Càirn

Cresci num campo com meu pai, uma casa bem simples, uma estrada de terra, algumas árvores por perto, nada que chamasse atenção. Com exceção de um montinho de pedras achatadas sobrepostas formando uma pequena torre de uns 80 cm de altura. Alguma coisa naquele monte de pedras me incomodava. Talvez eu fosse pequeno demais e a altura daquilo me ameaçasse de alguma forma ou talvez o barulho que o vento fazia ao passar pelas frestas da formação me assustasse a noite, não sabia bem o motivo, mas aquilo me incomodava.

A estrada alagava e ficava com marcas de roda de carro ou carroça, diminuía com o crescimento de mata rasteira e rachava com o sol de verão.

As árvores eram cortadas, pintadas de branco (até hoje não sei por que), perdiam as folhas, davam frutas, recebiam pneus com cordas e crianças balançando, cresciam e morriam.

Minha casa mudou de telhado, de portão, pintura, ficou mais velha, recebeu reforma, ganhou e perdeu móveis, teve goteiras, rachaduras, cano furado e etc.

Mas não importando o que houvesse aquele monte de pedras continuava lá. O tempo todo. Decorei cada forma, cada cor, cada textura daquelas pedras achatadas sem saber exatamente o motivo. Não cresciam ervas daninhas ali, nem musgo, nem casa de bicho. Não tinha nenhum tipo de liga, mas nada nem ninguém as tirava de lugar.

E aquilo me incomodava. Aquela presença constante, aquele peso de algo que eu não sabia explicar.

Fui-me embora dali e tentei não pensar mais no assunto, tirar aquele peso da minha cabeça.

Nunca gostei de me sentir preso, ou imóvel, talvez por isso eu tenha me mudado para a cidade grande, todo o movimento e a rapidez das coisas me acalmava de certa forma. Movimento e mutabilidade foi o que sempre busquei na vida, no trabalho e nas relações.

De certa forma perdi um pouco o contato com meu pai. Voltar para o campo, a rigidez que a velhice trouxe para ele e aquele monte de pedras não facilitava nosso convívio. Só de pensar em ficar deitado numa cama a maior parte do tempo, com as juntas endurecidas e o coração cansado de tanto bater, não vivendo propriamente, mas apenas existindo. Isso me desesperava, me cobria de angústia.

Protelei minha volta até não poder mais. Engoli a aversão àquilo tudo e fui visita-lo no leito de morte, arrependido pela distância, triste pela perda, mas com o coração leve e preparado para me desapegar por completo e deixa-lo ir em paz.

Seu último pedido foi também a explicação daquilo que tanto me incomodava quando criança. Cada pedra do monte era deixada por um filho, representando seu finado pai e assim por diante quando ele morresse e tivesse seu próprio filho. O monte era alto, batia quase na minha cintura, isso vinha sendo feito há muito tempo. Meu pai tinha posto a última e queria que eu continuasse aquilo. Concordei e ele se foi. Nada muito dramático, nada pesado demais.

Escolhi uma pedra clara e achatada num riacho próximo e iria dar cabo daquilo no enterro. Não no cemitério da cidade, mas segundo a tradição da família, dentro do terreno da casa, no campo onde ficava aquele maldito monte.

O padre da cidade conhecia meu pai e toda a minha família. Coisa de cidade pequena. Acho que a tradição era sabida por todos menos eu. Ditas as palavras exigidas pela religião ele completou com um poema do Drummond, que achou combinar com a ocasião.

O vento batia nas frestas das pedras com força, fazendo um barulho parecido com um uivo ou assovio mórbido deixando a atmosfera um tanto opressiva, pelo menos para mim. O peso de todas aquelas pessoas enterradas debaixo dos meus pés esperando que eu colocasse aquela pedra a mais naquela pequena torre e fizesse parte deles, era como o peso da minha própria morte. Todos exigindo a pedra do meu pai ali, e depois a minha, e a do meu filho e assim por diante.

Comecei a sentir um mal-estar. O padre começou a declamar o poema. Todos os outros habitantes da cidade também tão velhos quanto meu pai estavam presentes. Austeros e imóveis como verdadeiras estátuas me cercando, vigiando e julgando minhas reações, esperando que eu cumprisse as tradições sem falha e ficasse marcado como mais um deles. Como se estivessem esperando por aquilo desde que eu nasci. Sempre lá, esperando por mim. Parados, esperando.

‘’No meio do caminho tinha uma pedra’’.

O peso nos meus ombros aumentava e me deixava rígido. Comecei a suar frio.

‘’Tinha uma pedra no meio do caminho’’.

Senti minhas articulações enrijecendo e já não conseguia controlá-las, apenas tremia.

‘’Tinha uma pedra’’.

Senti o ar lentamente indo embora. Estava sufocando ao ar livre, respirava alto e fazia força para me mover.

‘’No meio do caminho tinha uma pedra’’

Minhas pernas não se moviam por mais que eu quisesse correr para longe dali. Alguma força horrível parecia me puxar para baixo, o chão parecia tremer querendo meu corpo, querendo me paralisar para sempre.

‘’Nunca me esquecerei desse acontecimento (…)’’ O padre parou de declamar ao ouvir meu grunhido de desespero.

Conseguindo finalmente me libertar daquilo, virei às costas e fui embora. Entrei no carro e joguei a pedra, que até então eu apertava com força na mão, pela janela. Uma tradição boba, nada mais, meu pai havia ido em paz, eu estava em paz com aquilo, que importância tinha uma simples pedra? Bobagem.

Na volta, não consigo deixar de reparar no cemitério da cidade, os jazigos e as lápides. Por que tantas pedras, por que usar algo rígido, inerte e imutável pra representar alguém morto? Que coisa mais triste.

Não importa, chega de pensar nesse tipo de coisa. Vou voltar para casa e esquecer tudo isso.

A casa vazia não me tranquiliza, meu namorado deve ter ido visitar alguma amiga pensando que eu demoraria mais no enterro do meu pai. Não sei por que insisti tanto para ele não vir comigo, devia ter posto aquela pedra lá, resolveria o assunto, agora não consigo parar de pensar nisso. E daí se meu pai soubesse da gente? Tão perto do fim? Que diferença ia fazer?

Tenho que pedir desculpa para o Isaque.

‘’Tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra’’.

Esses poetas são um saco. Melhor tomar um banho e ir dormir, tirar isso da cabeça. Ele deixou um bilhete no espelho como sempre, depois eu leio.

Será que eu já passei o xampu? AI CARALHO! QUE ÁGUA FRIA! MERDA DE HORA PRA FALTAR LUZ! AI PORRA! CHÃO DE MERDA!

Que cena ridícula! Ainda bem que ninguém viu, tamanho marmanjo escorregar no banheiro. Caralho, tem alguma coisa errada. Deus, não consigo levantar. MEU DEUS, NÃO CONSIGO ME MEXER!

AI DEUS, QUE JEITO IMBECIL DE FICAR PARAPLÉGICO! Me fodi, me fodi, não consigo nem gritar, vou morrer pelado deitado no escuro. Calma, o Isaque já deve estar voltando, isso! Ele vai chegar daqui a pouco e me levar para o hospital! Tem fisioterapia para isso, afinal. Vai dar tudo certo, só tenho que esperar. Preciso respirar, o peito não quer se mexer, vou morrer do coração antes de morrer de sei lá o que foi que deu! Pelo menos estou consciente, por enquanto. Me fodi.

Não dá nem para mexer o pescoço e ler a porra do bilhete, me fodi. Volta logo, pelo amor de deus!

‘’Antônio, não vou conseguir falar isso cara a cara, não dá. Sou fraco, sei lá. Preciso de alguém que me apoie e que seja presente. Tu é inconstante demais, avoado demais, desculpa. Quero uma coisa mais madura, sabe? Tô indo embora e sim, tinha que ser assim. Tu sabe que bilhete pra mim é coisa séria, né? Já peguei todas as minhas coisas pra ficar fácil, sabe? Pra nós dois.

Tchau e fica bem tá? Não me espera porque não dá mais. Beijo.

Fim do bilhete.’’

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Pop songs.

Eu realmente não sei o que tô fazendo aqui, é o que venho repetindo desde que entrei nessa festa, na verdade eu venho repetindo isso desde que soube que viria, podia evitar isso tudo e não vir (sim podia), mas isso nunca acontece. Geralmente fico mentindo pra mim mesmo, afirmando que não venho mais nesse tipo de coisa, mas a pequena dúvida se vai ser bom ou não (mesmo sabendo que vou achar uma grande merda) e a vontade de agradar a pessoa que me convidou, me faz sempre estar nessa situação escrota que é uma festa dessas. Ela não cobra esse tipo de coisa de mim, pelo menos não diretamente. Mas é uma obrigação social conhecer seus amigos e frequentar suas festas. Fingir que tô me divertindo. Mentir.

É aquele tipo de festa em que eu não conheço nenhuma das músicas grudentas e com melodia horrível que tocam a noite toda, o tipo de festa que a cerveja é cara e esses drinks enfeitados não deixam ninguém bêbado rapidamente, mas talvez o problema seja comigo mesmo e não com o lugar, não é como se eu fosse me divertir muito num boteco de esquina, no máximo ia encher a cara até desmaiar, o que eu sei que não é verdadeiramente um dos melhores programas pra sexta à noite, sem contar que não sei dançar, fico apenas com o copo quente de cerveja na mão, encostado na parede balançando a cabeça e o pé desengonçadamente, enquanto todas as pessoas da minha volta parecem coreógrafos do cirque du soleil. Metade das músicas de refrão parecido dizem pra jogar as mãos pro alto sem se importar, por que nessa hora não tem problema parecer um paciente de cirurgia que acordou no meio da anestesia que não teve tempo de se espalhar pelo corpo inteiro. Ou dizem “apenas dance, tudo vai ficar bem, tchara tchuru, apenas dance”.  Pode ser verdade pra todo mundo, mas comigo não cola. Não sei fingir sorriso em foto e não sei dançar.

Antes de entrarmos aqui, ela disse: “Relaxa, eu não vou te deixar só nenhum segundo sequer, a gente vai ficar tão grudado que até tu vai querer ficar longe de mim hehehe.” Decido acreditar, mas meia cerveja depois que a gente entra ela encontra uns amigos da faculdade, aos quais fui devidamente apresentado, o que gera um desconforto enorme, quando as mãos dos caras desencontravam minhas tentativas de abraços amigáveis ou quando eu beijava apenas duas vezes o rosto das meninas que deveria beijar três e subsequentemente o contrário beijando três vezes os rostos que deveria beijar duas vezes apenas, nossa como eu odeio esses rituais de saudação. Uma das gurias foi muito gentil e disse que eu era simpático, todo mundo na roda sabia que aquilo não era verdade. Até tentei me inserir na conversa algumas vezes, mas falhei horrivelmente, não ensaiei minhas falas direito, depois me vi totalmente deslocado e fora do assunto, divagando sobre boas maneiras de morrer rapidamente, fazendo os exatos passos e o balançar de cabeça que eu sabia que faria enquanto a música com o refrão mais meloso e repetitivo do mundo explodia nos meus ouvidos. Vai cara, se solta, ninguém vai te julgar, se mexe fora do ritmo e ri junto. Alguém acredita nisso?

Bebo rápido pra poder ir pegar mais cerveja e tentar continuar nesse looping sem que ninguém perceba ou pare de fingir que não percebeu. É tudo uma peça e eu não posso perder as deixas.

Todo mundo ri, todo mundo canta e dança a Macarena ou qualquer coisa do tipo e tudo me parece um baile de máscaras, ensaiado demais, atuado demais. Os gestos muito amplos e os sorrisos muito brancos na luz negra. Todo mundo sabe o refrão e o passinho, tudo se mexe, em diferentes direções, mas num único ritmo, que nem bobina. Tudo se encaixa, menos eu.

A luz muda e todo mundo se aproxima, se toca e beija. A outra metade das músicas fala em “se amar pra sempre” e “segurar um ao outro sem deixar ir” ou “nunca desistir e nunca decepcionar”. Vou te amar sempre, desde que dure 02:40.

Não quero me mexer e sem querer atrapalhar algum dançante, os quadris e cotovelos alheios fazem com que eu me encolha mais e mais. Cada um na sua marcação, por favor.

Quero sair, quero ir embora, a máscara tá ficando pesada. Quero vomitar esse ambiente neonrosa-vodkaenergético-geloseco, tirar do meu sistema. Cair na cama e fingir que foi um ensaio ruim que eu esqueci metade.

Deixo eles lá, alguém deve saber minhas cenas. Não sou insubstituível, longe disso.

Fim de cena, ela diz que dá pra tentar de novo, desde o começo. Eu errei algumas coisas, mas não tem problema.

Nós dois sabemos que é mentira.

 

por

Noan Moraes e Lucas Moraes.

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Blues em linha reta

Nunca tinha ficado triste depois de uma luta.

Nunca me importei em ganhar ou perder, pra mim boxe era mais que isso. Nunca me importei se o outro cara era mais pesado ou mais leve, se era southpaw ou ortodoxo.

Destro, canhoto, pouco importava. Só queria lutar, sentir o corpo acordar um pouco. Eu sei que isso é besteira, mas não consigo parar de pensar que se eu tivesse vencido naquele dia, tu teria ficado. Já me sentia culpado de te arrastar, toda culta e intelectual que és, pruma luta de boxe. Por mais que tu fingisses entender o que aquilo significava pra mim, me sentia ridículo.

Dá pra te ouvir falando que é bobagem, mas sinto que se ele não fosse canhoto com passada esquisita, se eu não tivesse avançado em linha reta, se não tivesse levado aquela porrada, sei lá, teria sido diferente. Eu que me sentia vivo e tranquilo depois de tirar as luvas, naquele dia só senti angústia.

Lembra daquele poema do Pessoa que o professor de português pôs no quadro no dia que a gente se conheceu?

‘’Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. (…)

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. (…)’’

O professor diria que falar de Pessoa e de boxe no mesmo discurso é um crime inafiançável, que o poema é muito mais profundo do que o sentido literal. Que eu devia ler mais e tentar apanhar menos.

Não acho que ele tenha entendido. Mas também, quem sou eu pra falar algo? Alguém de nariz quebrado, cara inchada e olho roxo, nunca poderia entender Pessoa. Ou Campos. Nenhum deles. Todos passam batido por mim e nem me dou conta. Que nem o soco do canhoto. Que nem tu.

Nunca avance em linha reta. Quando um canhoto te acerta no fígado, o corpo todo se acovarda, pede pra parar. Te faz se curvar e cair. O corpo apaga e a mente vai embora.

Eu tinha 14 anos quando ouvi um verdadeiro álbum de Blues. Sweet Tea do Buddy Guy.

Sendo fã de música pesada na época, eu preferia as músicas mais ‘’rock’’ do álbum e ignorava as mais tradicionais, mais lentas, tocadas somente com violão e voz.  Detestava em especial uma faixa chamada ‘’When i´m done got old’’.  A música não falava comigo de nenhuma maneira, não fazia sentido. Não que as outras faixas, sobre de dor de cotovelo e brigas de bar, falassem com um moleque de 14 anos, mas de qualquer modo faziam algum sentido. Mas aquela faixa não, algo nela soava repetitivo, cansado, triste até. É óbvio que o conceito do blues é brincar com esse tipo de sentimento, expurgar isso de quem canta e ouve. Estar blues ou sentir blues é basicamente estar triste. Mas o triste daquela faixa era de alguma forma diferente.

Ficar velho é muito parecido com ficar doente. Você nunca pensa sobre o assunto até que aconteça. Faz a pele mudar de cor e a comida ficar sem gosto. As pessoas ao redor fingem não ter nojo de você, mas sem muito êxito. E o pior de tudo, você infecta tudo que toca. A música que você escuta é música de velho, suas roupas são roupas de velho e tudo relacionado a você recebe o selo ‘’velho’’, para que todos se afastem o mais rápido possível e procurem ajuda médica.

E tudo fica longe demais, difícil demais. Fora de alcance. Me mexo devagar, tanto quanto meu corpo deixa e mesmo assim tudo dói. Parece que me rechearam com areia dos sacos de pancada e as porradas vieram junto.

Naquele minuto que não fui rápido o suficiente pra baixar o cotovelo e proteger o fígado, perdi minha última chance de ter vigor, de ser rápido, de ganhar em algo. Tudo virou um grande nocaute depois disso. Uma cara inchada e um gosto amargo na boca.

O canhoto nem sabe a força da porrada que deu, o efeito do soco.

Dirigir até parece um jeito de matar essa vastidão da velhice, mas piora. O mundo do lado de lá do para-brisa vira um videoclipe malfeito que não muda de ritmo. Um blues arrastado, com voz baixa, que mal toca as cordas do violão, que não termina com uma frase virtuosa na guitarra ou piano, só vai enfraquecendo até sumir.

Vi o canhoto atravessando a rua ontem. Os mesmos tiques, a passada esquisita. Um passo direito, um passo esquerdo, um micro passo esquerdo e mais um direito. Todo canhoto é estranho.

Avancei em linha reta de novo. Dessa vez, peguei ele. Claro que, nada muda pra gente. Tu podes fingir entender o que significa pra mim e eu ainda vou me sentir ridículo. Depois de todo esse tempo, ainda sou o cara que perdeu naquele dia e o cara que não leu aqueles livros, aquele cara que não entende um poema do Pessoa.

Mas posso responder pra ele agora.

‘’ Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.’’

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Tons.

As vezes fica tão quente que parece que as paredes vão derreter e me afogar em tinta. E tudo vai ficar igual, o violão, os lençois, a cama, minhas botas e o gato. Tudo vai ficar amarelo-pastel.Talvez fosse melhor que tudo ficasse preto pra eu poder ouvir Pearl Jam ou Alice in Chains. Lembro de uma vez meu pai me contar o motivo de só usar canetas pretas. O preto passa por cima de tudo. Do azul e do vermelho. E se as paredes derretessem e deixassem tudo amarelo-pastel, apagariam os nomes e as páginas dos livros. Eu ia tentar lembrar das palavras, mas elas não duram. Como acordar depois de um sonho bom e tentar lembrar com detalhes. Tudo vai ficando escuro, ganhando borrões de preto até que não se veja forma nenhuma. Talvez um dia eu lembre de escrever num muro o quanto eu gosto das tuas tatuagens e das cores do teu cabelo, talvez seja mais fácil falar com tinta do que com a boca. Pelo menos pra mim, tenho problemas com prazos de validade nas palavras. Por isso, se ficasse muito quente e o muro escorresse, não teria problema, por que não eram palavras. Era só tinta.

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Textx.

Olha só, tá passando Robocop 3 na tv do bar. Esse filme é uma merda, mas dá pra matar o tempo enquanto ele não chega. Pelo menos não tenho mais que apertar os olhos pra enxergar a tv.

Eu tinha sido míope por 20 anos e era um saco. Quando é preciso usar óculos, as pessoas esperam que você fique quietinhx em um canto lendo alguma coisa e sempre tenha uma resposta inteligente na ponta da língua ou algo interessante a dizer. Com interessante, quero dizer algum fato curioso aos moldes de chamadas de programas do Discovery Channel. Essas que pulam da tela do seu relógio sempre que ele detecta um aumento nos batimentos cardíacos indicando que aquela pessoa que você está interessadx está se aproximando e você quer algo ‘’interessante’’ pra dizer.

Normalmente eu não tenho nada minimamente interessante pra dizer e quando tenho espero que a pessoa escute por mais do que 30 segundos. Mas isso não é importante.

Eu troquei a porra dos olhos por duas esferas de Nano-Carbonádio, com visão humana perfeita, visão 3d, visão noir, visão neo-80s e o caralho a quatro. Quero dizer, não enxergar é uma merda e fazer uma operação pra enxergar bem até os 40 e poucos pra voltar pros óculos de novo depois de tudo é uma imbecilidade. Foda-se. Toma meus créditos, troca essa porra, arranca meus olhos e passar bem. Obrigadx.

Mas isso é uma exceção ok? Sei lá, miopia é uma doença como qualquer outra. Durante a escola inteira eu queria quebrar o braço pra ele ser assinado por toda a turma e virar uma espécie de celebridade quebradx e fodidx, pra poder dizer pra todo mundo que o osso saiu pra fora e os tendões tiveram que ser grampeados no meu braço. A ideia é legal, mas aquela merda dói. Quebrar o braço é uma merda assim como usar óculos.

Mas eu gosto do meu corpo, nasci com ele e quase sempre a gente se deu bem.

Moda é uma merda também. Converteram O império contra-ataca pra cinema sensorial, ou é cinema de imersão sensorial? Eu nunca sei. Converteram todos os Star Wars pra aquele formato que o filme passa direto no seu cérebro em primeira pessoa. Depois disso todo mundo queria cortar a mão direita fora e colocar uma prótese Psicomotora.

Não gosto de me meter na vida dos outros, eles dizem que as sensações são iguais ou até mais fortes (a pele de metal supostamente envia sensações com mais eficiência pro córtex), dá pra baixar habilidades que você não tinha e tudo mais, é como colocar um piercing de transmissão global e etc. Mas porra, é a sua mão, malucx do cacete.

E a tendência da vez é o ‘’Colossus’’. O tal do processo que coloca o seu cérebro num corpo metálico de variados estilos, do retrô-futurista estilo Fritz Lang até os M.E.C.H.A asiáticos que lembram muito de longe algo de humano. Alguns modelos são cópias perfeitas, sem engates e circuitos visíveis, pintados em escalas de tom de pele beirando à perfeição. E você não sabe que está interagindo com um colosso até que ele toque em você. Aquele toque frio de coisas sem alma. Me dá arrepio só de pensar.

Ser alguém ainda feito de carne entre um monte de colossos é uma mistura de estar sóbrix numa festa de cheiradores de morfocaína e ser a única criança do recreio sem um holotoy. Você está obsoletx, moçx. Abraçar ou beijar alguém de carne é tão ultrapassado quanto usar os dedos pra ativar algo. Transar com alguém de carne é como caçar animais com lanças de ponta de pedra lascada.

Eles dizem que colossus podem transar por dias sem parar, com uma transmissão sensorial supostamente mais eficiente, as descargas de endorfina, dopamina e noradrenalina viajando diretamente sob a pele metálica, aumentando os efeitos por horas e horas, até acabarem as baterias embutidas. Mas e depois disso?

Será que sou atrasadx? Por achar que um corpo metálico não sabe ficar de conchinha debaixo do cobertor, que uma boca mecânica não sabe dosar a pressão de uma mordida de carinho ou até fazer qualquer tipo de carinho que seja? Um braço cheio de pistões e válvulas sabe apertar os dedos da mão sem machucar a mão do outro?

A minha primeira vez, por exemplo, eu tava no 1ºano, eram 3 da tarde e meu namorado da época tinha terminado mais cedo a prova de recuperação e ia passar lá em casa, o meu quarto recebia todo o sol da manhã até o meio-dia e de tarde virava um grande forno. Tudo ficava quente e até os pôsteres das paredes pareciam murchar. A porcaria dos meus óculos embaçava a cada minuto, eu tava nervosx pra caralho e ele também, sempre que a gente se tocava dava pra ver o arrepio mútuo enrugando a pele dos dois. E a minha respiração, afobada, tava mega alta e não dava pra disfarçar. Estragando o clima todo. Até que o meu vizinho, que era professor de violão do meu irmão caçula, começou a tocar sem parar o solo de Stairway to Heaven numa imitação barata de uma fender branca toda descascada que eu adorava, era uma das minhas músicas preferidas na época, com um dos solos de guitarra mais lindos do mundo e eu me lembro daquela tarde quente pra caralho até hoje. Lembro que meu pai chegou em casa do nada e a gente se vestiu na velocidade da luz, um com a camisa do outro, sendo que eu só usava preto e ele só usava amarelo ou roxo. A gente voltou pra escola pra esperar o pai dele vir buscá-lo e ficamos rindo a tarde inteira sem soltar as mãos e sem falar mais nada.

Mesmo antes dos Nano-olhos registrarem tudo que eu faço a cada 3.5 segundos, mesmo sem banco de dados sensorial. Lembro como se fosse ontem.

Fico todx bobx pensando no cabelo dele, caindo na cara a cada passo que dá, sempre reclamando que o cabelo tá feio ou bagunçado, acho que ele é mais preocupado com essas coisas do que eu. O meu sempre tá de qualquer jeito e eu não tô nem aí.

Nossa, mas esse filme é uma merda mesmo. A única cena relevante é a do Robocop fazendo carinho na cabeça da menininha enquanto ela dorme no colo dele. Que inclusive devia estar odiando, aqueles dedos metálicos, sutis como uma empilhadeira, batendo no couro cabeludo dela. Como uma máquina pode fazer carinho em alguém? Metal não foi feito pra isso.

Isso não entra na minha cabeça, daqui a alguns anos todas as árvores terão um leitor de créditos e as pessoas poderão selecionar a estação que querem ver na árvore. Um crédito, outono, frutas transgênicas, folhas recém-impressas caindo em diferentes matizes. Outro crédito, inverno, galhos secando e retorcendo animatronicamente a cinco quadros por segundo. Até que só existam flores perpétuas de plástico com a marca d´água e o cheiro da Channel e ninguém se lembre da textura e do cheiro real.

Até que ninguém se arrepie, ou se assuste, se espreguice de manhã ou estale os dedos.

Estou devaneando de novo. Eu não vou existir pra sempre e nem ele. A gente vai ficar velhinho junto falando mal da juventude de metal que não sabe o que é sentir medo, nem dor, nem alegria. A gente vai franzir os lábios e balançar o punho fechado no ar pra dizer que no nosso tempo era melhor. Vamos lembrar de como algumas cidades tinham ruas e becos não planejados onde não passava nem uma bicicleta e ladeiras tão íngremes que até o vento tinha preguiça de subir.

Não sou preconceituosx, mas qual o motivo de estar aqui pra sempre? Ser feitx de metal e fibra de carbono? Robôs não podem amar, nem fazer arte, nem escrever Sófocles, sei lá. Bom, talvez Sófocles sim, mas não Bradbury ou Phillip K. Dick. Ou Asimov.

Seria bem irônico.

A própria ironia deixaria de existir. E devaneios e monólogos internos enormes enquanto se espera o namorado no bar, como esse agora, seriam pacotes artificiais disponíveis para download por um preço módico dependendo da sua assinatura prévia. E você poderia devanear sobre qualquer assunto e se perder por um momento na sua longa e vazia existência robótica. Eu mesmx poderia ser um deles e ter me perdido na duração do pacote de devaneio.

Ele chega, finalmente. Toca a parte de trás do meu pescoço com o nariz e a boca ao mesmo tempo. Sinto um milhão de descargas elétricas explodindo na minha coluna, meus olhos se reviram pra dentro do crânio e o sorriso é automático.

-Ei sonhadorx, contando ovelhas eletrônicas?

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Ephemeroptera

Nunca gostei de relógios e acho que o sentimento é mútuo. Nunca gostei de terno e gravata também.

Se o tempo tivesse um corpo, os relógios seriam um terno, mofado e que faz a pele coçar, e os ponteiros seriam gravatas, incômodas, apertando cada vez mais o pescoço do tempo até que ele ficasse tonto e se confundisse todo. Para piorar, talvez as horas fossem os sapatos sociais, com números e combinações confusas que o fariam caminhar esquisito e todo torto.

Eles o fazem ir onde ele não quer; fazer o que não quer e caber onde não cabe. Nas datas, nas agendas e calendários, nos horários de chegada e partida, regressiva e progressivamente.

E nos relógios.

Estávamos afastados. Não nos conhecíamos mais, por mais ridículo que isso pareça. Incomodado com isso, tanto quanto era possível ou permitido que eu ficasse, quis vê-la.

Falar sobre algo banal ou importante, que não fosse podado e talhado pelos relógios e agendas.

Eu precisava pensar em algo para dizer, todos os silêncios confortáveis entre nós já haviam passado da validade. Acho que ela sempre me viu como uma perda de tempo disfarçada de gente.

Oito minutos atrasada.

Posso começar falando de como meu avô costumava dizer que antigamente, caçava na mata fechada, aonde a luz do sol quase não chega. Ele costumava ficar deitado na posição de tiro, até esquecer as horas e os dias. Até que os insetos fizessem trilhas por cima dele, até que os pássaros pousassem no cano do rifle e a presa se acostumasse com o cheiro dele tanto quanto qualquer outro, para só assim atirar, no curto intervalo do pulso, quando o coração não bate e os capilares do dedo estão se contraindo.

Ele dizia que quando o tempo ia embora dava para sentir a Terra girar. Era como se habitássemos o tempo e contássemos o espaço, não o contrário.

Sem ninguém por perto nos sentimos mais confortáveis para buscar o conforto, agir como quisermos, falar como quisermos e vestir o que quisermos. Ou não vestir nada.

Assim também é com o tempo. Sem métrica, ele corre solto por aí, sorri, saltita, anda para trás, fica de cabeça para baixo ou se deita de costas sem se mexer, olhando para o teto do espaço até recuperar o fôlego.

Posso falar daqueles insetos que parecem libélulas, que só vivem algumas horas durante a vida adulta, acasalam e morrem, sem ao menos se alimentar. Eles poderiam viver a vida inteira sem notar um caçador humano parado com seu rifle em meio à vegetação, o tomando por parte da paisagem. E mesmo se ele se movesse e fosse embora, seria algo tão imenso que suas pequenas vidas não notariam.

Talvez sejamos assim também.

E se o tempo fosse embora? Os paraquedistas, traceurs, trapezistas e suicidas ficariam presos numa queda eterna ou indefinida como Alice na toca do coelho. Os professores de física virariam pó, juntamente com os alunos durante uma explicação de ondulatória e se misturariam aos restos de giz na lousa e no chão. Os projecionistas das salas de cinema esqueceriam suas vidas e tomariam o filme como a realidade, depois de milênios de projeção. Os cobradores e motoristas de ônibus perderiam a função das pernas e se fundiriam ao maquinário, formando uma nova entidade.

Eu veria os executivos com seus relógios caros de peças de titânio completamente parados, mas funcionando perfeitamente, conversarem através das décadas sobre coisas banais enquanto esperam o fim do happy-hour.

Veria crianças brincarem até a velhice em recreios intermináveis, até que esqueçam os nomes de seus pais e por fim seus próprios nomes.

Veria civilizações alcançarem seu ápice e decaírem com o passar dos anos, as gírias mudariam ao meu redor até que eu não compreendesse mais nada e tivesse que comprar um dicionário da minha língua morta.

Talvez tudo ficasse imóvel, sem começo e sem fim, até que alguém puxasse a tomada da existência e criasse uma tela em branco com pequenas impressões do que havia antes.

Dez minutos. Melhor deixar que ela fale, não consigo manter um assunto por muito tempo.

Costumava ser bom nisso, eu podia ouvi-la falando por dias e dias, sem perder a atenção, sobre qualquer assunto do mundo. Como estar boiando a deriva, num mar de palavras. Não importava para onde eu iria e sim onde eu estava.

Talvez ela tenha passado por aqui sem que eu percebesse. Talvez tenhamos esquecido um do outro. O tempo pode ter levado a memória embora junto com ele, para poder ter alguém para conversar. Vai saber.

Talvez eu estivesse esperando por algo que não lembro mais, talvez não estivesse esperando nada e tivesse parado ali de bobeira.

Que horas são afinal? Melhor ir para casa.

Acho que sempre foi assim, o tempo estica na direção que eu não quero.

Nunca gostei de relógios mesmo.

 

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Filtros III

Ele recebe um telefonema da mãe, durante o expediente, nada de extraordinário.

-Seu pai faleceu hoje. Ainda não acertei os termos do enterro, achei que seria o correto ligar para você primeiro.

-Ok. Obrigado por ligar mãe. Ajudarei a cobrir as despesas.

-Acho que seria o correto a ser feito.

-Sim, concordo. Preciso finalizar um processo agora. Até breve.

-Até.

Hora do almoço, ele pensa que fumar um pouco de Empatia seria o correto a ser feito. Talvez um ou dois de Pesar. A banca de cigarros está vazia, apesar de ser hora do almoço.

-Bom dia. Gostaria de uns quatro de Empatia ou Compaixão por favor. Ah, e um de Pesar, sem filtro.

-Os de Empatia estão em falta, e pelo jeito você não vem a uma banca há um bom tempo, os de Pesar deixaram de ser fabricados há uns seis meses.

-Estava tentando largar, não é um hábito bem visto no meu trabalho. Baixa a produtividade, segundo meu chefe. Mas achei que hoje seria o correto acender algo. Não sabia exatamente o quê, mas algo de qualquer forma.

O dono da banca estava com um Nostalgia mentolado na boca, provavelmente falsificado.

-Lembro do tempo em que a cada propaganda de Regozijo ou Orgulho que passava na tevê a banca ficava lotada. A propósito, você teve sorte. É muito difícil achar Compaixão ultimamente. Mas só tenho com filtro.

-Então quatro por favor. Pode ficar com o troco.

-Vou acender um Gratidão por isso.

-Tenha um bom dia.

-Igualmente.

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