Pop songs.

Eu realmente não sei o que tô fazendo aqui, é o que venho repetindo desde que entrei nessa festa, na verdade eu venho repetindo isso desde que soube que viria, podia evitar isso tudo e não vir (sim podia), mas isso nunca acontece. Geralmente fico mentindo pra mim mesmo, afirmando que não venho mais nesse tipo de coisa, mas a pequena dúvida se vai ser bom ou não (mesmo sabendo que vou achar uma grande merda) e a vontade de agradar a pessoa que me convidou, me faz sempre estar nessa situação escrota que é uma festa dessas. Ela não cobra esse tipo de coisa de mim, pelo menos não diretamente. Mas é uma obrigação social conhecer seus amigos e frequentar suas festas. Fingir que tô me divertindo. Mentir.

É aquele tipo de festa em que eu não conheço nenhuma das músicas grudentas e com melodia horrível que tocam a noite toda, o tipo de festa que a cerveja é cara e esses drinks enfeitados não deixam ninguém bêbado rapidamente, mas talvez o problema seja comigo mesmo e não com o lugar, não é como se eu fosse me divertir muito num boteco de esquina, no máximo ia encher a cara até desmaiar, o que eu sei que não é verdadeiramente um dos melhores programas pra sexta à noite, sem contar que não sei dançar, fico apenas com o copo quente de cerveja na mão, encostado na parede balançando a cabeça e o pé desengonçadamente, enquanto todas as pessoas da minha volta parecem coreógrafos do cirque du soleil. Metade das músicas de refrão parecido dizem pra jogar as mãos pro alto sem se importar, por que nessa hora não tem problema parecer um paciente de cirurgia que acordou no meio da anestesia que não teve tempo de se espalhar pelo corpo inteiro. Ou dizem “apenas dance, tudo vai ficar bem, tchara tchuru, apenas dance”.  Pode ser verdade pra todo mundo, mas comigo não cola. Não sei fingir sorriso em foto e não sei dançar.

Antes de entrarmos aqui, ela disse: “Relaxa, eu não vou te deixar só nenhum segundo sequer, a gente vai ficar tão grudado que até tu vai querer ficar longe de mim hehehe.” Decido acreditar, mas meia cerveja depois que a gente entra ela encontra uns amigos da faculdade, aos quais fui devidamente apresentado, o que gera um desconforto enorme, quando as mãos dos caras desencontravam minhas tentativas de abraços amigáveis ou quando eu beijava apenas duas vezes o rosto das meninas que deveria beijar três e subsequentemente o contrário beijando três vezes os rostos que deveria beijar duas vezes apenas, nossa como eu odeio esses rituais de saudação. Uma das gurias foi muito gentil e disse que eu era simpático, todo mundo na roda sabia que aquilo não era verdade. Até tentei me inserir na conversa algumas vezes, mas falhei horrivelmente, não ensaiei minhas falas direito, depois me vi totalmente deslocado e fora do assunto, divagando sobre boas maneiras de morrer rapidamente, fazendo os exatos passos e o balançar de cabeça que eu sabia que faria enquanto a música com o refrão mais meloso e repetitivo do mundo explodia nos meus ouvidos. Vai cara, se solta, ninguém vai te julgar, se mexe fora do ritmo e ri junto. Alguém acredita nisso?

Bebo rápido pra poder ir pegar mais cerveja e tentar continuar nesse looping sem que ninguém perceba ou pare de fingir que não percebeu. É tudo uma peça e eu não posso perder as deixas.

Todo mundo ri, todo mundo canta e dança a Macarena ou qualquer coisa do tipo e tudo me parece um baile de máscaras, ensaiado demais, atuado demais. Os gestos muito amplos e os sorrisos muito brancos na luz negra. Todo mundo sabe o refrão e o passinho, tudo se mexe, em diferentes direções, mas num único ritmo, que nem bobina. Tudo se encaixa, menos eu.

A luz muda e todo mundo se aproxima, se toca e beija. A outra metade das músicas fala em “se amar pra sempre” e “segurar um ao outro sem deixar ir” ou “nunca desistir e nunca decepcionar”. Vou te amar sempre, desde que dure 02:40.

Não quero me mexer e sem querer atrapalhar algum dançante, os quadris e cotovelos alheios fazem com que eu me encolha mais e mais. Cada um na sua marcação, por favor.

Quero sair, quero ir embora, a máscara tá ficando pesada. Quero vomitar esse ambiente neonrosa-vodkaenergético-geloseco, tirar do meu sistema. Cair na cama e fingir que foi um ensaio ruim que eu esqueci metade.

Deixo eles lá, alguém deve saber minhas cenas. Não sou insubstituível, longe disso.

Fim de cena, ela diz que dá pra tentar de novo, desde o começo. Eu errei algumas coisas, mas não tem problema.

Nós dois sabemos que é mentira.

 

por

Noan Moraes e Lucas Moraes.

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4 Comentários

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4 Respostas para “Pop songs.

  1. Super! Nossa, como me identifiquei rsrsr
    Entre uma frase e outra,soltei gargalhadas. Me senti lá dentro.

  2. Impossível não se identificar. Parabéns pelo texto pros dois (:

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