteira e rachava com o sol de verão.

As árvores eram cortadas, pintadas de branco (até hoje não sei por que), perdiam as folhas, davam frutas, recebiam pneus com cordas e crianças balançando, cresciam e morriam.

Minha casa mudou de telhado, de portão, pintura, ficou mais velha, recebeu reforma, ganhou e perdeu móveis, teve goteiras, rachaduras, cano furado e etc.

Mas não importando o que houvesse aquele monte de pedras continuava lá. O tempo todo. Decorei cada forma, cada cor, cada textura daquelas pedras achatadas sem saber exatamente o motivo. Não cresciam ervas daninhas ali, nem musgo, nem casa de bicho. Não tinha nenhum tipo de liga, mas nada nem ninguém as tirava de lugar.

E aquilo me incomodava. Aquela presença constante, aquele peso de algo que eu não sabia explicar.

Fui-me embora dali e tentei não pensar mais no assunto, tirar aquele peso da minha cabeça.

Nunca gostei de me sentir preso, ou imóvel, talvez por isso eu tenha me mudado para a cidade grande, todo o movimento e a rapidez das coisas me acalmava de certa forma. Movimento e mutabilidade foi o que sempre busquei na vida, no trabalho e nas relações.

De certa forma perdi um pouco o contato com meu pai. Voltar para o campo, a rigidez que a velhice trouxe para ele e aquele monte de pedras não facilitava nosso convívio. Só de pensar em ficar deitado numa cama a maior parte do tempo, com as juntas endurecidas e o coração cansado de tanto bater, não vivendo propriamente, mas apenas existindo. Isso me desesperava, me cobria de angústia.

Protelei minha volta até não poder mais. Engoli a aversão àquilo tudo e fui visita-lo no leito de morte, arrependido pela distância, triste pela perda, mas com o coração leve e preparado para me desapegar por completo e deixa-lo ir em paz.

Seu último pedido foi também a explicação daquilo que tanto me incomodava quando criança. Cada pedra do monte era deixada por um filho, representando seu finado pai e assim por diante quando ele morresse e tivesse seu próprio filho. O monte era alto, batia quase na minha cintura, isso vinha sendo feito há muito tempo. Meu pai tinha posto a última e queria que eu continuasse aquilo. Concordei e ele se foi. Nada muito dramático, nada pesado demais.

Escolhi uma pedra clara e achatada num riacho próximo e iria dar cabo daquilo no enterro. Não no cemitério da cidade, mas segundo a tradição da família, dentro do terreno da casa, no campo onde ficava aquele maldito monte.

O padre da cidade conhecia meu pai e toda a minha família. Coisa de cidade pequena. Acho que a tradição era sabida por todos menos eu. Ditas as palavras exigidas pela religião ele completou com um poema do Drummond, que achou combinar com a ocasião.

O vento batia nas frestas das pedras com força, fazendo um barulho parecido com um uivo ou assovio mórbido deixando a atmosfera um tanto opressiva, pelo menos para mim. O peso de todas aquelas pessoas enterradas debaixo dos meus pés esperando que eu colocasse aquela pedra a mais naquela pequena torre e fizesse parte deles, era como o peso da minha própria morte. Todos exigindo a pedra do meu pai ali, e depois a minha, e a do meu filho e assim por diante.

Comecei a sentir um mal-estar. O padre começou a declamar o poema. Todos os outros habitantes da cidade também tão velhos quanto meu pai estavam presentes. Austeros e imóveis como verdadeiras estátuas me cercando, vigiando e julgando minhas reações, esperando que eu cumprisse as tradições sem falha e ficasse marcado como mais um deles. Como se estivessem esperando por aquilo desde que eu nasci. Sempre lá, esperando por mim. Parados, esperando.

‘’No meio do caminho tinha uma pedra’’.

O peso nos meus ombros aumentava e me deixava rígido. Comecei a suar frio.

‘’Tinha uma pedra no meio do caminho’’.

Senti minhas articulações enrijecendo e já não conseguia controlá-las, apenas tremia.

‘’Tinha uma pedra’’.

Senti o ar lentamente indo embora. Estava sufocando ao ar livre, respirava alto e fazia força para me mover.

‘’No meio do caminho tinha uma pedra’’

Minhas pernas não se moviam por mais que eu quisesse correr para longe dali. Alguma força horrível parecia me puxar para baixo, o chão parecia tremer querendo meu corpo, querendo me paralisar para sempre.

‘’Nunca me esquecerei desse acontecimento (…)’’ O padre parou de declamar ao ouvir meu grunhido de desespero.

Conseguindo finalmente me libertar daquilo, virei às costas e fui embora. Entrei no carro e joguei a pedra, que até então eu apertava com força na mão, pela janela. Uma tradição boba, nada mais, meu pai havia ido em paz, eu estava em paz com aquilo, que importância tinha uma simples pedra? Bobagem.

Na volta, não consigo deixar de reparar no cemitério da cidade, os jazigos e as lápides. Por que tantas pedras, por que usar algo rígido, inerte e imutável pra representar alguém morto? Que coisa mais triste.

Não importa, chega de pensar nesse tipo de coisa. Vou voltar para casa e esquecer tudo isso.

A casa vazia não me tranquiliza, meu namorado deve ter ido visitar alguma amiga pensando que eu demoraria mais no enterro do meu pai. Não sei por que insisti tanto para ele não vir comigo, devia ter posto aquela pedra lá, resolveria o assunto, agora não consigo parar de pensar nisso. E daí se meu pai soubesse da gente? Tão perto do fim? Que diferença ia fazer?

Tenho que pedir desculpa para o Isaque.

‘’Tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra’’.

Esses poetas são um saco. Melhor tomar um banho e ir dormir, tirar isso da cabeça. Ele deixou um bilhete no espelho como sempre, depois eu leio.

Será que eu já passei o xampu? AI CARALHO! QUE ÁGUA FRIA! MERDA DE HORA PRA FALTAR LUZ! AI PORRA! CHÃO DE MERDA!

Que cena ridícula! Ainda bem que ninguém viu, tamanho marmanjo escorregar no banheiro. Caralho, tem alguma coisa errada. Deus, não consigo levantar. MEU DEUS, NÃO CONSIGO ME MEXER!

AI DEUS, QUE JEITO IMBECIL DE FICAR PARAPLÉGICO! Me fodi, me fodi, não consigo nem gritar, vou morrer pelado deitado no escuro. Calma, o Isaque já deve estar voltando, isso! Ele vai chegar daqui a pouco e me levar para o hospital! Tem fisioterapia para isso, afinal. Vai dar tudo certo, só tenho que esperar. Preciso respirar, o peito não quer se mexer, vou morrer do coração antes de morrer de sei lá o que foi que deu! Pelo menos estou consciente, por enquanto. Me fodi.

Não dá nem para mexer o pescoço e ler a porra do bilhete, me fodi. Volta logo, pelo amor de deus!

‘’Antônio, não vou conseguir falar isso cara a cara, não dá. Sou fraco, sei lá. Preciso de alguém que me apoie e que seja presente. Tu é inconstante demais, avoado demais, desculpa. Quero uma coisa mais madura, sabe? Tô indo embora e sim, tinha que ser assim. Tu sabe que bilhete pra mim é coisa séria, né? Já peguei todas as minhas coisas pra ficar fácil, sabe? Pra nós dois.

Tchau e fica bem tá? Não me espera porque não dá mais. Beijo.

Fim do bilhete.’’

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Pop songs.

Eu realmente não sei o que tô fazendo aqui, é o que venho repetindo desde que entrei nessa festa, na verdade eu venho repetindo isso desde que soube que viria, podia evitar isso tudo e não vir (sim podia), mas isso nunca acontece. Geralmente fico mentindo pra mim mesmo, afirmando que não venho mais nesse tipo de coisa, mas a pequena dúvida se vai ser bom ou não (mesmo sabendo que vou achar uma grande merda) e a vontade de agradar a pessoa que me convidou, me faz sempre estar nessa situação escrota que é uma festa dessas. Ela não cobra esse tipo de coisa de mim, pelo menos não diretamente. Mas é uma obrigação social conhecer seus amigos e frequentar suas festas. Fingir que tô me divertindo. Mentir.

É aquele tipo de festa em que eu não conheço nenhuma das músicas grudentas e com melodia horrível que tocam a noite toda, o tipo de festa que a cerveja é cara e esses drinks enfeitados não deixam ninguém bêbado rapidamente, mas talvez o problema seja comigo mesmo e não com o lugar, não é como se eu fosse me divertir muito num boteco de esquina, no máximo ia encher a cara até desmaiar, o que eu sei que não é verdadeiramente um dos melhores programas pra sexta à noite, sem contar que não sei dançar, fico apenas com o copo quente de cerveja na mão, encostado na parede balançando a cabeça e o pé desengonçadamente, enquanto todas as pessoas da minha volta parecem coreógrafos do cirque du soleil. Metade das músicas de refrão parecido dizem pra jogar as mãos pro alto sem se importar, por que nessa hora não tem problema parecer um paciente de cirurgia que acordou no meio da anestesia que não teve tempo de se espalhar pelo corpo inteiro. Ou dizem “apenas dance, tudo vai ficar bem, tchara tchuru, apenas dance”.  Pode ser verdade pra todo mundo, mas comigo não cola. Não sei fingir sorriso em foto e não sei dançar.

Antes de entrarmos aqui, ela disse: “Relaxa, eu não vou te deixar só nenhum segundo sequer, a gente vai ficar tão grudado que até tu vai querer ficar longe de mim hehehe.” Decido acreditar, mas meia cerveja depois que a gente entra ela encontra uns amigos da faculdade, aos quais fui devidamente apresentado, o que gera um desconforto enorme, quando as mãos dos caras desencontravam minhas tentativas de abraços amigáveis ou quando eu beijava apenas duas vezes o rosto das meninas que deveria beijar três e subsequentemente o contrário beijando três vezes os rostos que deveria beijar duas vezes apenas, nossa como eu odeio esses rituais de saudação. Uma das gurias foi muito gentil e disse que eu era simpático, todo mundo na roda sabia que aquilo não era verdade. Até tentei me inserir na conversa algumas vezes, mas falhei horrivelmente, não ensaiei minhas falas direito, depois me vi totalmente deslocado e fora do assunto, divagando sobre boas maneiras de morrer rapidamente, fazendo os exatos passos e o balançar de cabeça que eu sabia que faria enquanto a música com o refrão mais meloso e repetitivo do mundo explodia nos meus ouvidos. Vai cara, se solta, ninguém vai te julgar, se mexe fora do ritmo e ri junto. Alguém acredita nisso?

Bebo rápido pra poder ir pegar mais cerveja e tentar continuar nesse looping sem que ninguém perceba ou pare de fingir que não percebeu. É tudo uma peça e eu não posso perder as deixas.

Todo mundo ri, todo mundo canta e dança a Macarena ou qualquer coisa do tipo e tudo me parece um baile de máscaras, ensaiado demais, atuado demais. Os gestos muito amplos e os sorrisos muito brancos na luz negra. Todo mundo sabe o refrão e o passinho, tudo se mexe, em diferentes direções, mas num único ritmo, que nem bobina. Tudo se encaixa, menos eu.

A luz muda e todo mundo se aproxima, se toca e beija. A outra metade das músicas fala em “se amar pra sempre” e “segurar um ao outro sem deixar ir” ou “nunca desistir e nunca decepcionar”. Vou te amar sempre, desde que dure 02:40.

Não quero me mexer e sem querer atrapalhar algum dançante, os quadris e cotovelos alheios fazem com que eu me encolha mais e mais. Cada um na sua marcação, por favor.

Quero sair, quero ir embora, a máscara tá ficando pesada. Quero vomitar esse ambiente neonrosa-vodkaenergético-geloseco, tirar do meu sistema. Cair na cama e fingir que foi um ensaio ruim que eu esqueci metade.

Deixo eles lá, alguém deve saber minhas cenas. Não sou insubstituível, longe disso.

Fim de cena, ela diz que dá pra tentar de novo, desde o começo. Eu errei algumas coisas, mas não tem problema.

Nós dois sabemos que é mentira.

 

por

Noan Moraes e Lucas Moraes.

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Blues em linha reta

Nunca tinha ficado triste depois de uma luta.

Nunca me importei em ganhar ou perder, pra mim boxe era mais que isso. Nunca me importei se o outro cara era mais pesado ou mais leve, se era southpaw ou ortodoxo.

Destro, canhoto, pouco importava. Só queria lutar, sentir o corpo acordar um pouco. Eu sei que isso é besteira, mas não consigo parar de pensar que se eu tivesse vencido naquele dia, tu teria ficado. Já me sentia culpado de te arrastar, toda culta e intelectual que és, pruma luta de boxe. Por mais que tu fingisses entender o que aquilo significava pra mim, me sentia ridículo.

Dá pra te ouvir falando que é bobagem, mas sinto que se ele não fosse canhoto com passada esquisita, se eu não tivesse avançado em linha reta, se não tivesse levado aquela porrada, sei lá, teria sido diferente. Eu que me sentia vivo e tranquilo depois de tirar as luvas, naquele dia só senti angústia.

Lembra daquele poema do Pessoa que o professor de português pôs no quadro no dia que a gente se conheceu?

‘’Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. (…)

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. (…)’’

O professor diria que falar de Pessoa e de boxe no mesmo discurso é um crime inafiançável, que o poema é muito mais profundo do que o sentido literal. Que eu devia ler mais e tentar apanhar menos.

Não acho que ele tenha entendido. Mas também, quem sou eu pra falar algo? Alguém de nariz quebrado, cara inchada e olho roxo, nunca poderia entender Pessoa. Ou Campos. Nenhum deles. Todos passam batido por mim e nem me dou conta. Que nem o soco do canhoto. Que nem tu.

Nunca avance em linha reta. Quando um canhoto te acerta no fígado, o corpo todo se acovarda, pede pra parar. Te faz se curvar e cair. O corpo apaga e a mente vai embora.

Eu tinha 14 anos quando ouvi um verdadeiro álbum de Blues. Sweet Tea do Buddy Guy.

Sendo fã de música pesada na época, eu preferia as músicas mais ‘’rock’’ do álbum e ignorava as mais tradicionais, mais lentas, tocadas somente com violão e voz.  Detestava em especial uma faixa chamada ‘’When i´m done got old’’.  A música não falava comigo de nenhuma maneira, não fazia sentido. Não que as outras faixas, sobre de dor de cotovelo e brigas de bar, falassem com um moleque de 14 anos, mas de qualquer modo faziam algum sentido. Mas aquela faixa não, algo nela soava repetitivo, cansado, triste até. É óbvio que o conceito do blues é brincar com esse tipo de sentimento, expurgar isso de quem canta e ouve. Estar blues ou sentir blues é basicamente estar triste. Mas o triste daquela faixa era de alguma forma diferente.

Ficar velho é muito parecido com ficar doente. Você nunca pensa sobre o assunto até que aconteça. Faz a pele mudar de cor e a comida ficar sem gosto. As pessoas ao redor fingem não ter nojo de você, mas sem muito êxito. E o pior de tudo, você infecta tudo que toca. A música que você escuta é música de velho, suas roupas são roupas de velho e tudo relacionado a você recebe o selo ‘’velho’’, para que todos se afastem o mais rápido possível e procurem ajuda médica.

E tudo fica longe demais, difícil demais. Fora de alcance. Me mexo devagar, tanto quanto meu corpo deixa e mesmo assim tudo dói. Parece que me rechearam com areia dos sacos de pancada e as porradas vieram junto.

Naquele minuto que não fui rápido o suficiente pra baixar o cotovelo e proteger o fígado, perdi minha última chance de ter vigor, de ser rápido, de ganhar em algo. Tudo virou um grande nocaute depois disso. Uma cara inchada e um gosto amargo na boca.

O canhoto nem sabe a força da porrada que deu, o efeito do soco.

Dirigir até parece um jeito de matar essa vastidão da velhice, mas piora. O mundo do lado de lá do para-brisa vira um videoclipe malfeito que não muda de ritmo. Um blues arrastado, com voz baixa, que mal toca as cordas do violão, que não termina com uma frase virtuosa na guitarra ou piano, só vai enfraquecendo até sumir.

Vi o canhoto atravessando a rua ontem. Os mesmos tiques, a passada esquisita. Um passo direito, um passo esquerdo, um micro passo esquerdo e mais um direito. Todo canhoto é estranho.

Avancei em linha reta de novo. Dessa vez, peguei ele. Claro que, nada muda pra gente. Tu podes fingir entender o que significa pra mim e eu ainda vou me sentir ridículo. Depois de todo esse tempo, ainda sou o cara que perdeu naquele dia e o cara que não leu aqueles livros, aquele cara que não entende um poema do Pessoa.

Mas posso responder pra ele agora.

‘’ Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.’’

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Tons.

As vezes fica tão quente que parece que as paredes vão derreter e me afogar em tinta. E tudo vai ficar igual, o violão, os lençois, a cama, minhas botas e o gato. Tudo vai ficar amarelo-pastel.Talvez fosse melhor que tudo ficasse preto pra eu poder ouvir Pearl Jam ou Alice in Chains. Lembro de uma vez meu pai me contar o motivo de só usar canetas pretas. O preto passa por cima de tudo. Do azul e do vermelho. E se as paredes derretessem e deixassem tudo amarelo-pastel, apagariam os nomes e as páginas dos livros. Eu ia tentar lembrar das palavras, mas elas não duram. Como acordar depois de um sonho bom e tentar lembrar com detalhes. Tudo vai ficando escuro, ganhando borrões de preto até que não se veja forma nenhuma. Talvez um dia eu lembre de escrever num muro o quanto eu gosto das tuas tatuagens e das cores do teu cabelo, talvez seja mais fácil falar com tinta do que com a boca. Pelo menos pra mim, tenho problemas com prazos de validade nas palavras. Por isso, se ficasse muito quente e o muro escorresse, não teria problema, por que não eram palavras. Era só tinta.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Textx.

Olha só, tá passando Robocop 3 na tv do bar. Esse filme é uma merda, mas dá pra matar o tempo enquanto ele não chega. Pelo menos não tenho mais que apertar os olhos pra enxergar a tv.

Eu tinha sido míope por 20 anos e era um saco. Quando é preciso usar óculos, as pessoas esperam que você fique quietinhx em um canto lendo alguma coisa e sempre tenha uma resposta inteligente na ponta da língua ou algo interessante a dizer. Com interessante, quero dizer algum fato curioso aos moldes de chamadas de programas do Discovery Channel. Essas que pulam da tela do seu relógio sempre que ele detecta um aumento nos batimentos cardíacos indicando que aquela pessoa que você está interessadx está se aproximando e você quer algo ‘’interessante’’ pra dizer.

Normalmente eu não tenho nada minimamente interessante pra dizer e quando tenho espero que a pessoa escute por mais do que 30 segundos. Mas isso não é importante.

Eu troquei a porra dos olhos por duas esferas de Nano-Carbonádio, com visão humana perfeita, visão 3d, visão noir, visão neo-80s e o caralho a quatro. Quero dizer, não enxergar é uma merda e fazer uma operação pra enxergar bem até os 40 e poucos pra voltar pros óculos de novo depois de tudo é uma imbecilidade. Foda-se. Toma meus créditos, troca essa porra, arranca meus olhos e passar bem. Obrigadx.

Mas isso é uma exceção ok? Sei lá, miopia é uma doença como qualquer outra. Durante a escola inteira eu queria quebrar o braço pra ele ser assinado por toda a turma e virar uma espécie de celebridade quebradx e fodidx, pra poder dizer pra todo mundo que o osso saiu pra fora e os tendões tiveram que ser grampeados no meu braço. A ideia é legal, mas aquela merda dói. Quebrar o braço é uma merda assim como usar óculos.

Mas eu gosto do meu corpo, nasci com ele e quase sempre a gente se deu bem.

Moda é uma merda também. Converteram O império contra-ataca pra cinema sensorial, ou é cinema de imersão sensorial? Eu nunca sei. Converteram todos os Star Wars pra aquele formato que o filme passa direto no seu cérebro em primeira pessoa. Depois disso todo mundo queria cortar a mão direita fora e colocar uma prótese Psicomotora.

Não gosto de me meter na vida dos outros, eles dizem que as sensações são iguais ou até mais fortes (a pele de metal supostamente envia sensações com mais eficiência pro córtex), dá pra baixar habilidades que você não tinha e tudo mais, é como colocar um piercing de transmissão global e etc. Mas porra, é a sua mão, malucx do cacete.

E a tendência da vez é o ‘’Colossus’’. O tal do processo que coloca o seu cérebro num corpo metálico de variados estilos, do retrô-futurista estilo Fritz Lang até os M.E.C.H.A asiáticos que lembram muito de longe algo de humano. Alguns modelos são cópias perfeitas, sem engates e circuitos visíveis, pintados em escalas de tom de pele beirando à perfeição. E você não sabe que está interagindo com um colosso até que ele toque em você. Aquele toque frio de coisas sem alma. Me dá arrepio só de pensar.

Ser alguém ainda feito de carne entre um monte de colossos é uma mistura de estar sóbrix numa festa de cheiradores de morfocaína e ser a única criança do recreio sem um holotoy. Você está obsoletx, moçx. Abraçar ou beijar alguém de carne é tão ultrapassado quanto usar os dedos pra ativar algo. Transar com alguém de carne é como caçar animais com lanças de ponta de pedra lascada.

Eles dizem que colossus podem transar por dias sem parar, com uma transmissão sensorial supostamente mais eficiente, as descargas de endorfina, dopamina e noradrenalina viajando diretamente sob a pele metálica, aumentando os efeitos por horas e horas, até acabarem as baterias embutidas. Mas e depois disso?

Será que sou atrasadx? Por achar que um corpo metálico não sabe ficar de conchinha debaixo do cobertor, que uma boca mecânica não sabe dosar a pressão de uma mordida de carinho ou até fazer qualquer tipo de carinho que seja? Um braço cheio de pistões e válvulas sabe apertar os dedos da mão sem machucar a mão do outro?

A minha primeira vez, por exemplo, eu tava no 1ºano, eram 3 da tarde e meu namorado da época tinha terminado mais cedo a prova de recuperação e ia passar lá em casa, o meu quarto recebia todo o sol da manhã até o meio-dia e de tarde virava um grande forno. Tudo ficava quente e até os pôsteres das paredes pareciam murchar. A porcaria dos meus óculos embaçava a cada minuto, eu tava nervosx pra caralho e ele também, sempre que a gente se tocava dava pra ver o arrepio mútuo enrugando a pele dos dois. E a minha respiração, afobada, tava mega alta e não dava pra disfarçar. Estragando o clima todo. Até que o meu vizinho, que era professor de violão do meu irmão caçula, começou a tocar sem parar o solo de Stairway to Heaven numa imitação barata de uma fender branca toda descascada que eu adorava, era uma das minhas músicas preferidas na época, com um dos solos de guitarra mais lindos do mundo e eu me lembro daquela tarde quente pra caralho até hoje. Lembro que meu pai chegou em casa do nada e a gente se vestiu na velocidade da luz, um com a camisa do outro, sendo que eu só usava preto e ele só usava amarelo ou roxo. A gente voltou pra escola pra esperar o pai dele vir buscá-lo e ficamos rindo a tarde inteira sem soltar as mãos e sem falar mais nada.

Mesmo antes dos Nano-olhos registrarem tudo que eu faço a cada 3.5 segundos, mesmo sem banco de dados sensorial. Lembro como se fosse ontem.

Fico todx bobx pensando no cabelo dele, caindo na cara a cada passo que dá, sempre reclamando que o cabelo tá feio ou bagunçado, acho que ele é mais preocupado com essas coisas do que eu. O meu sempre tá de qualquer jeito e eu não tô nem aí.

Nossa, mas esse filme é uma merda mesmo. A única cena relevante é a do Robocop fazendo carinho na cabeça da menininha enquanto ela dorme no colo dele. Que inclusive devia estar odiando, aqueles dedos metálicos, sutis como uma empilhadeira, batendo no couro cabeludo dela. Como uma máquina pode fazer carinho em alguém? Metal não foi feito pra isso.

Isso não entra na minha cabeça, daqui a alguns anos todas as árvores terão um leitor de créditos e as pessoas poderão selecionar a estação que querem ver na árvore. Um crédito, outono, frutas transgênicas, folhas recém-impressas caindo em diferentes matizes. Outro crédito, inverno, galhos secando e retorcendo animatronicamente a cinco quadros por segundo. Até que só existam flores perpétuas de plástico com a marca d´água e o cheiro da Channel e ninguém se lembre da textura e do cheiro real.

Até que ninguém se arrepie, ou se assuste, se espreguice de manhã ou estale os dedos.

Estou devaneando de novo. Eu não vou existir pra sempre e nem ele. A gente vai ficar velhinho junto falando mal da juventude de metal que não sabe o que é sentir medo, nem dor, nem alegria. A gente vai franzir os lábios e balançar o punho fechado no ar pra dizer que no nosso tempo era melhor. Vamos lembrar de como algumas cidades tinham ruas e becos não planejados onde não passava nem uma bicicleta e ladeiras tão íngremes que até o vento tinha preguiça de subir.

Não sou preconceituosx, mas qual o motivo de estar aqui pra sempre? Ser feitx de metal e fibra de carbono? Robôs não podem amar, nem fazer arte, nem escrever Sófocles, sei lá. Bom, talvez Sófocles sim, mas não Bradbury ou Phillip K. Dick. Ou Asimov.

Seria bem irônico.

A própria ironia deixaria de existir. E devaneios e monólogos internos enormes enquanto se espera o namorado no bar, como esse agora, seriam pacotes artificiais disponíveis para download por um preço módico dependendo da sua assinatura prévia. E você poderia devanear sobre qualquer assunto e se perder por um momento na sua longa e vazia existência robótica. Eu mesmx poderia ser um deles e ter me perdido na duração do pacote de devaneio.

Ele chega, finalmente. Toca a parte de trás do meu pescoço com o nariz e a boca ao mesmo tempo. Sinto um milhão de descargas elétricas explodindo na minha coluna, meus olhos se reviram pra dentro do crânio e o sorriso é automático.

-Ei sonhadorx, contando ovelhas eletrônicas?

1 comentário

Arquivado em Uncategorized